A exportação do modelo de trabalho chinês para a periferia/semiperiferia do capitalismo

Até pouco tempo era comum ouvirmos na TV e nos jornais burgueses que o Brasil e a China poderiam desenvolver-se economicamente, apesar da crise. Tudo isso porque o nível de crescimento dos BRIC’s continuava alto em meio ao abalo na UE/EUA. Desta forma, estes estavam sendo vendidos como os salvadores do capital e a China, em particular, como futuro Império Mundial. Nada poderia ser mais falso!

Os efeitos da crise se dão de maneira desigual no tempo e no espaço, portanto, as analises que compreenderam o capitalismo como sistema-mundo já visualizavam o cenário internacional de baixo crescimento entre os BRIC’s.

Isso se dá porque o grande mercado consumidor do mundo, EUA/UE, está em crise e grande parte dos produtos desenvolvidos na China é vendida a esse mercado, fazendo com que a China decresça (atingindo o Brasil, que tem como maior comprador a China).

Para se tornar menos dependente do mercado consumidor dos países centrais a China, desde de 2002, vem operando importantes reformas domésticas, tais como, indústria de casas, automotriz, etc. aumentando assim seu mercado interno. Mas isso é ainda totalmente insuficiente para independência econômica chinesa diante do seu elevado nível de produtividade industrial.

Essa insuficiência se dá pela própria natureza do desenvolvimento chinês, baseado em grandes centros industriais com base na iniciativa de multinacionais que se estabeleceram no país nos anos 70, provocando uma das maiores migrações da História recente mundial.

A grande industria chinesa conformada inicialmente por essa grande massa de migrantes desenvolveu-se as custas de da imposição de mecanismos de superexploração sobre a classe trabalhadora, bem como o total controle dos sindicatos e violenta repressão aos protestos.

Então, mesmo que o governo chinês queira incentivar o mercado interno, essa tarefa é extremamente difícil, pois o crescimento chinês foi baseado na superexploração do trabalho com achatamento salarial, de forma que mesmo que se duplique o poder de compra da classe trabalhadora chinesa esse ainda será pequeno.

Devido à mudança nos planos quinquenais chineses e, também, à quantidade/intensidade das greves, elevou-se o poder de compra da classe trabalhadora chinesa, ainda que pouco. Isso provocou o deslocamento de grandes indústrias para países menores do sudeste asiático, tais como Camboja, Laos e Vietnã. Em países como Camboja e Laos, o trabalhador ganha a metade do salário de um chinês, enquanto que no Vietnã o salário chega a um terço do chinês. Cabe agora saber por quais outros países esse modelo será importado.

O modelo de trabalho que possibilitou esse crescimento na China combinou elementos do toyotismo, como o just-in-time, taylorismo e elementos específicos da China, como o sistema de dormitórios, as proibições das greves, as extensas jornadas de trabalho, horas extras acima do que a lei chinesa aceita, controle do Estado sobre os sindicatos etc. O que conforma um modelo específico de trabalho chinês.

Esse modelo desenvolvido na China agora é transportado para as regiões como o sudeste asiático, sobre o qual a China exerce influência e um poder subimperialista a serviço dos interesses do imperialismo americano.

O Brasil e o modelo de trabalho chinês: Desenvolvimentismo com superexploração

5-2011 Brasil e China assinam 20 acordos, entre os quais investimentos chineses em áreas relacionadas aos megaeventos (Copa e Olimpíadas) e instalação de fábricas como a estatal ZTE e Foxconn no Bras

2011: Brasil e China assinam 20 acordos, entre os quais investimentos chineses em áreas relacionadas aos megaeventos (Copa e Olimpíadas) e instalação de fábricas como a estatal ZTE e Foxconn no Brasil

No atual período de mundialização de capitais, nos quais os ultramonopólios movem-se com maior facilidade pelo globo (vide por exemplo as empresas de Eike Batista), o modelo de trabalho chinês, que provocou tantos lucros para as transnacionais, vem sendo exportando para além das regiões asiáticas.

Esse é o caso do Brasil: as obras do PAC (como Jirau/Santo Antônio/Transnordestina) são exemplos dessa transposição. O caso das hidroelétricas do Norte do país é o mais sintomático, já que parte significativa de sua mão de obra vem do Haiti, país ocupado militarmente pelo Brasil a serviço do imperialismo americano, o que de certa forma propiciou a grande imigração haitiana ao Brasil.

O boom da construção civil, impulsionado por obras do PAC, veio acompanhado por um aumento de 232% nos autos de infração registrados pelo Ministério do Trabalho devidos a irregularidades em relação à segurança e a saúde do trabalhador. As greves nas obras em Jirau e no Complexo de SUAPE apontaram as condições precárias de trabalho como motivo das paralisações.

Nessas obras, os dormitórios são de péssima qualidade, além de extenuantes jornadas de trabalho, inúmeros acidentes de trabalho já provocaram várias mortes. Essa aparente coincidência vem demonstrando a importação pelo governo brasileiro e pelas grandes empreiteiras (Camargo Corrêa, Odebrecht, Delta, etc.) do modelo trabalho chinês, que tanto lucro gerou ao governo chinês e aos capitalistas na última década.

A paralisação de 34 mil operários do Complexo Industrial de SUAPE, os 30 mil grevistas este ano e as revoltas operárias ocorridas em 2011 em Jirau e Santo Antônio, as paralisações no Porto de Pecém, seguidas da queima dos alojamentos, explicitam e representam uma reação aos níveis de superexploração a que estão submetidos os trabalhadores das obras do PAC.

A semelhança não é apenas a superexploração do trabalho e as péssimas condições nos dormitórios, mas também o controle sindical, no Brasil, pelo governo e, agora, pelo Estado através da reforma sindical (Lei das Centrais).

Essas relações de superexploração/trabalho escravo, estão interligadas a produção de commodities, existindo não apenas nas obras do PAC, mas também no campo brasileiro. O relatório da OIT “Perfil dos principais atores envolvidos no trabalho escravo rural no Brasil” aponta que as propriedades envolvidas no estudo estão localizadas principalmente no Norte do País, mas também no Nordeste e no Centro-Oeste, e estão envolvidas em atividades de pecuária (43,8%), setor sucroalcooleiro (14,8%) e culturas de algodão, soja e café (17,4%).

Somente a organização dos trabalhadores por fora dos sindicatos pelegos ligados ao governo/Estado, através de greves combativas, como as de Jirau, pode tirar os trabalhadores das condições precárias de superexploração/trabalho escravo que se encontram hoje, pois o desenvolvimento brasileiro e, em certa medida, a economia mundial, dependem das exportações brasileiras. Esse desenvolvimento, tão propalado pelos reformistas (governistas e paragovernistas), tem como alicerce o suor e principalmente o sangue dessa massa laboral.

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Artigo publicado no Causa do Povo nº66. Leia a edição completa CLICANDO AQUI.

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