Viva o Levante Popular: a juventude combativa e o ascenso da luta de massas no Brasil!

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Manifestação no Rio de Janeiro reuniu mais de 100 mil (17/06)

Os protestos populares nas diferentes regiões (Rio Grande do Sul, Goiânia, São Paulo e depois Rio de Janeiro e Brasília) que tomaram por tema a luta contra o preço dos transportes se apresentam como o principal elemento de conjuntura dos últimos oito anos. Eles representam um desafio prático e teórico ao movimento revolucionário. Quais suas causas? Quais os seus sujeitos? Ele é um movimento “novo”? Ele representa uma oposição “total” aos movimentos anteriores? Eles são compatíveis com a democracia? Qual a real agenda dos movimentos?

Em primeiro lugar temos de situar historicamente os protestos. Podemos dizer que o Governo Lula teve instrumentos de contenção dos movimentos sociais. Tanto macroeconômicos quanto políticos, de cooptação. A partir da posse de Dilma esses instrumentos entraram em processo de deterioração. As lutas dos operários das grandes obras, as lutas dos indígenas. Depois a grande greve do funcionalismo público e das universidades de 2012. A greve das universidades e a participação do movimento estudantil na luta contra o Governo Dilma preparou em parte o terreno para as lutas que eclodiriam em 2013. Muitos militantes de hoje foram formados nessas jornadas.

A mídia burguesa e os pseudocientistas sociais tentam, atônitos, explicar o surgimento das mobilizações. Somente eles achavam que a sociedade estava parada ou contemplada no Governo do PT. E tentam anular os sujeitos coletivos e criar uma mistificação de que os movimentos surgiram pelas “redes sociais”. As redes sociais foram um meio fundamental. Mas não foram o sujeito principal.

Nesse sentido, podemos dizer que dois componentes se combinaram. De um lado, uma mudança no campo governista, de direção. A UNE e FOE-UNE resolveram romper com sua política de amarrar o movimento estudantil e levar os estudantes para as ruas. De outro, uma mudança nas bases, vários militantes e coletivos independentes e alguns vinculados a partidos de esquerda, confluíram para as mobilizações. Dessa maneira, não existe um movimento totalmente “novo”, nem é uma mera replicação do movimento estudantil. O movimento estudantil está apresentando antecipadamente uma crise interna entre o Governo do PT e suas bases sociais já ensaiada em 2012. No ano passado vimos a primeiro choque entre a articulação partidária /Governo Federal e a articulação sindical da CUT. Esse ano vemos o choque entre o PCdoB e suas organizações de massa, a UNE e o Governo Dilma. Ou seja, o campo governista começa a refletir as contradições.

Atos inofensivos e “ordeiros” (típico das burocracias sindicais e estudantis) foram deixados para trás nas atuais mobilizações

Mas a combinação dessas mudanças de direção e das bases explicam o caráter nacional dos atos. Não explica nem sua dimensão qualitativa nem a dinâmica, que foi completamente imprevisível e que dependeu da entrada em cena de um único fator: a juventude trabalhadora e universitária e setores não-organizados (e logo, não tutelados pelo governismo e pelo para-governismo). As redes sociais foram o meio de se chegar a esses setores. Não foram o sujeito. É difícil definir causas, mas atos cresceram em participação conforme cresceram em radicalização e repressão.

A ideia de anular os sujeitos coletivos, múltiplos e plurais que existem não é ingênua. Ela apenas reforça ideia de que os trabalhadores não se organizam, são incapazes. Ou o capital (a tecnologia da internet) e o individuo (redes sociais), é sujeito ou procura um sujeito centralizado, formalizado. O trabalhador e suas formas coletivas locais e particulares são apagados da história. O fetiche tecnológico faz parte da campanha ideológica da burguesia de negar a existência da ação de massas.

Mas sendo espontâneos e organizados simultaneamente, organizados porque espontâneos e espontâneos porque auto-organizados, os atos não foram efetivamente dirigidos em sua plenitude por nenhuma força política. E é exatamente por isso que eles assumiram progressivamente a dimensão combativa e depois de levante popular nos dia 16, 17 e 18 de junho, com a tentativa de protesto nos estádios (RJ e DF) e com a tentativa de ocupação do Congresso Nacional, a ocupação da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ) e depois da prefeitura de São Paulo. O que isso significa? Vandalismo contra bens públicos? Contra o patrimônio histórico?

Os atos foram direcionados para dois alvos principais: os megaeventos, ou seja, o modelo desenvolvimentista do PT e contra os núcleos do poder estatal. Devemos fazer uma análise dos acontecimentos e questionar a campanha burguesa de criminalização da ação direta popular. Devemos situar a eclosão dos protestos violentos no quadro histórico recente.

A juventude trabalhadora e estudantil tem sofrido com a perseguição política e a violência da PM nas periferias do Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília (devemos lembrar que um estudante foi assassinado em Brasília em 2013 numa blitz e da repressão brutal dentro da USP). Mas, além disso, a primeira tentativa de construir atos “pacíficos” com a palavra de ordem “sem violência” lançada pelos reformistas foi desastrosa. A violência foi iniciativa da polícia.

Qual foi a estratégia do discurso da mídia corporativa? Procurar um “ataque inicial” que possa justificar a repressão e colocar a atuação da política como uma resposta à violência. Mas além da repressão que poderíamos usar para questionar esse discurso, existem ainda várias ações específicas nos últimos meses: 1) assassinatos e prisões de jovens e estudantes em várias partes do Brasil; 2) o desalojamento violento da Aldeia Maracanã no Rio de Janeiro no primeiro semestre; 3) as ações de abuso policial nos primeiros dias de protesto. Ou seja, a violência estava dada. O que faltava era a resistência. E ela surgiu.

Os setores das massas marginais às organizações e ao sistema político se organizaram em pequenos grupos e individualmente. Centenas de pequenos grupos de estudantes e trabalhadores se formaram no ato do Rio de Janeiro. Não somente para enfrentar nas ruas, mas os grupos de advogados e médicos que se formaram para apoiar a luta. As organizações políticas como a UNIPA e outras, eram um universo pequeno dentro de outra força da qual ela faz parte, mas que não se encontra organizada, ou melhor, que está se auto-organizando para a resistência e para a reivindicação social e política. E é claro que o movimento é heterogêneo na sua composição e expressão ideológica, que ainda não está definida. Mas esse é seu maior desafio e maior virtude.

A tomada da ALERJ em 18 de junho expressou o desejo de luta de todos. De todos os que sofrem e morrem nos hospitais públicos. Os que sofrem nos transportes públicos. Os que sofrem nas mãos da polícia e do Estado. Os “vândalos”, as “classes perigosas”, os indesejáveis sempre estiveram ai. Eles estavam sussurrando, através do voto nulo, através da resistência passiva. E agora passaram a ação. E na ação eles se defrontam com a violência do Estado e a violência simbólica dos jornalistas e pseudocientistas. E certamente esse processo, amadurecendo e se desenvolvendo, será o fator fundamental da conjuntura política.

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Manifestantes fazem barricada com carro em chamas

1 – A Luta contra a reação: classismo e luta entre reforma x revolução

Os protestos populares provocaram uma rápida reação da burguesia: a criminalização. Eles taxaram o movimento de “baderna” nos primeiros dias e convocaram a repressão. A brutalidade policial e o apoio popular levaram, primeiramente, às contradições e depois a uma mudança de linha. A burguesia, o Estado e a mídia corporativa criaram a polarização entre “vandalismo x movimento pacífico”.

De maneira geral, essa polarização é aceita como base dos próprios partidos reformistas. Daí o fato de rapidamente o PSTU, o PSOL, PT e PCdoB fazerem coro com a rede Globo e o Governo Federal. Dessa maneira, a agenda política dos Partidos reformistas é aquela da mídia corporativa e do Estado e isso ajuda a aumentar a antipatia e antagonismo entre essas manifestações autônomas e as organizações partidárias. Por quê?

Porque essa é uma falsa contradição. Porque essa contradição é vazia? A propaganda é a política por outros meios. A política expressa nesses conceitos é a política da reação. Quem ataca, quebra não está apenas quebrando objetos. Está atacando os símbolos e conceitos da dominação burguesa. Responde com violência simbólica e a violência simbólica e real de 500 anos de opressão.

O discurso contra o vandalismo é uma forma de violência simbólica contra o povo, contra a juventude pobre e trabalhadores precarizados. Porque os atos dos manifestantes foram taxados de vandalismo? Porque eles atingem e questionam o núcleo do poder reacionário. Em primeiro lugar, eles constituem uma manifestação espontânea de um povo julgado incapaz, passivo. Em segundo lugar, os atos têm alvos específicos: bancos, propriedades públicas que representam o poder de Estado e história de exploração. E por fim os levantes foram direcionados para o poder legislativo e executivo, ou seja, para o foco de todo movimento revolucionário. A falsa contradição, portanto, visa despolitizar um movimento que questiona os fundamentos do poder reacionário em atos de resistência de massas.

Porque podemos falar da violência simbólica? Porque ela apenas reforça a legitimidade do Estado, dos governos e dos empresários e caminha de mãos dadas com a violência policial-militar. Ao criar essa falsa contradição, se pretende criar a divisão no movimento de massas entre um setor que pode ser legitimamente alvo da repressão e outro que não. Um setor que é ator político legítimo e outro que não. A reação está se organizando para defender: 1) o caráter absoluto e inquestionável da propriedade privada; 2) a legitimidade absoluta do Estado e de seus atos, e mesmo os mais violentos e arbitrários. A reação, representada pelo capital monopolista, pelo Estado e pela coalizão partidária no poder precisa então ganhar a sociedade para esse discurso. A campanha contra o vandalismo é apenas farsa. A defesa do patrimônio histórico também.

Por que o capital pode demolir o Maracanã, patrimônio histórico? Por que o Museu do Índio pode ser demolido, desalojando os indígenas e não é considerado patrimônmio histórico? Por que o Estado pode demolir o Hospital dos Servidores do Rio de Janeiro, o IASERJ? Por que a floresta amazônica pode ser destruída pela Usina de Belo Monte em nome do capital? O capital pode destruir tudo. Está destruindo tudo. O levante popular não está destruindo nada além dos obstáculos a sua própria ação criativa. Não lutamos só pelo bem “público”. Lutamos para definir o conceito de bem público. E não respeitamos os conceitos da reação. Pois não há como combater a reação sem combater esse discurso e sua violência simbólica e física.

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Protesto em Porto Alegre

Qual é a contradição do movimento de massas? Ou seja, existe no interior da classe trabalhadora e juventude uma diferença entre as concepções e estratégias de luta dos revolucionários e dos reformistas. Entretanto, quando um setor que supostamente defende as reformas se alinha ao bloco reacionário, à mídia corporativa, significa que está abdicando do princípio básico da unidade de ação de classe trabalhadora frente à reação. E este é o desafio. Os partidos reformistas devem ou renunciar a seu comportamento de alinhamento com o discurso de denuncia o vandalismo e, consequentemente, defender incondicionalmente os protestos populares ou passar definitivamente ao lado da reação. A contradição entre reforma e revolução se apresenta hoje no movimento da seguinte maneira: os reformistas ficam do lado do povo e fazem sua defesa dentro dos órgãos legítimos dos trabalhadores, ou denunciam a massa e passam à reação.

Diante da eclosão do movimento de massas conclamamos a unidade a todos. Mas sabemos que o reformismo está cada vez mais numa relação de promiscuidade com a reação. A tarefa dos militantes sinceros e eventualmente equivocados é rever essa linha. O inimigo é o Estado e o Capital, e os pilares da reação, a polícia, a força nacional e os governos. A discussão sobre o método e estratégia não deve romper à unidade geral da classe frente à reação. Trair essa unidade é trair ao próprio povo. Dessa maneira, devemos opor a contrarrevolução e reação o método revolucionário. A ação direta de massas e a greve geral.

Por isso fazemos uma saudação à juventude combativa do Brasil. Levamos uma saudação todos os trabalhadores e estudantes que enfrentam à violência física e simbólica. E dizemos que estamos juntos nas linhas das barricadas. Mas a nossa tarefa é levar uma política e uma palavra de ordem revolucionária. A política é: organizando para desorganizar a reação, desorganizando a reação para organizar a revolução. É preciso avançar nas mobilizações e garantir a autonomia e ação direta de classe.

Anarquismo é Luta!

UNIPA – União Popular Anarquista

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