Violência, reformismo e luta de classes na Europa: combater a criminalização das formas de luta

Violência, reformismo e luta de classes na Europa: combater a criminalização das formas de luta

* Texto publicado no Causa do Povo nº 64 – Junho/Julho de 2012 | Jornal da União Popular Anarquista – UNIPA


A Europa vive desde os anos 2005-2006 um novo ciclo de luta, desmentindo todas as previsões do fim da luta de classes. O ciclo de greves e grandes demonstrações na Grécia, mas também Espanha, Itália e França e a crise mundial do capital tem acelerado e aprofundado esse processo.

É nesse quadro que recentemente um grupo denominado Federação Anárquica Informal (FAI – formada ao que se sabe em 2003, na Itália, Grécia e outros países da periferia da Europa) lançou um comunicado em que assumiu a autoria de ações armadas contra autoridades de Estado na Itália. Outra ação foi o ataque contra o consulado do Chile e Suíça em 2010. Essa ação, mais especificamente, desencadeou um debate importante. Em primeiro lugar, prisioneiros gregos do grupo “Luta Revolucionária” lançaram uma crítica publica pela ação armada ter deixado “trabalhadores feridos”. Depois, o intelectual Frank Mintz elaborou uma “análise crítica”, supostamente se amparando nas críticas do grupo “Luta Revolucionária” e da Federação Anarquista Italiana à “ação da FAI”.

Esse debate volta a ser importante quando outras ações armadas recentes foram realizadas. O texto de Mintz serve tanto para ser objeto de análise quanto de denúncia. É basicamente uma condenação geral da luta armada, da sua suposta contradição com a “luta de massas” e a reafirmação desesperada do “pacto de bem estar social”. Não faremos aqui uma análise detalhada do documento (deixaremos isso para o futuro), mas ele basicamente: 1) afirma que as ações armadas criariam uma dupla contradição, uma dependência “técnica” ou “operacional” de empresas e fornecedores; 2) que a ação teria ferido e portanto “prejudicado” trabalhadores da embaixada chilena, nesse sentido moral e ideologicamente condenável.

Essa posição explicita todas as limitações do reformismo libertário. Façamos aqui a critica dos seus dois argumentos. Em primeiro lugar, toda ação no mundo real é determinada por condições materiais. A sociedade capitalista real tem um domínio sobre todas as técnicas, não somente as técnicas militares. Isso não significa que tais técnicas não possam ser usadas contra o sistema, e nem significa que seja “independente” do domínio capitalista. Se fosse assim, não seria possível comprar um “computador” nem usar a “internet” para fazer preparativos e ações de propaganda, pois essas geram dependência de empresas de gerenciamento de email e de produção de computadores, por exemplo.

Com relação ao argumento da ilegitimidade dos atos por terem causados danos “à trabalhadores”. Devemos lembrar que todas as ações militares, e mesmo ações de massa (como greves) tem dimensões imprevisíveis. Na realidade, elas são sempre ações que sacrificam em alguma medida os trabalhadores. Mesmo uma ação de massa de rua pode causar danos físicos e psicológicos diretos (aos militantes que as executam) ou indiretos (a trabalhadores que participem do ato ou mesmo que estejam completamente alheios a ele), ou mesmo, podem existir “trabalhadores” fascistas a serviço do Estado. E essas ações podem desencadear a repressão.

Ou seja, no limite, não existe diferença de conteúdo entre as ações da FAI e qualquer ação da luta de classes, existe uma diferença de forma. Seguindo o argumento de Mintz até as últimas consequências, teríamos duas conclusões: a) a luta armada é impossível ou condenável ideologicamente e b) qualquer forma de luta de classes que gere repressão será condenada e abandonada, e como todas geram repressão mais cedo ou mais tarde, o anarquismo resumir-se-á apenas ao propagandismo.

Aqui chegamos ao “X” da questão.  O texto de Mintz explicita a posição do reformismo libertário europeu. E para isso condenam de antemão a FAI, usando contradições e limites do “insurrecionalismo” que devem ser debatidas. Mas o que seu texto representa é o reforço à criminalização. Ao atacarem a FAI, reconhecem a legitimidade da sua criminalização e ainda a antecipam. Ao invés de convidarem ao debate teórico e demonstrar solidariedade de classe, o que exigiria uma crítica do revisionismo e do insurrecionalismo-foquista. Precisamos combater a criminalização das formas de luta do proletariado no Brasil e no mundo. Conforme avance a crise mundial, a luta de classes vai se desenvolver e o proletariado vai lançar mão de formas de luta cada vez mais avançadas.

Não a criminalização, não ao reformismo marxista e libertário!

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