A importância da luta camponesa e indígena na atual conjuntura: a estratégia da ação direta frente ao reformismo

guaranis-kaiowas em frente a cerca em reserva indígena (MS-1998)

Guaranis kaiowas em território indígena (Mato Grosso do Sul,1998)

O levante de junho colocou uma clara oposição aos mega-eventos e, conseqüentemente, aos planos desenvolvimentistas do Estado. Porém, na “gestação” destes conflitos em meados de maio-junho os indígenas também se levantavam em lutas radicalizadas pelo país. Naquele momento duas características estavam evidentes: 1) As lutas que se travavam nas cidades e nos campos expressavam em seus métodos a ação direta e a independência frente aos Partidos e Centrais (ou aprópria omissão e boicote por parte destes últimos); 2) Uma forte repressão policial-militar baixava sobre todas estas lutas, levando inclusive ao assassinato de camaradas indígenas no Mato Grosso do Sul. A polarização social que explodiu em junho não caiu do céu ou das “redes sociais”, ela teve a sua origem na própria dinâmica do conflito de classes em nosso país, conflito esse que parece incompreensível para os reformistas e burocratas sindicais que desde o início os assistiram de seus gabinetes.

As lutas indígenas há algum tempo vêm trazendo fissuras no consenso governista. Recentemente os conflitos foram ficando cada vez mais agudos, com a luta dos Guaranis Kaiowa e também com as “retomadas” de terra pelo povo Terena no Mato Grosso do Sul. Muitas lutas também vêm sendo travadas contra a usina de Belo Monte, pela retomada da Aldeia Maracanã, contra o setor Noroeste em Brasília, contra as barragens e hidrelétricas que atingem diretamente as áreas indígenas e camponesas. O Estado por sua vez vem desatando uma verdadeira guerra pelo desenvolvimento, uma re-colonização interna, assassinando e reprimindo os povos indígenas e camponeses. A grande questão é: não podemos analisar a totalidade dos conflitos desencadeados no mês de junho, que explodiram em revolta popular nas grandes cidades do país, sem compreender o acirramento da luta de classes que também está ocorrendo no campo, onde os indígenas estão sendo importantes protagonistas da resistência. O mesmo governo burguês e seu projeto desenvolvimentista está sendo “desafiado” no campo e na cidade.

aldeia-latuff

A luta pela terra não é apenas travada pelos indígenas, ela envolve também a ampla massa camponesa com sua diversidade cultural e econômica (ribeirinhos, posseiros, quilombolas, assalariados rurais, etc.). O campesinato brasileiro tem sido alvo freqüente do “agronegócio”, sendo expulsos violentamente ou legalmente de suas terras, sendo submetidos às cadeias produtivas extorsivas do capitalismo agrário, sendo recrutados para trabalhar em regimes de semi-escravidão assalariada, dentre outras expressões da estrutura agrária de nosso país. O fato é que essa estrutura, juntamente com os grandes empreendimentos energéticos e dos mega-projetos, vem sendo aprofundada como as bases econômicas e a base ideológica do “Brasil potência” do atual governo Dilma/PT. Combater essa base significa necessariamente desestabilizar o governo, tal é o medo dos oportunistas diante das recentes lutas indígenas no campo e lutas populares na cidade.

Esse projeto “modernizador” colocou os povos indígenas em uma situação clara de conflito. Mas o que realmente colocou a luta indígena na oposição direta ao Estado foi sua relativa independência e capacidade de luta. Enquanto as direções dos movimentos sociais e Centrais sindicais (MST, Contag, CUT e CTB) negociavam a morte da “reforma agrária” (que nunca realmente saiu do papel!) em mesas de negociação e acordos com o governo Dilma/PT, as bases indígenas demonstraram intransigência e não estavam dispostas a ceder mais seus territórios. Essas lutas indígenas, através das ocupações de órgãos públicos, obras de usinas e hidrelétricas, e especialmente as resistências e ocupações de terras, mais do que a obtenção da importante solidariedade de amplas parcelas da sociedade (e do silencio e omissão dos governistas), deve levar uma profunda reflexão e reorganização ao restante do movimento camponês e popular no Brasil.

Dia 11 de julho: nada de luta pela terra!

O circo armado para o dia 11 de julho auto-intitulado “dia nacional de lutas” demonstrou a domesticação de todas as Centrais Sindicais frente ao Estado desenvolvimentista e militarista brasileiro. As Centrais pactuaram em um programa que não se ligou ao levante de junho, silenciaram frente aos mega-projetos, frente à repressão policial, frente ao modelo agrário-exportador. E isso não é por acaso, importantes partidos governistas (dirigentes da CUT, CTB e UNE) apóiam a Copa do Mundo e os mega-eventos esportivos, além de serem primeiros aliados da burguesia rural e do “agronegócio”. Além disso, a dinâmica burocrática do “dia nacional de lutas” não apenas colocava o movimento camponês subordinado politicamente ao movimento sindical-urbano, como levava os trabalhadores e a juventude em geral à submissão e tutela dos supostos representantes sindicais e partidários. Legítimos para o Estado, oportunistas para o povo em geral.

Mesmo que a reivindicação pela reforma agrária tenha sido levantada, assim como todas as outras reivindicações ela não saiu do papel e da simples agitação inofensiva, da súplica frente ao governo Dilma. Nenhuma grande luta foi travada no campo, nenhuma greve rural ou ocupações de terras. Sequer as batalhas que estavam sendo travadas pelos povos indígenas foram lembradas e incorporadas. No entanto, após uma década de ilusões, e frente ao levante de junho, as Centrais e Partidos governistas possuem maior dificuldade em advogar a suposta “disputa do governo”. Enquanto os indígenas e a juventude marginalizada continuam suas batalhas no campo e na cidade, enquanto estão resistindo e avançando, os Partidos e Centrais estão implorando pela governabilidade do Estado e pela manutenção da ordem democrático-burguesa. A cada passo que é dado na luta popular os oportunismos vão ficando mais evidentes. Juntamente aos levantes populares nas cidades e às greves nas obras do PAC e mega-projetos, as lutas pela terra e pelo território possuem um potencial indigerível pelas atuais estruturas do Estado brasileiro.

Por novas retomadas de terra, por novas ações diretas e revoltas camponesas!

Diante da conjuntura apresentada, a aliança do campesinato com o proletariado marginal em nosso país parece evidente, necessária e possível. Ambas representam as maiores frações da classe trabalhadora brasileira e onde o conflito de classe se apresenta de forma mais violento tendo em vista o caráter do Estado brasileiro e o atual modelo de acumulação do capital.

Por isso é essencial que os setores combativos do movimento camponês e indígena promovam uma ruptura definitiva com o governismo. É preciso construir oposições de trabalhadores assalariados, camponeses e indígenas para lutar por terra e liberdade. Lutar contra o desenvolvimentismo neoliberal.

Está mais claro do que nunca que a luta popular combativa, no campo e na cidade, pode e deve se desenvolver por fora das Centrais e Partidos da ordem, e deve renegar o método das negociatas de gabinete e das súplicas ao governo. Isso não significa que os movimentos camponeses devem entrar em cada luta como se fosse a última, que não devem ter tática para alcançar seus objetivos. O fundamental é que saibam estabelecer a independência e o protagonismo na ação dos camponeses e trabalhadores em geral. O combate ao reformismo e ao governismo devem se traduzir em novas formas de organização, métodos de luta e reivindicações. A tarefa do momento é unificar os setores combativos e organizações de massa em defesa de uma alternativa sindicalista revolucionária para o campo e para a cidade.

Viva a Luta por Terra e Liberdade!
Por uma Tendência Classista e Internacionalista!

Camponeses

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2 respostas para A importância da luta camponesa e indígena na atual conjuntura: a estratégia da ação direta frente ao reformismo

  1. Mikhail Goldwin disse:

    Acordamos?
    Esse é um questionamento que devemos levar em consideração.
    As manifestações de junho realmente fizeram com que esses jovens refletissem?
    O campesinato tem que se colocar com maior propriedade e nós que não acreditamos no reformismo, devemos nos repensar e dedicarmo-nos a estruturarmos mais táticas.
    A repressão não foi nenhuma surpresa, mas a falta de ação de setores da “esquerda revolucionária”, sim.
    Podemos ter despertado mais jovens, e os tornamos companheiros(as)/ camaradas.
    Quanto ao 11 de julho, sinceramente, observa-se a crise dos sindicatos e das centrais. As mesmas não tem a menor força mobilizadora.

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