Chavismo e Bolivarianismo: os limites da política anti-hegemônica desenvolvimentista e o protagonismo popular

     A morte de Hugo Chávez reabriu um debate político entre “chavistas” e “anti-chavistas”. O que é importante dizer, de um ponto de vista revolucionário, sobre o chavismo e a proposta de revolução bolivariana? Em primeiro lugar, devemos situar historicamente o chavismo e diferenciar nossa análise do maniqueísmo dos chavistas (que tentam exceder o efeito da política da “revolução bolivariana”) e dos anti-chavistas que tentam desqualificar através da denuncia de “totalitarismo” a política do falecido político Hugo Chávez.

     Existe uma diferença substantiva entre uma política anti-hegemônica e uma política anti-sistêmica. A primeira diz respeito a modelos de desenvolvimento capitalista que não se adéquam aos objetivos dos Estados e potências imperialistas hegemônicos, mas que não questionam os fundamentos econômicos do imperialismo (basicamente, oscilam entre intervencionismo e liberalismo econômico). A segunda política, anti-sistêmica abala não somente os interesses da potências hegemônicas, mas as bases econômicas do imperialismo e logo a economia capitalista e do conjunto do sistema interestatal. Nesse sentido, a política anti-hegemônica é uma politica que expressa no sistema interestatal os conflitos intraclasse da burguesia. Exemplos históricos foram os governos nacionalistas e políticas nacionalistas da América Latina “desenvolvimentistas”, que eram anti-hegemônicas porque tentavam modificar as bases do “subdesenvolvimento” que atendiam aos interesses dos EUA.

     O que o desenvolvimentismo produziu? Tanto as transformações se mostraram historicamente efêmeras, como o desenvolvimentismo rapidamente se adequou ao subdesenvolvimento, possibilitando o desenvolvimento econômico e industrial nos quadros da política hegemônica imperialista. O Peronismo, o Varguismo e o Cardenismo mostram essas contradições. E assim como o chavismo, eles tinham um componente de mobilização popular.

     O chavismo, portanto, poderia ser considerado, no máximo um tipo de política anti-hegemônica (e mesmo assim, com certas restrições). O que o chavismo retomou e tem como marca distinta foi a conexão com a participação popular. A vitória do “contra-golpe” em 2002 foi também um importante acontecimento, pois mostrou que as Ditaduras não são invencíveis e que é possível barrar o avanço das forças reacionárias. Mas o chavismo não pode ser uma alternativa “socialista” por dois motivos. Em primeiro lugar, a política econômica do chavismo em termos nacionais foi a “estatização”, a “política social” e de “reformas constitucionais”, ou seja, operações dentro do âmbito da democracia burguesa que preparam a integração dos trabalhadores ao Estado burguês. As reformas sociais não atacaram as bases da questão social. O intervencionismo estatal inclusive já começa a ser retomado em escala internacional e isso altera a própria posição do chavismo e seus supostos “avanços”. Na política externa, o chavismo não somente não rompeu com o imperialismo como aprofundou a relação orgânica com o capital estrangeiro, principalmente estadunidense, sob o controle do Estado.

     As instâncias de mobilização popular símbolos da “revolução bolivariana” são o que dão o caráter inovador do chavismo. Mas aqui mais uma vez se coloca um problema político. Qual o tipo de participação? A sociologia do chavismo mostra o mesmo componente carismático, personalista e verticalizante que produz efeitos limitadores e desorganizadores nos movimentos populares. O desenvolvimento da participação popular é o desenvolvimento no e através do Estado mediado pela liderança carismática. Logo, ela implica a negação do protagonismo popular e da autonomia operária. E o movimento de trabalhadores autônomo é o único sujeito possível da política anti-sistêmica. Aqui está a principal contradição do chavismo: se ele desencadeia a participação popular, ele a dirige e a deforma de uma maneira que esta participação nunca levará o chavismo mais longe do que ele já foi, ou seja, próximo de uma política anti-hegemônica.

     O chavismo irá enfrentar as mesmas contradições de todo movimento desenvolvimentista, de permanecer nacional-desenvolvimentista ou permanecer “popular”. É por isso que a solução é dada de antemão chamam desenvolvimentismo de socialismo para esconder essa contradição.

     Por outro lado, a imprensa burguesa e os partidos reformistas que assumem o anti-chavismo usam os argumentos liberais e conservadores: o liberal, é que o o chavismo é autoritário porque é intervencionista na economia; o conservador mostra o chavismo com componente de participação popular, uma violência da “massa” (a burguesia conservadora horrorizada vê nisso a “ditadura plebiscitária”). Mas nem acusações nem a autoproclamação “socialista” tiram o chavismo do âmbito de uma política nacional-desenvolvimentista.

     Nesse sentido, é preciso romper com o maniqueísmo da análise e o maniqueísmo da política anti-chavista e chavista. O chavismo, como o desenvolvimentismo, é um fenômeno contraditório que envolve a participação, a tutela e controle da classe trabalhadora através da burocracia. Logo é preciso modificar o foco do debate. É preciso discutir a autonomia do movimento popular e o protagonismo da classe trabalhadora, que são a base dos movimentos anti-sistêmicos. E tanto a política chavista como a anti-chavista impedem o desenvolvimento desse protagonismo e dessa autonomia.

     Logo, a alternativa revolucionária e socialista é construir uma tendência classista e combativa do movimento dos trabalhadores. Nem chavismo, nem anti-chavismo! Pela reconstrução da organização internacional dos trabalhadores nas bases do classismo e do internacionalismo!

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2 respostas para Chavismo e Bolivarianismo: os limites da política anti-hegemônica desenvolvimentista e o protagonismo popular

  1. Estimado senhor, eu não concordo com a sua análise. Com o que aconteceu na Europa Oriental, o socialismo eo comunismo foi completamente desacreditado e não é conveniente reviver um sistema falido.
    Este sistema socialista deve ser revisto e sair com outro nome. Assim que a corrupção, a ineficiência ea desordem estão fora do governo. O sistema Bolivariana é uma boa tentar ir nessa direção, certamente tem muitos problemas, permitir que o capitalismo (direita) destacam preocupar estes problemas.
    Desculpem a minha escrita, eu sou chileno e nem sequer uma boa comunicação é a linguagem

  2. Pingback: [Brasil] Reflexión-Debate | ‘As eleições chilenas e as degenerações na teoria e prática do anarco-comunismo’ |

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