As Jornadas de Junho e o circo de Julho: Diante do fascismo das centrais é preciso combater o governismo e reformismo em múltiplas frentes

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O dia nacional de lutas na cidade do Rio de Janeiro foi a mais cabal prova da cisão do governismo e do reformismo com o movimento de massas e com qualquer tarefa de representação das lutas da classe trabalhadora. Ao mesmo tempo ilustra a cisão em nível nacional, já que o 11 de julho marcou a “unidade das centrais sindicais e movimentos sociais governistas e paragovernistas” na defesa da agenda do governo e do Estado policial-militar. 

No caso do Rio de Janeiro, as centrais (CUT, CTB, UGT) por ação auxiliaram na repressão, ajudando os espiões da polícia a perseguir manifestantes e dispersar o ato. Tanto exaltavam a repressão quanto ajudaram a agredir manifestantes que se defendiam da polícia no início do ato, na Candelária, e ao final, nas imediações da Cinelândia.

Mas para além da indignação quanto aos atos de delação mais vergonhosos, é preciso entender o que aconteceu no Rio de Janeiro como parte de uma política e uma tática. E precisamos combater essa política e essa tática em múltiplas frentes.

O elemento fundamental é entender a estratégia política do ato. E para isso precisamos entender o processo de lutas. As jornadas de junho foram marcadas pela participação massiva e pela ação direta. As jornadas de junho produziram ganhos concretos e questionaram profundamente o governo, sua política e as próprias organizações de trabalhadores. Elas atacaram também as sedes do poder legislativo e executivo, marcando assim uma polarização social e política.

Para o dia 11 de julho existiam dois atos. A passeata das “centrais” e o ato do Fórum de Luta pelo Transporte, convocado para o Palácio Guanabara. O Fórum deliberou por se incorporar ao ato das centrais e depois seguir para o Palácio Guanabara. Dessa maneira, a política e a estratégia do Governo Cabral era impedir um ato com a ocupação do Palácio Guanabara. Nesse sentido, o desfile cívico das centrais cumpria um papel importante de tentar imobilizar as massas na Cinelândia.

Por sua vez, a política ou estratégia das centrais era preservar seu próprio espaço, acenando para o Estado que elas não tinham nenhuma relação com o levante de junho, e que rechaçavam o setor revolucionário de massas. Essa estratégia foi pautada por três elementos: 1) a unidade das centrais, que se apresentava como movimento legitimo, legal e pacifico em oposição ao levante espontâneo de junho; 2) essa unidade se pauta pelo apoio ao pacote de reformas políticas do Governo Dilma e pautas corporativistas; 3) essa unidade visava isolar o setor revolucionário de massas, desqualificá-lo e identificá-lo para que este seja destruído pela repressão, demonstrando que um ato legalista é permitido dentro da ordem.

A política dos setores revolucionários era de participar do ato até a Cinelândia e levar amplos setores até o Palácio Guanabara, conforme a deliberação da Plenária do Fórum de Lutas. Sua tática era de oferecer resistência e combater as palavras de ordem do setor governista e de direita das centrais, e mostrar a legitimidade da resistência de massas à opressão. Essas políticas se refletiram na estrutura do ato e sua dinâmica.

Qual foi a tática do Estado? Usar o cerco policial e provocadores. Eles estiveram por todo o ato incitando, com o apoio dos dirigentes das centrais, o ataque aos “mascarados”. Como não conseguiram grandes adesões na base, deixaram uma provocação para o final plantando a caixa com “molotovs” na rua. Essa provocação visava facilitar a prisão e justificou o início da agressão aos manifestantes.

Qual foi a tática das centrais governistas, de direita e paragovernistas? 1) atacar o setor revolucionário de massas, chamando os mascarados de “criminosos” e dizendo que eles não poderiam ficar no ato; 2) lançar palavras de ordem nacionalistas, tocar o hino nacional em momentos graves de enfrentamento; 3) impedir que ocorresse uma luta ideológica entre reforma e revolução (através da disputa pelo encerramento do ato na Cinelândia ou sua incorporação no ato do Palácio Guanabara), ajudando a polícia a prender os membros de um setor revolucionário e desorganizar uma linha de resistência. A expectativa dos governistas era que a policia dispersasse “os mascarados” e permitisse que o conjunto do ato chegasse a Cinelândia para o showmício.

A política governista foi vitoriosa? Não. As palavras de ordem não conseguiam grande adesão. Não conseguiram nem mesmo que as bases condenassem em uníssono os mascarados. Em diversas situações essas bases foram solidarias na luta contra as prisões. Ao mesmo tempo, a esperança de que a polícia atuaria para reprimir um setor revolucionário de massas não foi plenamente vitoriosa. Apesar da CUT, CTB e UGT atuarem diretamente na repressão auxiliando na agressão e na prisão de pessoas, o óbvio aconteceu: a repressão foi dirigida para todos na rua e mesmo o ato legalista não pode ser finalizado.

A tática governista-reformista foi vitoriosa? Em parte. Eles não conseguiram com o discurso desqualificar o setor revolucionário de massas. Os “mascarados” eram aplaudidos onde passavam por amplos setores. Mas auxiliando o serviço secreto da policia e provocando um confronto logo que o ato chegou a Cinelândia, os governistas conseguiram impedir a luta ideológica que se daria pela disputa do direcionamento do ato ao palácio Guanabara.

A política reformista das centrais só ajudou a uma política sair vitoriosa: a do Estado repressor e da burguesia. O principal objetivo era que as bases do ato da Cinelândia não se incorporassem ao ato do Fórum de Luta pelo Transporte no Palácio Guanabara. E esse objetivo foi alcançado, graças à colaboração direta da polícia política stalinista da CUT e CTB, com o silêncio covarde da CSP-CONLUTAS ou com ações muito tímidas e contraditórias.

A tática revolucionária de massas foi vitoriosa? Em parte. Na pior das hipóteses ela conseguiu um empate. Não somente o setor dos “mascarados” participou de todo ato, como conseguiu oferecer alguma resistência à repressão. Se não conseguiu executar sua política de realizar o ato até o Palácio Guanabara, sua resistência desmascarou a política de “showmício” das centrais e mostrou seu caráter de direita.

Se o ato do Rio de Janeiro explicitou essas contradições, a paralisação nacional não marcou diferença em relação a essas contradições. As ações do ato e seus efeitos (nulos) sobre as reivindicações concretas opõe o ato de 11 de julho às jornadas de junho. O movimento que surgiu das contradições sociais em junho e transformou-se num movimento de massas espontâneo está numa relação de contradição com o ato chapa branca das centrais.

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Manifestantes combativos. Rio de Janeiro (11/07).

1) A autocrítica: os limites da ação de vanguarda sem a luta política na retaguarda

A participação de um setor de massas que defende a ação direta e a resistência foi fundamental. Mas não podemos cair em ilusões. Essa ação conseguiu produzir várias vitórias em relação ao governismo, neutralizando suas táticas. Mas a vitória política foi do Estado burguês, que mesmo não sendo bem sucedido em sua tática, conseguiu graças ao apoio das centrais, alcançar seu objetivo político e estratégico (impedir a tomada ou ocupação do Palácio Guanabara).

Essa derrota na política ou estratégia foi o resultado de um fato simples: o setor que defende a ação direta de massas tinha uma grande vanguarda, mas não tinha uma retaguarda, ou tinha uma retaguarda pequena. Do ponto de vista do momento decisivo, quando a polícia atacou os manifestantes, ela conseguiu dividir esse setor em três blocos: um na Cinelândia, outro na Avenida Chile e outro entre a avenida Chile a Carioca. Os setores ficaram sempre com a Polícia à frente e os setores governistas da CUT, CTB e companhia atacando pela retaguarda.

Isso poderia ser um detalhe, mas não é. Na realidade, existe um problema político de fundo. Essas direções se apresentam como legítimos representantes dos trabalhadores e estudantes e controlam a representação das categorias a partir das direções e burocracias sindicais. Dessa maneira, elas impedem que a ação direta de massas seja organizada a partir dos locais de trabalho, estudo e moradia e, nesse sentido, geram a situação de separar o setor que defende a ação direta de massas das organizações e das bases. É certo que essa separação não é completa.

Mas o fundamental é o seguinte: Os setores social-democratas (CUT, CTB, CSP-CONLUTAS) e conservadores (UGT, Força Sindical, NCST) querem criar o mito de que o único sindicalismo e a única política possíveis a partir das organizações é o de ação legalista e oficialista. E para isso querem promover uma cisão entre o setor que defende a ação direta e as bases. Seu interesse é se preservar no controle da burocracia sindical e do movimento social, dos recursos e da representação. Para isso eles querem isolar na “vanguarda” o setor de ação direta, como se este não tivesse nenhuma relação com as bases, como “agentes infiltrados”. Assim eles preservam o poder sobre a organização e representação.

O Estado burguês também quer impedir a ação direta de massas. Por quê? O levante popular de junho demonstrou que a ação direta é capaz de derrotar o Capital. Logo, existem interesses comuns entre a burocracia sindical e reformista e o Estado. Esse interesse é em desorganizar a ação direta de massas, criando uma falsa dualidade entre sindicatos e movimentos sociais que só realizam ações pacíficas e centralizadas versus grupos que não estão vinculados à organização e representação dos trabalhadores. 

O objetivo estratégico do Estado burguês é separar os grupos de ação direta das organizações e da luta política dentro das organizações de representação dos trabalhadores. Induzi-las ao isolamento ou ao desvio vanguardista (de deixar a luta política e o trabalho organizativo na base e se dedicar única e exclusivamente ao trabalho de enfrentamento que se dará sob condições cada vez mais desfavoráveis).

Por isso o trabalho de vanguarda, fundamental nos protestos no Brasil, não pode prescindir de um trabalho político-organizativo na retaguarda. E isso exige um programa, uma forma de organização e uma política.

2) Por um sindicalismo revolucionário: ação direta, resistência e organização de baixo para cima

A polarização entre reforma X revolução hoje no Brasil se apresenta como a polarização entre os setores de massa que defendem a ação direta e os setores que defendem a ação parlamentar e Estatal como sujeito e os sindicatos e movimentos sociais como bases de apoio da coalizão partidária e governamental. O primeiro método é característico do sindicalismo revolucionário e o segundo do sindicalismo conservador (fascista-varguista e social-democrata).

Essa polarização não significa que exista um setor revolucionário de massas consolidado. Significa que a posição revolucionária deve necessariamente defender a ação direta e através dela construir as organizações de tipo sindicalista revolucionário. A ação direta não pode permanecer como uma ação de vanguarda. Ela deve se transformar em parte da organização e das formas de representação dos trabalhadores, estudantes e do movimento popular em geral.

Por isso, é preciso fazer a disputa política e ideológica dentro dos locais de trabalho, estudo e moradia. É preciso criar oposições e organizações de tipo sindicalista revolucionário, para que a energia e combatividade do movimento de massas consigam se estruturar de forma duradoura e transformar-se em uma alternativa de luta e organização para a juventude e a classe trabalhadora.

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