A Esquerda Caviar Eleita para Gerir a Crise na Europa

A Esquerda Caviar Eleita para Gerir a Crise na Europa

* Texto publicado no Causa do Povo nº 64 – Junho/Julho de 2012 | Jornal da União Popular Anarquista – UNIPA

As recentes eleições na Europa, especialmente na França e Grécia, mostraram o descontentamento da população com as políticas de austeridade, corte social e salarial, executado pelos governos europeus, sejam eles Socialistas, Social-Democratas, Trabalhistas, Conservadores ou Liberais. Eleição após eleição o governo que implementou tal medida é trocado da gerência do Estado Burguês. Entretanto, logo assume o timão do Estado, a incapacidade de enfrentar a bancada financeira, a direita neoliberal e a Troika (Banco Central Europeu, Fundo Monetário Internacional e União Europeia) se tornam evidente. As políticas econômicas implementadas até aqui tem atacado o que ainda resta de Estado de bem-estar social, fundado no compromisso da conciliação de classe dos anos pós-guerra e demonstram a desigualdade do poder político e econômico entre os Estados membros.

Grécia: A Situação Dramática com Euro ou Dracma

O caso mais emblemático é da Grécia. Presa ao Euro e ao poderio do Eixo Paris-Berlim, do antigo pacto Merkozy e do capital, o Governo social-democrata do PASOK aceitou as imposições de austeridade proposta pela Troika. As sucessivas mobilizações, protestos e greves gerais não foram suficientes para impedir que o parlamento grego vetasse o acordo imposto. O líder do PASOK chegou a propor um referendo, mas logo foi censurado por Angela Merkel e Nicolas Sarkozy, e voltou atrás na proposta. Na eleição de maio os dois principais partidos gregos perderem votos. O Nova Democracia ficou em primeiro com 18,5%, enquanto o PASOK ficou em terceiro com 13,2%, ante 44,6% dos votos nas eleições de 2009. O Syriza, uma coalização de partidos de esquerda institucionais, chegou em segundo com 16,8% – em 2009 foram 4,6%.

Sobre pressão da banca financeira e agora sem maioria parlamentar pró-austeridade, o Estado grego mantém-se paralisado diante da pressão da UE e dos capitalistas. Os trabalhadores e desempregados encontram-se diante da adesão as propostas reformistas dos partidos da esquerda institucional (Syriza, Partido Comunista e Dimar) que obtiveram 30% dos votos, mas sem acordo entre eles, e as crescentes mobilizações, greves e paralisações pelo País. No final de 2011 o Partido Comunista Grego entrou em confronto com grupos de esquerda extra-parlamentar e anarquistas para impedir protestos no parlamento grego. Assim, os trabalhadores gregos estão entre uma saída institucional burguesa, seja ela a continuação na Zona do Euro que dependerá de uma reversão do pacto de austeridade e, principalmente da política-econômica alemã, ou a saída da Zona do Euro com a volta do Dracma, uma saída parecida com a da Argentina, mas sem o peso do setor exportador primário argentino que contou com a alta dos preços das commodities nos últimos dez anos. A espiral de conflitos violentos por parte de organizações Anarquistas e da esquerda extra-parlamentar deve aumentar, mas ao que parece sem um direcionamento programático mais claro para ser apresentado aos trabalhadores. Não por acaso o número de abstenção subiu de 30%, em 2009, para 35%, nas eleições em maio de 2012.

GRÉCIA – Partidos/Coligações

Eleições 2009

Eleições 2012 (junho)

Proposta Política

Nova Democracia (Direita Liberal)

33,50% 29,66% Pró-austeridade e UE

SYRIZA (Coligação de Esquerda – Maoístas/Trotskistas/Verdes)

4,60% 26,89% Contra austeridade e pró-EURO

PASOK (Social-Democrata)

44,60% 12,28% Pró-austeridade e UE

Aurora Dourada (Nazi-Fascista)

0,30% 6,92% Contra Austeridade e UE

DIMAR (Esquerda Democrática, Dissidência do SYRIZA e PASOK)

 – 6,26% Contra Austeridade e pró-UE

KKE (Comunistas)

7,50% 4,50% Contra Austeridade e UE

Abstenções

30,00% 37,53%

França: a esquerda caviar assume o executivo       

Nesse turbilhão europeu, os franceses elegeram o Partido Socialista, de François Hollande, que propõe uma pequena mudança de rumo burguesa a simples austeridade da dupla Merkel-Sarkozy. Os socialistas foram eleitos com a seguinte plataforma: uma reforma fiscal; uma reforma bancária e por fim uma renegociação do Pacto Europeu que pretende fazer com que o BCE empreste direto ao Estado e torne a dívida em toda UE comunitária. Atualmente, de acordo com a hegemonia financeira, o BCE empresta aos bancos privados a juros de 1% ao ano, a fim de que estes emprestem aos estados em dificuldades – mas com taxas de 6 a 8,5% ao ano. Na verdade a proposta de Hollande é uma tentativa de salvar a UE e diminuir as diferenças entre os Estados, como fica evidente na comparação entre Alemanha e Grécia, uma vez que a primeira para manter os baixos níveis de desemprego, tem mantido uma política de restrição salarial com exportação e defesa dos bancos de origem germânica. Não à toa, tem uma das menores taxas de desemprego da região.

Dentro deste contexto de crise econômica e medidas de austeridade a candidata fascista da Frente Nacional (FN), Marine Le Pen, apareceu com 17,9% do votos, enquanto o candidato da Frente de Esquerda(Partido de Esquerda, PCF, Esquerda Unitária, República e Socialismo, Convergência e Alternativa, Partido Comunista dos Operários da França, Federação por uma Alternativa Social e Ecológica), Jean Luc Melonchon, ficou com 11,1%. A Frente de Esquerda adotou uma política de “reforma institucional” com slogan de formação de uma VI República através de uma “Insurreição Cívica”, que significa uma proposta reformista por uma Assembleia Constituinte para instauração de uma “Democracia Participativa”. Teve bastante adesão em várias periferias (Banlieue) de Paris e em departamentos e comunas do Sudoeste do País. Enquanto, a FN acusou a globalização e a imigração pela “decadência” francesa, investiu sobretudo em grupos sociais que obtiveram perdas sociais e estão marginalizados na política francesa devido a perda de seu peso eleitoral.

O número de abstenções foi de 20,52% no 1º Turno e 19,65% no segundo, branco e nulos 1,52% no 1º e 4,68% no segundo. O mais interessante numa análise mais detalhada dos dados é que o índice de abstenção nas eleições em regiões como a periferia no nordeste e sudeste de Paris, como Clichy-sous-bois (dos conflitos de 2005), teve taxa de abstenção de 35% e em toda a região em torno de 26,13%, acima da média nacional que foi de 20%.

A eleição do Partido Socialista (PS) não deve apresentar uma grande mudança na política econômica da Zona do Euro. É bom lembrar que o principal nome para disputar as eleições do PS era Dominique Strauss-Kahn, presidente do FMI, que foi um dos responsáveis em garantir que os planos de austeridade fossem aplicados pelos governos europeus.

A “esquerda caviar” quando esteve no poder na França nos anos 80, com François Mitterrand, capitulou e implementou um pacote de política de austeridade neoliberal. Agora, a situação da economia grega e a eleição do PS na França podem significar pequenos ajustes na austeridade, mas incapaz de resolver os problemas dos trabalhadores europeus e franceses, a não ser protelar a exploração capitalista e nem sequer chegar perto de algo que foi proposto e colocado em prática pela social-democrata no pós-guerra.

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