Fracionamento das lutas e colaboração de classes: a política governista para a classe trabalhadora

Fracionamento das lutas e colaboração de classes: a política governista para a classe trabalhadora

 * Texto publicado no Causa do Povo nº 64 – Junho/Julho de 2012 | Jornal da União Popular Anarquista – UNIPA

A hegemonia governista no movimento sindical brasileiro ainda é o principal trunfo da burguesia para garantir a aplicação do modelo neoliberal de desenvolvimento econômico no país. E as campanhas salariais de algumas categorias de trabalhadores no primeiro semestre de 2012 exemplificam isso.

Os trabalhadores do setor de transportes, principalmente rodoviários e metroviários, estiveram envolvidos em greves em todas as regiões do país somente no mês de maio. As greves ocorreram principalmente na segunda quinzena de maio em Belém, Belo Horizonte, Natal, Recife, Maceió, João Pessoa, Salvador, São Luís, Cuiabá, Florianópolis, Porto Alegre, São Paulo, Osasco, Ribeirão Preto, Campinas e grande parte das vezes englobando cidades do entorno. A pauta das greves invariavelmente continha reivindicações por condições dignas de trabalho e a maior parte dos sindicatos envolvidos são filiados a CUT e CTB.

Contudo, nada foi feito pelas direções sindicais para alterar o caráter de greves locais isoladas. Tal isolamento facilitou o contra-ataque patronal, que rapidamente lançou mão do poder judiciário para criminalizá-las. O que se observou foram interditos proibitórios, multas aos sindicatos e imposição de “acordos” pelos TRTs decretando o fim dos movimentos um por um, representando derrotas desastrosas para as categorias em luta.

Este fracionismo é uma política governista deliberada e outro aspecto dele pode ser observado na campanha salarial dos metalúrgicos do ABC paulista, onde, para preservar os interesses eleitorais governistas, a direção sindical cutista vem fechando acordos e convenções bianuais com relação às “cláusulas sociais” e impondo uma pauta apenas economicista em anos de eleição. Para piorar, em 2011 a direção governista do sindicato fechou com as montadoras (Ford, Mercedes, Toyota, Scania e VW) acordo bianual também com relação às cláusulas econômicas, deixando os trabalhadores destas empresas sem acordo em 2012 e fragilizando os processos de negociação do restante da categoria.

Sem dúvida, os interesses oportunistas destes sindicalistas do governo são a explicação para o estelionato político que praticam contra os trabalhadores. E as direções sindicais paragovernistas (PSTU/Conlutas, PSOL/Intersindical), que assumem estratégias derrotistas frente à hegemonia do governismo, não se dispõem ou são incapazes de abandonar o oportunismo enquanto método de fazer política sindical, o que as leva sempre a ficar a reboque do governo.

Porém, o discurso oficial dos governistas, que busca justificar as práticas do “sindicalismo de resultados”, carrega um conteúdo ideológico que atrasa muito o desenvolvimento da consciência de classe dos trabalhadores. Tal discurso é visto em expressões como o “Grito de Alerta em Defesa da Produção e do Emprego”, mobilização articulada entre as Centrais Sindicais governistas (CUT, CTB, FS) e representantes do patronato, que diz combater a “desindustrialização” e defender o “desenvolvimento”.

Entre as principais reivindicações do “Grito” estão a redução dos juros e a adoção de medidas para reduzir as importações e o principal motivo é o que consideram processo de “desindustrialização”, supostamente indicado pela queda da participação da indústria no PIB (27% em 1985 e 16% atualmente). Os governistas, posando de representantes dos trabalhadores, fazem parecer que a gestão dos negócios dos patrões deve ser uma pauta da classe trabalhadora, pois garantiria “empregos”, e difundem esta ideologia deturpada na base, fortalecendo a cultura de colaboração de classes (onde a classe trabalhadora colabora para sua própria exploração).

Já os paragovernistas (PSOL e PSTU), na prática, cedem a este discurso, por crença ou, ao menos, por não conseguirem fazer política de base num sentido contrário. E, se há alguns anos atrás a extinta Conlutas teve potencial para travar nas bases o combate político-ideológico contra o governismo e sua ideologia neoliberal, foi justamente o vício oportunista eleitoreiro e burocrático sindical do PSTU (força hegemônica na ex-central) o fator que levou a liquidação desta. Assim, destituiu a classe trabalhadora de organizações que pudessem lutar contra o fracionismo governista, seja unificando as lutas, como poderia ter sido feito no caso dos trabalhadores dos transportes, seja opondo-se as estratégias de divisão, como a que foi aplicada nos metalúrgicos do ABC.

Enquanto governistas e paragovernistas tentam fazer o papel de grilos-falantes do governo, na obsessão reformista de participar da gestão do capital, são os interesses do próprio governo que saem favorecidos, pois é dentro do mesmo debate do desenvolvimento e da colaboração de classes que são aplicadas medidas “de incentivo” a produção e consumo, como desoneração fiscal de empresários e facilitação de crédito, que tem por objetivo a transferência da renda dos trabalhadores para a burguesia.

Assim, enquanto a CUT diz mobilizar-se contra a “desindustrialização”, fecha acordos lesivos aos trabalhadores com as montadoras do ABC que são beneficiadas com a política governista de “incentivo à produção”, como a redução do IPI. E, após esses incentivos, são estas mesmas montadoras as recordistas de remessas de lucro ao exterior: mais de 24 bilhões de dólares de 2008 até abril de 2012. Somente em 2010, as remessas de lucro ao exterior representaram cerca de 10 vezes mais que o valor investido por elas, o que, num momento de crise nos países centrais, representa um alento para as burguesias imperialistas.

É importante que todo militante combativo denuncie o colaboracionismo de classe como uma política nociva a classe trabalhadora e busque construir em seus locais de trabalho organizações que se oponham aos engodos governistas e ao reboquismo paragovernista. Enquanto o governismo busca fracionar as lutas da classe trabalhadora, estimulando o corporativismo neoliberal, e se alia a luta dos patrões, nós devemos fazer o inverso: Unificar as nossas lutas e romper com a política dos burgueses (eleitoral, legalista e pacifista) são faces da mesma moeda.

 

Construir a Greve Geral!

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