Anarquismo e Violência: as tarefas e limites da tática “Black Bloc”

Capucha-Molotov

Os militantes identificados como Black Bloc tem sido alvo de perseguições. A polícia, o Governo Dilma e Cabral tentam colocá-los na prisão como criminosos. Por outro lado, partidos como o PT, PSOL e o PSTU e as direções sindicais pelegas fazem o mesmo. Tentam fazer a crítica de que os Black Bloc “atrapalham” as ações de massa. Eles criam uma falsa polêmica.

O que é o Black Bloc? Quais seus limites e qual seu potencial transformador? É preciso em primeiro lugar observar a história. O Black Bloc é uma forma de luta que surgiu na Europa dos anos 1970 e 1980. Essa tática visava defender as “ocupações” (prédios abandonados que trabalhadores tinham transformados em centros comunitários). A polícia usava de extrema violência. Então os ativistas passaram a usar capacetes de moto e improvisar escudos para tentar impedir os despejos. Ou seja, o Blac Bloc era um meio. O fim era a defesa de uma organização social contra à violência policial e estatal. Mas foi nos movimentos contra à globalização nos anos 1990 que o Black Bloc se tornou conhecido no mundo. Agora, depois da crise de 2008, a tática Black Bloc tem sido difundida em vários países da periferia da Europa (Grécia, Espanha, Itália), África (Egito) e no Brasil.

Mas na realidade, essa não é a primeira forma de autodefesa dos trabalhadores e povos oprimidos. Na realidade, no Brasil e no mundo já existiram várias formas e táticas de autodefesa e violência de massas. As principais formas eram a do sindicalismo revolucionário, que considerava a sabotagem, a resistência à polícia e a insurreição como o centro do seu repertório. Estes resistiam tanto nas manifestações de rua, quanto com formas clandestinas de organização. Muitos realizaram ações de guerrilha e ficaram conhecidos como expropriadores, porque expropriavam bancos para financiar a luta revolucionária.

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Foto: Guerra Civil Espanhola, 1936.

Mas essas táticas não são exclusivas do levante popular de junho. Em várias situações, camponeses e trabalhadores rurais incendeiam canaviais e sedes de fazenda. Os operários destruíram o alojamento da empresa como protesto contra as péssimas condições de trabalho e destruíram a burocracia sindical. Logo, táticas de autodefesa e violência de massas não são nem novas, nem exclusivas do Black Bloc.

Então como podemos entender a crítica aos Black Bloc? Existe uma crítica burguesa. Essa acha que todos que lutam são criminosos. Mas existe também a crítica da esquerda oportunista que diz que os Black Block, por usarem da violência, afastam as massas da luta. Seu argumento se torna mentiroso por dois motivos: o surgimento da tática Black Bloc no Brasil acompanha a massificação do movimento. Massificação que os burocratas partidários e sindicais nunca tinha conseguido.

Por que a esquerda oportunista ataca o Black Bloc e toda a forma de violência de massa? Porque ela precisa mostrar que respeita os limites da ordem burguesa, que jamais irão criar formas de organização que ameacem de forma real esse poder. Ou seja, a esquerda oportunista e os ricos e poderosos temem o povo, que o povo tente tomar o poder. Essa é a raiz do problema.

Nesse sentido, a tática Black Bloc é apenas uma dentro da história da luta dos trabalhadores. 1º: o Black Block é uma tática, sem essa tática, sem incorporar e defender essa tática não existe movimento revolucionário. A tática do Black Bloc e sua dimensão defensiva e ofensiva, devem ser integrados por uma estratégia revolucionária. A massa de trabalhadores marginalizados está nos ensinando e criando condições para mudanças sociais efetivas no Brasil. Sem o uso dessa tática, da violência de massas, não existe revolução nem ninguém pode se proclamar revolucionário.

Quais os limites da tática Black Bloc? Apesar do uso em países como Alemanha, EUA, Europa, em todo o Movimento Antiglobalização, não se conseguiu criar um movimento de derrubada do capitalismo. Somente a violência de massas, sem uma organização e um programa não é suficiente. Corre-se o risco de transformar o “meio em fim”. Ou ainda, como aconteceu com certos setores do Black Bloc nos EUA, considerar as ações de violência de massas como uma encenação, para satisfazer o desejo individual de expressão.

Mas também as organizações sindicais que não colocam o problema da violência de massas não conseguem ser um fator revolucionário sério. Grandes levantes populares como o do Equador em 1998, Argentina em 2001, Bolívia em 2005-2006 não assumiram essa estratégia e tática, foram integradas no capitalismo e não conseguiram realizar mudanças sociais. 

Por isso é preciso e devemos evitar dois erros: o pacifismo contrarevolucionário, que condena a violência de massas; e o mito da violência como um fim em si. Por isso a tarefa é de uma organização de massas de tipo sindicalista revolucionário, que eduque, politize. Ao mesmo tempo que apoia as formas de autodefesa e luta nas ruas. E também que lute contra a burocracia sindical e dos partidos políticos. A tática Black Bloc precisa se integrar na Estratégia do Sindicalismo Revolucionário. Fora dele ela tende ao isolamento e enfraquecimento. Dentro dele ela se potencializa e potencializa a organização classista e combativa.

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5 respostas para Anarquismo e Violência: as tarefas e limites da tática “Black Bloc”

  1. Felipe disse:

    Galera, cabe mencionar os ZENGAKUREN, estudantes japoneses que em 70 já utilizavam a mesma tática, mas sem esse nome. Serve para fugir da historiografia eurocêntrica e para demonstrar um pesquisa mais profunda.

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  3. sededejustica disse:

    Não seria mais logica então a utilização dos metodos de ação direta individual como faziam os anarquistas russos e italianos ?

  4. Karnak disse:

    Vcs não acreditam q a violência do movimento já é esperada e até de certa forma prevista dentro do plano burguês? E, sendo assim, o movimento Black Bloc se torna uma massa de manobra? Pq danos reais ao sistema não causa, geralmente quem sofre são os próprios ativistas, população e polícias (outro gado manipulado).

  5. Como o proprio texto diz:
    “O Black Bloc é uma forma de luta que surgiu na Europa dos anos 1970 e 1980. Essa tática visava defender as “ocupações” (prédios abandonados que trabalhadores tinham transformados em centros comunitários). A polícia usava de extrema violência. Então os ativistas passaram a usar capacetes de moto e improvisar escudos para tentar impedir os despejos. Ou seja, o Black Bloc era um meio. O fim era a defesa de uma organização social contra à violência policial e estatal.”

    Claramente a tática tem um objetivo claro que é a da autodefesa da classe operária em vias de entrar em processo revolucionário contra a violência policial e estatal. Mas o que vemos (principalmente no Brasil), é essa tática sendo usada discriminadamente, sem realmente causar prejuízos reais para a classe dominante e apenas causando prejuízos com a imagem da causa. No Brasil, a organização e a divulgação dos movimentos libertários ainda é pequena demais e ainda perde muito em números para a esquerda autoritária que é muito mais organizada no cenário nacional. O problema é que nós não fazemos quase nada como ocupações que se tornam centros comunitários, e apenas destruímos a esmo o patrimônio de uma burguesia cheia de polices de seguro e meios para jogar a conta em cima dos trabalhadores, enquanto nosso foco principal deveria ser a organização e a disseminação do movimento anarquista. O problema é que o Black Bloc esta sendo ostensivamente usado pela mídia contra o anarquismo, contra a causa revolucionária. Tal estratégia no Brasil atualmente é infrutífera, contraproducente e fora de contexto (pelo contrário da Grécia, onde o movimento anarquista ja conquistou zonas autonomas e outras várias conquistas, além de terem apoio da opinião publica o suficiente para contra-atacarem as agressões estatais de forma eficiente, usando a estratégia Black Bloc).

    No Brasil, nós temos que pensar antes em como poderemos ter apoio popular, antes de agirmos como tivéssemos apoio popular. E depois temos que pensar em nos organizarmos, construindo o poder popular e usando estratégias que realmente minem o poder da classe dominante. A desobediência civil e outras estratégias pacíficas são ótimas para atrair apoio popular e da opinião pública. A estratégia Black Block é boa para ser usada em defesa de ocupações e em retaliação a violência estatal que a opinião pública já demonstra estar reprovando. Mas a estratégia revolucionária principal, não é nenhuma dessas. A estratégia principal é a greve geral e a tomada dos meios de produção pelos trabalhadores, e ela só é possível com organização e apoio popular o suficiente. Não é inspirando as pessoas a simplesmente destruírem coisas e sim inspirando elas a pararem a base do sistema, que é a produção, que torna a revolução possível. Só com uma greve geral anarquista, com o máximo de adesão possível(incluindo motins nas forças policiais), que a construção de uma revolução bem sucedida é possível (isso deve ser feito antes dos autoritários). A partir daí o foco será em coletivizar e defender a produção contra os ataques da classe dominante, sendo que ai sim o embate violento será mais necessário.

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