Da periferia para o centro: qual o papel da luta popular na capital federal?

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O Distrito Federal (DF) não esteve aparte do levante popular de junho. Uma análise das jornadas de lutas populares no DF é essencial, pois ela ilustra questões fundamentais do levante popular em termos nacionais e seus desafios. Diversas batalhas foram travadas no Estádio Nacional, na esplanada dos ministérios e na rodoviária. Deve-se também, mais do que nunca, considerar as expressões de luta nas periferias e no Entorno do DF (que compreende as cidades goianas espacialmente próximas e que possuem suas populações centralizadas economicamente pela capital) já que diversas lutas ali foram e são historicamente travadas com grande capacidade de resistência das massas.

Primeiramente cabe ressaltar que, enquanto as lutas massivas tiveram maior fôlego em outras cidades do país (São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Salvador etc.), estas tiveram um rápido ápice em Brasília, com os atos na esplanada, que durou pouco menos do que duas semanas. As manifestações no DF foram se massificando rapidamente, muito em resposta a conjuntura nacional e a repercussão midiática. Não que não houvessem uma série de demandas populares sendo defendidas, mas o processo repentino de luta e os métodos utilizados não foram capazes de construir uma pauta material clara que unificasse de fato as manifestações e pudesse dar um fôlego maior para a continuidade da luta. O movimento ficou refém por um lado dos tradicionais partidos eleitoreiros e grupos autonomistas, e por outro de “pseudo-lideranças” nascidas no facebook, despreparadas e, no pior dos casos colaboradoras da mídia e da polícia. A principal consequência era a fragilidade da situação. Com a não aprovação da PEC 37, e com um certo ofuscamento da mídia para os protestos a nível nacional, a queda na massificação foi imediata, alguns atos foram propositalmente desmarcados e o movimento foi sendo boicotado pela confusão de informações e dispersão de atos e convocatórias via redes sociais.

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Populares derrubando ônibus na rodoviária (24/06)

Não que a luta tenha parado em outros locais, como nos locais de trabalho e de moradia. A revolta popular do Entorno Sul (Valparaíso, Jardim Ingá, Ocidental etc.) com mais de 5 mil pessoas que queimaram cerca de 10 ônibus e apedrejaram a prefeitura de Valparaíso no dia 21 de junho; a paralisação relâmpago dos rodoviários contras as demissões e o enfrentamento das massas com a polícia em plena rodoviária no dia 24 de junho; assim como a revolta em Santo Antônio do Descoberto-GO (palco de outros enfrentamentos combativos com a polícia) no dia 8 de julho, além de diversos outros atos nas periferias, que ainda continuam acontecendo, demonstraram a possibilidade concreta para a luta combativa nos locais de moradia, trabalho e estudo.

É claro que a luta no DF também não começou em junho. Quem mora no DF ou Entorno sabe que as queimas de ônibus, os fechamentos de rodovias e as manifestações nas periferias e cidades do Entorno são uma constante. Porém, houve nacionalmente um salto de qualidade nesse mês de junho. A brutal repressão policial desatada contra as manifestações obrigou o povo a resistir e a enfrentá-la, separando claramente o Estado, a polícia e a burguesia da classe trabalhadora – ainda que tal separação não tenha evoluído do nível ideológico ao nível político-organizativo. A ação direta tomou proporções nacionais envolvendo amplas camadas da classe trabalhadora e da juventude e, o que é mais importante, deixou o exemplo do caminho histórico a seguir para o povo arrancar suas vitórias. Tanto os atos nas periferias quanto os protestos na esplanada ou no Estádio durante o mês de junho demonstraram em parte essa contradição: repressão policial versus resistência popular.

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Repressão policial na abertura da Copa das Confederações.

1) As ilusões legalistas, as marchas na esplanada e a importância estratégica da periferia

Existe em Brasília um bombardeamento ideológico legalista e pró-cidadania muito superior a todas as outras cidades do país. As marcas do discurso ideológico da capital federal estão nas propagandas, na arquitetura, na vigilância, repressão, no sonho do concurso público etc. Porém, toda essa “áurea mística” de Brasília é sustentada com a pobreza, a precarização dos serviços públicos (saúde, educação) e especialmente uma profunda questão urbana relacionada à moradia e ao transporte. O Entorno e as periferias do DF expressam a profunda marginalização histórica do proletariado, e é onde as massas são confinadas e mantêm sua vida e sua identidade. A esplanada dos ministérios e demais símbolos da capital federal não são patrimônios a serem respeitados pelo povo, são precisamente os símbolos da sua dominação e exploração diária, e são vistos pelo povo com desconfiança nos dias de labuta, de dentro do ônibus lotado. O centro é para onde as massas se deslocam todos os dias, e este mesmo centro que foi erguido com o suor e sangue de milhares de trabalhadores lhe é negado qualquer participação e vivência em sua própria obra. Tal contradição expressa dois territórios diferentes da luta de classes, o terreno do inimigo em que se encontra o Estado e o terreno onde se encontram as massas trabalhadoras.

Porém, tal contradição centro-periferia a muito tempo não é levada em consideração pela “esquerda” eleitoreira e reformista a nível nacional. O que ocorre em Brasília é a centralização das manifestações na esplanada dos ministérios, a militância voltada para o serviço público e disputa dos aparatos estatais, sindicais e estudantis, a pouca ou nenhuma atividade de agitação e propaganda nas periferias (ou nos locais de trabalho e estudo), dentre outros sintomas. Porém, o fetiche pela esplanada é um dos mais fortes sintomas dessa doença burocrática.

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Oportunistas da UNE se reúnem com governo após “volta olímpica na esplanada”.

O velho e falido método das “voltas olímpicas” na esplanada dos ministérios, tal como foi o circo do dia 11 de julho, organizadas pelas centrais sindicais conservadoras (CUT, CTB, Força Sindical) e social-democratas (Conlutas e Intersindical), já é conhecido da população. As massas trabalhadoras geralmente observam passivas de dentro do ônibus ou da rodoviária as marchas “ordeiras” e eleitoreiras passarem pela esplanada. Sem qualquer envolvimento, sem ter sido efetivamente convocada ou mobilizada, a classe trabalhadora local é em geral uma ínfima parcela dessas marchas. A muito que tais “protestos” na esplanada são vistas com desconfiança pelos trabalhadores. Os sinceros lutadores observam sempre a mesma corja de burocratas subindo para fazer acordos já previamente estabelecidos entre estes e o governo. As Centrais e Partidos, não pretendendo efetivamente combater o Estado capitalista e sim, pelo contrário, colaborar com ele, organizam-se junto com a polícia para impedir o menor sintoma de ousadia e combatividade das massas (geralmente como a ocupação de apenas uma via, tal como foi com a marcha da UNE no dia 27/06). E, enquanto os verdadeiros burocratas sindicais e estudantis continuam traficando os interesses do povo, os paragovernistas do Psol e Pstu permanecem proferindo a sua eterna ladainha: “faltam condições para a radicalização”, para justificar seu colaboracionismo e alimentar a ilusão covarde de que “um dia” (num futuro indefinido!) haverá condições para romper com os métodos da burocracia governista. Está montando o circo nosso de cada dia.

Além disso, a algum tempo a esplanada também é palco dos “passeios de domingo” contra a corrupção, com direito a convocatória na televisão, onde uma multidão é orientada por partidos e grupos de direita (e pela própria mídia burguesa) nos mais estreitos limites da concepção cidadã e moralista da luta contra a corrupção. Esse segundo tipo de “marcha”, predominantemente da pequena burguesia e de servidores públicos, expressa de forma muito evidente a “ideologia pró-cidadania” que falávamos anteriormente. Nada mais conservador.

Portanto, uma das principais características destas marchas é reforçar as simbologias estatais e da “participação cidadã” dentro da legalidade do sistema. Ambas operam no sentido de fortalecer o Estado brasileiro e reforçar a “forma correta” de manifestação, ordeira e inofensiva. Isso ocorre porque as duas marchas supracitadas possuem seus representantes oportunistas no parlamento e se colocam às ruas como meros apêndices, quer dizer, como força externa aos políticos profissionais seja no executivo ou legislativo, portanto sem independência. Por outro lado, e indo na contramão dessas “marchas”, estão as jornadas de junho. As massas populares no país inteiro estão aprendendo por uma dura experiência que a única forma de serem “representadas” é através da ação direta nas ruas, pelo “quebra-quebra”, pelas barricadas e pela greve geral. As massas não possuem interesse nas negociatas de gabinete, e isso pelo simples fato de sempre saírem perdendo nesse terreno e sempre saírem alimentando novos burocratas traidores. Portanto, nas jornadas de junho o povo escolheu as ruas como campo de batalha e descobriu que é possível vencer nesse terreno. O temor dos oportunistas de esquerda e de direita não poderia ser maior.

É importante ressaltar essa questão pois as maiores manifestações de junho em Brasília ocorreram na esplanada, e apesar de existirem setores que tentaram transformar-las em marchas ordeiras e legalistas, não alcançaram êxito. Os ventos combativos das lutas Brasil afora exigiam novos métodos, novas concepções do que é bom ou ruim. A transposição dos estreitos limites da legalidade e do “aceitável” pelo Estado ou pela FIFA estavam permanentemente em cheque. Desde a manifestação na abertura da Copa das Confederações (15 de junho) onde as massas romperam a “orientação” do Psol e PT para fazer mais uma volta olímpica na esplanada (orientação com o único intuito de fugir do Estádio) que o conflito entre os setores reformistas e combativos se apresentou nas jornadas de junho. Naquele dia, apesar da manifestação conseguir romper diversas barreiras policiais, ao final do ato a repressão policial caiu violentamente sobre os manifestantes, que despreparados não conseguiram opor grande resistência e houveram muitos presos e feridos.

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Manifestação no Congresso Nacional (17/06)

Na “ocupação” do Congresso Nacional, dia 17 de junho, o aparato repressivo foi surpreendido mais uma vez pela ousadia das massas, ninguém foi preso e não houveram grandes confrontos com a polícia. Porém, o Estado que desconfiou demasiadamente da capacidade da ação direta popular na esplanada cometeu erros básicos, reconhecidos pela própria polícia, fato que levaria a ampliação considerável do aparato repressivo nos próximos atos. Ainda no dia 17 de junho, houveram massivas e radicalizadas manifestações no país inteiro demonstrando a força da ação direta (especialmente na ocupação da ALERJ no Rio de Janeiro) e preparando o terreno ideológico para o dia 20 de junho.

Podemos dizer que o “dia nacional de lutas” em 20 de junho foi uma das maiores demonstrações de determinação das massas trabalhadoras na esplanada dos ministérios. Ela em nada lembrou as marchas ordeiras e legalistas das Centrais governistas ou as “marchas contra a corrupção”. Mais de 60 mil manifestantes ocuparam a esplanada, porém, dessa vez a repressão apresentava um gigantesco aparato policial-militar. A massa presente, no entanto, já estava relativamente calejada e instintivamente impulsionada para a radicalização frente as provocações do Estado policial. Os manifestantes que exigiam o direito de ocupar novamente o Congresso Nacional foram duramente reprimidos pela polícia, e após isso, era uma questão de tempo e de local para irem estourando novos conflitos entre manifestantes e policiais. Nessa “ginástica” do combate os manifestantes foram ampliando cada vez mais a radicalização e a ousadia nas ações, e os gritos “sem violência” sumiram diante da determinação de resistência das massas.

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Confronto no Itamaraty (20/06).

Apesar de todo apelo pacifista da mídia burguesa a nível nacional, os grupos combativos, que resistiam com pedras e paus, foram ganhando apoios e adesões frente a brutal repressão policial. Na esplanada dos ministérios, o ponto mais alto do conflito com a polícia foi na entrada do Palácio do Itamaraty. Não era uma minoria de vândalos e anarquistas “depredando o patrimônio público”, era uma massa enorme de jovens e trabalhadores dispostos a enfrentar a repressão e a destruir as simbologias opressivas do Estado. Para os oportunistas de plantão, a tentativa de ocupação do Itamaraty lhes pareceu um ato de vandalismo sem sentido, sem objetivo, mas para os manifestantes que resistiam naquele momento à repressão policial aquilo era uma demonstração de força popular, e se pensarmos em todas as manifestações e confrontos que ocorriam naquela noite em todo país e no mundo, realmente aquela ação ganha toda sua relevância. Ainda naquela longa noite, diversas barricadas em chamas foram levantadas, mais de cinco ministérios apedrejados e pichados com demandas populares, três manifestantes presos, mais de 150 feridos, e alguns policiais também feridos.

A partir do dia 20, houve um grande declínio na participação das manifestações, especialmente na esplanada. O último grande ato na esplanada foi no dia 26 de junho e contou com cerca de 4 mil manifestantes. Esse protesto, no entanto, teve ao seu fim uma brutal repressão policial que perseguiu durante quilômetros os manifestantes, jogando bombas de gás lacrimogêneo e efeito moral, espancando, jogando cachorros e atropelando as pessoas com os camburões, houveram dezenas de presos e feridos. O Estado, através da ampliação gigantesca do aparato policial-militar, estava dando o recado de que ali na esplanada dos ministérios, na capital federal, não seriam mais toleradas manifestações populares combativas e violentas. Por outro lado, é certo que o próprio povo possuía limites organizativos claros para manter permanentemente um enfrentamento na esplanada no patamar em que o Estado estava se propondo.

Portanto, no caso das lutas na esplanada, estas rapidamente se esgotaram essencialmente por ser aquele um terreno privilegiado para o inimigo e ainda não haver uma organização popular suficiente forte para: 1) Manter o ânimo elevado nas massas, através da organização e agitação cotidiana nos locais de trabalho, moradia e estudo, e um local de organização central como, por exemplo, as Assembleias Populares constituídas em BH e RJ – a tentativa de algo similar em Brasília sofreu o mesmo rápido definhamento e tal espaço, cuja área de encontro era a própria esplanada, garantiu a não unificação de pautas e posteriormente seguiu a reboque do governo ao se resumir a debater a reforma política; 2) Uma organização massiva da resistência popular às forças da repressão policial estatal, tal como está ocorrendo atualmente no Rio de Janeiro com a preparação da autodefesa. Apesar das importantes manifestações travadas na esplanada (possibilitadas principalmente pela massificação), devemos ter claro que a esplanada dos ministérios é um campo estratégico e central do Estado. No atual momento, levar a luta para as periferias e locais de trabalho significa afastar taticamente as manifestações do principal campo de batalha do inimigo e trazê-la para mais próxima do povo trabalhador e juventude das periferias. Incendiar as periferias e locais de trabalho e estudo com a chama da organização e ação direta popular, eis a tarefa dos lutadores do povo no atual momento.

2) A “Assembleia dos Povos” e a cantilena governista

Após a batalha do dia 20 de junho foi convocada uma “Assembleia dos Povos” para o dia 23 de junho. A assembleia contou com mais de 300 pessoas e poderia ser um importante momento de organização da revolta das massas, porém, na prática não só não contribuiu para organizar as lutas, como teve um impacto desmobilizador sobre o conjunto do movimento. A direção conjunta dos governistas (PT e PCdoB), para-governista (Psol e Pstu) e autonomistas (MPL) foi incapaz de unificar as lutas no DF e, ao contrário disso, confundiu, cansou e enfraqueceu a disposição de luta dos presentes na assembleia.

Sem objetividade, as assembleias trabalharam de forma idealista. Na primeira assembleia os presentes perderam mais de duas horas definindo uma dinâmica impossível de ser cumprida, sob o argumento de ser a forma mais “horizontal” para o debate. Resultado: quase nada foi deliberado a não ser a divulgação de um “calendário de atos” com diversas manifestações fragmentadas todos os dias, grande parte delas na própria esplanada, e grande parte delas acabou não ocorrendo. A segunda assembleia foi mais idealista ainda, se propôs a definir com “perfeição” um programa geral e “detalhado” de reivindicações e pouco se preocupou em debater o próprio futuro das manifestações de rua, as táticas, os métodos de organização. Ou seja, se debateu um “lindo” programa que era incapaz de ser levado a prática por falta de base social mobilizada. Quando o tema da reforma política tomou maiores proporções, a assembleia se resumiu a debater tão somente esta pauta, mostrando sua reduzida capacidade de intervenção política, sendo mais determinada que determinante.

Em termos políticos, a Assembleia dos Povos seguiu a cantilena governista de que a direita estaria dirigindo o levante de junho e que, portanto, era necessário unificar “toda a esquerda” em torno de um programa comum. Porém, para os reformistas a principal tarefa não era aprofundar a luta nas ruas e sim controlar e domesticar essa luta, e tudo isso sob bandeira de disputar o movimento para que não tomasse rumos de “direita” ou “fascista”. Sabemos que na verdade tal política foi desde o início levantada para blindar o governo Dilma das críticas. Frente a realidade de não poder mais controlar e manipular as manifestações nas ruas, os governistas chegaram ao desespero de alarmar a possibilidade de um “golpe de direita”, omitindo obviamente o fato da burguesia já estar muito bem acomodada no atual governo. Dessa forma os petistas, infelizmente, conseguiram dar a Assembleia dos Povos um caráter dirigista e burocrático frente ao levante popular, criando em Brasília mais um espaço superestrutural descolado das massas e temente a sua revolta.

Por sua vez, os para-governistas e autonomistas foram incapazes de propor uma política alternativa para as lutas. No final das contas, a CSP-Conlutas e a ANEL continuaram na rabeira da CUT e centrais sindicais pelegas dando aval aos seus métodos burocráticos e sua política governista, e o MPL continuou no seu diletantismo autonomista, incapaz que é de fazer uma análise clara do governismo e o papel burocrático e reacionário deste, motivo inclusive pelo qual é a anos um espaço de militâncias ocasionais e flertes de setores do PT-DF.

Diante dessa iniciativa derrotada, e outras atitudes desastrosas levadas a cabo pelos reformistas no Brasil inteiro, cabe agora definir em linhas gerais algumas táticas a defender de acordo com a estratégia geral revolucionária e anarquista. Cortar pela raiz os métodos e concepções reformistas é uma necessidade para avançar na luta dos trabalhadores e estudantes combativos.

3) Ir ao Povo: A tarefa dos anarquista diante do levante popular

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Manifestação em Santo Antônio do Descoberto (GO).

Para tirar as orientações da nossa atuação para o próximo período, devemos considerar estrategicamente que, estando a luta de classes de forma geral mediada pela dominação do Estado capitalista, o povo trabalhador nas ruas sempre luta em terreno inimigo, portanto, na defensiva estratégica. Os manifestantes nas ruas podem avançar com possíveis ofensivas táticas (batendo e recuando), inclusive aplicando derrotas parciais ao inimigo, mas não poderão vencê-lo definitivamente a não ser através da insurreição geral, no campo e na cidade, ou outro fator que eleve a classe trabalhadora para a ofensiva estratégica. Tal é a forma revolucionária de compreender a natureza da luta de classes, sem ilusões ou covardias. O que é permanente aos distintos níveis da luta é que os trabalhadores devem se organizar autonomamente para combater a burguesia, não para conciliar com ela. Portanto, os diferentes métodos e táticas utilizados (de propaganda, agitação e organização) devem condizer com essa compreensão estratégica e acumular forças para tal.

Dessa maneira, os anarquistas tem duas tarefas: 1) a tarefa de impulsionar a ação direta de massas; 2) a tarefa de impulsionar a autoorganização. As formas da ação direta comprovam que é possível enfrentar o Estado, mas a situação agora não é de ofensiva, então é preciso saber atacar e recuar, de acordo com relação local de forças. Quando o aparato repressivo está concentrado, é preciso descentralizar as ações. Quando o aparato repressivo esta descentralizado e é pego de surpresa, é possível realizar ações nos centros de poder (como na ALERJ e no Palácio Itamaraty). Como vimos no caso de Brasilia e em diversas capitais, a formação dos órgãos temporários como os fóruns de lutas e as assembleias populares foram imobilizadas ou muito prejudicadas pelas contradições do governismo, do paragovernismo e do autonomismo. Logo, os anarquistas não somente devem defender a ação direta, mas realiza-la de acordo com uma tática e estrategia, e combater os governistas e oportunistas dentro das assembleias e fóruns temporários e também nas bases das diferentes categorias. Isso significa defender o poder das bases e também um método materialista de mobilização, que parta não de reivindicações abstratas mas das respostas aos problemas materiais da classe em cada momento histórico.

Estamos vivendo uma nova conjuntura da luta de classes, e o próximo período de lutas será marcado pela experiência e continuidades do levante de junho. O desenrolar da luta dependerá do aprendizado com o povo, e acima de tudo que esse aprendizado vire ação e reorganização, ou seja, destruição das velhas e falidas representações dos trabalhadores e construção de formas realmente novas de auto-organização.

Nesse sentido, os sinceros lutadores não devem esperar qualquer iniciativa ou falsas promessas dos partidos eleitoreiros e sindicalistas pelegos, pois as podres disputas pelos cargos no Estado e nas burocracias sindicais e estudantis os levam sempre para o imediatismo e oportunismo, afastando-os cada vez mais das massas. Devemos, ao contrário, nos afastar e afastar nossos camaradas da mentira e do oportunismo dos partidos e centrais, desvendando a olho nu toda a podridão por detrás dos partidos mais “vermelhos”.

A alternativa é, portanto, como diria Bakunin: “Ir ao povo”. Manter e ampliar o trabalho de base nos locais de moradia, trabalho e estudo, debatendo e defendendo os métodos de luta, programa e formas de organização combativos e classistas. Este trabalho de base deve ser permanente e pode não surtir efeitos imediatistas, no entanto, a partir da própria experiência histórica sabemos que não existe atalho para a auto-organização popular. Essa iniciativa militante poderá partir primeiramente dos combativos movimentos populares, sindicatos, oposições sindicais, associações comunitárias e movimento estudantil, mas não deve se restringir a eles, já que o levante de junho demonstrou uma grande potencialidade criativa das massas que deve ser incentivada e apoiada. Mais do que nunca devemos levantar a bandeira pela construção de uma Tendência Classista e Internacionalista!

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Carro da TV Bandeirantes pichado na manifestação do dia 20/06.

 

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