As eleições chilenas e as degenerações na teoria e prática do anarco-comunismo

FORA-Marcel Claude-Michelle Bachelet-Evelyn Matthei-Marco Enriquez Ominami

Marcel Claude (Todos a la Moneda) , Bachelet (Nueva Mayoria), Evelyn Matthei (Alianza), Marco E. Ominami.

Acesse este Comunicado em versão PDF CLICANDO AQUI.

Comunicado Nº 37 da União Popular Anarquista (UNIPA) – Brasil, novembro de 2013. 

“(…) O que é certo para mim é que hoje já não há piores inimigos do povo do que os que procuram desviá-lo da revolução social, a única que pode lhe dar a verdadeira liberdade, a justiça e o bem estar, para o arrastar novamente para as experiências enganosas destas reformas ou destas revoluções exclusivamente políticas, das quais ele foi sempre o instrumento, a vitima e o papalvo.”

Mikhail Bakunin

O Chile viverá no próximo dia 17 de novembro sua eleição presidencial, marcada pela concorrência de oito candidatos e pela polarização entre a coligação abertamente de direita “Alianza” (UDI, RN) e os oportunistas de centro-esquerda “Nueva Mayoria” (DC, PRSD, PPD, PS, PC). Frente a essa conjuntura uma série de intelectuais ligados as organizações anarco-comunistas autodenominadas “especifistas” iniciaram um debate acerca de sua relação com o Estado e a esquerda chilena. Carentes de uma teoria revolucionária o resultado não poderia ter sido mais desastroso: a organização Red Libertária declarou apoio ao candidato Marcel Claude (Partido Humanista) da coligação Todos a la Moneda[1], e a organização Frente de Estudantes Libertários (FEL) também não tardou em apoiar a linha política da Red Libertária[2].

Porém, não devemos entender este posicionamento como uma mera traição ou desvio de conduta e sim como expressão de um processo histórico de profundo revisionismo em nossa corrente proletária anarquista, e que a alguns anos (ao passo que os conflitos de classe se agudizaram) estão novamente demonstrando suas principais debilidades. Também o documento “A democracia de massas: uma aposta libertária para o período atual” do Centro de Estudos Libertários[3], lançado no meio do ano de 2013, é categórico ao demonstrar que, se por um lado o especifismo chileno conseguiu ampliar sua presença no movimento de massas, por outro lado, a inconsistência teórico-estratégica deste já se desenvolvia em uma clara degeneração reformista.

Os também recentes documentos da Federação Anarquista Uruguaia (FAU) e da Federação Anarquista Revolucionária da Venezuela (FARV) em apoio ao nacional-populista Hugo Chávez e ao bolivarianismo, bem como o apoio eleitoral da FARV aos candidatos bolivarianos, são apenas alguns dos exemplos que nos mostram que o processo geral de degeneração do especifismo não é de hoje. É por esse motivo que o recente apoio da Red Libertária ao candidato Marcel Claude não surpreende os bakuninistas, apenas reforça a necessidade histórica de ruptura com o revisionismo. O desenvolvimento atual da luta de classes exige de nossa corrente uma postura firme e cada vez mais comprometida com a causa da revolução e o rechaço de novas capitulações, políticas e ideológicas.

Além disso, o que também surpreende no apoio eleitoral da Red Libertária e da FEL à coligação Todos a la Moneda é o grau avançado de colaboracionismo de classe. Ainda que os especifistas afirmem retoricamente em seus documentos que “a disputa eleitoral não é prioritária”, ou que o fundamental é constituir um “grande bloco de classe”, a coligação Todos a la Moneda não corresponde definitivamente com essas intenções (e para nós materialistas vale mais os fatos do que mil palavras!). Tal como afirma o documento “8 Eixos Transversais” da campanha de Marcel Claude:

Propomos um sistema de economia mista que ponha como máximo valor o ser humano e não a auto-regulação do mercado, que equipare a relação entre o trabalho e o capital, entregando garantias para condições de vida dignas a todos os cidadãos que vivam no país, que permita uma adequada distribuição de renda, que potencialize o desenvolvimento da indústria nacional e da pequena e média empresa, que defina o papel do Estado como garantidor da igualdade de oportunidades para trabalhadores e empresas produtivas frente ao grande capital especulativo.[4]

A declaração eleitoral não deixa dúvidas quanto a defesa de um política nacional-desenvolvimentista, em defesa da aliança com a burguesia e, consequentemente, da “harmonia entre capital e trabalho”. No mesmo programa eleitoral a questão econômica aparece da seguinte maneira: “Se trata de un modelo económico que promueva el bienestar para todos los habitantes del país, la solidaridad y la cooperación e intercambio entre trabajadores, empresarios y el Estado. O conflito de classes como fundamento determinante da revolução (historicamente defendido pelos bakuninistas e pelo sindicalismo revolucionário) foi abandonado em prol de coligações nacionalistas e com a esquerda reformista, reproduzindo o mito do Estado protetor e provedor de direitos (intervencionismo), caindo no falso antagonismo entre o “grande capital especulativo” em prol do desenvolvimento da burguesia “produtiva” e “nacional”. Ora, mas isso não é organização autônoma da classe trabalhadora! Isso é colocar o proletariado novamente refém de um projeto histórico da burguesia, reforçando o aparato do Estado e as piores ilusões reformistas.

A FEL ainda afirma que a coligação Todos a la Moneda: “abre a possibilidade para construir um movimento político e social amplo posterior às eleições presidenciais”, ou seja, além de verem a atuação nesta coligação eleitoral como uma tática possível, elevam-na à política estratégica de “Frente Ampla”. Retomaremos esse ponto mais a frente.

Mas o que é importante dessa questão desde um ponto de vista revolucionário? A questão é que existe uma diferença muito grande entre uma política anti-hegemônica e uma política anti-sistêmica. Já havíamos respondido a essa questão quando debatemos porque o “Chavismo” não poderia ser uma alternativa para a revolução proletária. Como já havíamos definido:

“A primeira [anti-hegemônica] diz respeito a modelos de desenvolvimento capitalista que não se adéquam aos objetivos dos Estados e potências imperialistas hegemônicos, mas que não questionam os fundamentos econômicos do imperialismo (basicamente, oscilam entre intervencionismo e liberalismo econômico). A segunda política, anti-sistêmica, abala não somente os interesses das potências hegemônicas, mas as bases econômicas do imperialismo e logo a economia capitalista e do conjunto do sistema interestatal. Nesse sentido, a política anti-hegemônica é uma politica que expressa no sistema interestatal os conflitos intraclasse da burguesia. Exemplos históricos foram os governos nacionalistas e políticas nacionalistas da América Latina “desenvolvimentistas”, que eram anti-hegemônicas porque tentavam modificar as bases do “subdesenvolvimento” que atendiam aos interesses dos EUA.”[5]

É aí que se encontra o cerne de nossa crítica ao revisionismo chileno: exatamente nestas conjunturas mundiais em que a burguesia busca se recriar frente ao avanço das crises do capitalismo e do aprofundamento do conflito de classes, os revisionistas (e demais organizações reformistas e oportunistas) mais uma vez se apresentam como força de apoio às “novas” alternativas burguesas. Apesar da baixa probabilidade de vitória do Todos a la Moneda, a política dos especifistas chilenos faz um desserviço para o desenvolvimento da consciência e organização autônoma da classe trabalhadora. Mais ainda, a posição da Red Libertária e FEL-Chile reeditam antecipadamente as piores derrotas que o anarquismo sofreu no século XX, vítima do revisionismo em nossas fileiras. A história se repete como farsa.

O bolivarianismo e a disputa do Estado burguês: a “Ruptura Democrática”

Como dissemos, esse posicionamento do revisionismo chileno não é algo ocasional. As bases teóricas e práticas já estavam sendo a algum tempo desenvolvidas e, vale ressaltar, sob o silêncio de grande parte do “movimento libertário”. Nesse sentido, um importante documento foi “A democracia de massas: uma aposta libertária para o período atual” do Centro de Estudos Libertários, onde está expresso um desenvolvimento teórico mais claro no sentido de ruptura com o anarquismo e defesa do revisionismo e do reformismo.

O documento inicia citando o Chavismo enquanto um exemplo de processo revolucionário, citando para tal uma declaração do ex-ministro do governo venezuelano, Rolando Denis, do qual reproduzimos um trecho: “O processo de cooptação jamais foi um processo total (…). Sempre ficam resquícios dentro dessa realidade desde os quais se pode ir desenvolvendo uma experiência de autonomia, de autogestão, de auto-governo. (…) Evidentemente não será fácil pela própria composição orgânica do que é nossa sociedade, quer dizer, uma sociedade clientelista que necessita permanentemente do Estado.” Para o ministro (e para a Red Libertaria) as dificuldades da revolução bolivariana estão na sociedade venezuelana que é clientelista em relação ao Estado, e não na natureza de classe do Estado e na sua característica intrínseca de tutela e repressão sobre as massas trabalhadoras.

É fundamental pontuar aqui a semelhança desta defesa de democratização interna da estrutura estatal-capitalista com a análise feita pelo anarco-comunista renegado Diego Abad Santilán (1897-1983) quando este afirma que “Primeiro: […] o capitalismo não é mais uma massa uniforme e petrificada, é um conjunto de atitude e de categorias que não se mostra sempre solidária nem sequer frente aos adversários comuns; (…) Terceiro: Resumindo, achamos que hoje importa muita mais a luta contra o totalitarismo estatal que contra o sistema capitalista que já mostra fissuras suficientes para que o espírito de iniciativa e desejo criador podem praticar formas de vida econômica não-capitalista”. Santilán nesse texto expressa o resultado final de sua política reformista na CNT de composição dos ministérios burgueses durante a Guerra Civil Espanhola. Demostra assim dois elementos históricos do reformismo anarco-comunista: a) A ideia de revolução é moral e cultural (combater a sociedade clientelista é o maior problema e não destruir o próprio Estado venezuelano e expropriar a burguesia); b) Ambos vislumbram a construção de “espaços libertários” de “coexistência pacífica” com o capitalismo ou o Estado (no caso o venezuelano e chileno).

Nesse sentido, a palavra de ordem que vem mobilizando o reformismo libertário chileno é o de “Ruptura Democrática”, que perpassa o processo de luta pela integração dos movimentos populares ao Estado via a estratégia da democratização e reforma de seus espaços internos num processo continuo que avançaria até o Poder Popular. O conceito de Ruptura Democrática não a toa aparece claramente em oposição à Ruptura Revolucionária, e não é uma modificação meramente formal, mas principalmente de conteúdo. O documento busca a todo o momento expressar uma crítica às posições “sectárias”, “esquerdistas” (especialmente aquelas que defenderam a via da luta armada) e defender uma política de “alianças amplas” e “táticas flexíveis” como marcas da “nova” proposta. O que o documento busca ressaltar obviamente é a possibilidade de que, mesmo no interior do Estado burguês e suas instituições, é possível ir modificando paulatinamente (“democraticamente”) a realidade através de “experiências” de autonomia, autogestão, etc. dentro e fora do Estado, como se o problema central da revolução fosse cultural e educacional. Em um momento o texto deixa mais clara suas pretensões:

(…) é necessário que este posicionamento político se erga a partir de uma continua experiência prática, apostando na disputa do Estado com todo o poder possível na medida que as organizações populares se fortaleçam; a transformação econômica não pode realizar-se sem modificar de forma radical o modo pelo qual se tomam as decisões, e para isto as massas devem educar-se politicamente, tanto com a teoria como com a prática.

Aqui estão expressos dois elementos fundamentais do revisionismo chileno: 1º) A mudança política, através de reformas com o objetivo de democratização do Estado, deve preceder as mudanças econômicas, sendo uma condição para tal. É claro que a destruição das relações econômicas capitalistas só serão efetivadas em âmbito geral através da destruição do Estado (enquanto órgão de dominação de classe) e construção do Poder Popular, porém, dialeticamente, o povo trabalhador só exercerá efetivamente o seu autogoverno com a destruição das desigualdades econômicas e sociais, caso contrário, o povo se manterá vítima da opressão/exploração diária enquanto os partidos políticos e as burocracias sindicais traficam em nome dos seus interesses. Ou seja, a premissa revisionista acima nega o programa bakuninista de revolução integral (econômica, política e cultural) como condição para emancipação dos trabalhadores e como fundamento teórico dialético para compreensão das tarefas revolucionárias. Adota-se descaradamente um programa reformista e etapista, que caminha necessariamente para a colaboração de classes dentro das esferas do Estado, através de governos e “frentes amplas”;

2º) Por sua vez, a transformação nas formas de decisão política aparecem como uma tarefa centralmente de mudança de consciência, na cultura e na educação. A “revolução” não é vista como fruto do conflito direto e sem trégua entre burguesia e proletariado, em que este último acumula forças no sentido da expropriação econômica e destruição das instituições políticas estatais para construção do socialismo e do auto-governo. A “revolução” é vista por um viés idealista (educacionista e culturalista) onde caberia aos libertários propagandear suas ideias e modificar a cultura de participação da “sociedade civil”.

Vemos, portanto, que na Ruptura Democrática a socialdemocracia e o bolivarianismo nacional-desenvolvimentista são em geral reeditados sob outros nomes (e com uma linguagem e aparência “libertária”). A estratégia revolucionária anarquista perpassa ao contrário, pela luta reivindicativa sim, mas num processo continuado de enfretamento ao Estado e a burguesia visando constituir uma situação de duplo poder e luta armada de massas, e não de integração “democrática” e alianças de classe. A importância estratégica da greve geral e da violência de massas (da ginástica insurrecional), partes integrantes da política anarquista, não são sequer consideradas como elementos definidores nas análises de conjuntura e escolhas táticas dos “libertários” chilenos.

A via reformista e a via revolucionária: o debate sobre a guerra civil espanhola e a política de Frente Popular

“As revoluções não são um jogo de crianças, nem um debate acadêmico em que as vaidades se matam umas às outras, nem um torneio literário onde só se derrama tinta. A revolução é guerra, e quem diz guerra diz destruição dos homens e das coisas. Sem dúvida que é uma pena que a humanidade ainda não tenha inventado um meio mais pacífico de progresso, mas até hoje qualquer passo novo na história só foi realizado na realidade depois de ter recebido o batismo de sangue.”

Mikhail Bakunin

O próximo passo do documento “A democracia de massas…” revela sua face mais funesta. Os autores fazem uma defesa sem reservas da política de Frente Popular da União Soviética na década de 30, apontando as orientações deste período da Internacional Comunista como um ótimo exemplo de política de alianças, defendendo ser necessário reunir sob o programa dos trabalhadores amplos setores, inclusive burgueses, para combater a direita. A política da Frente Popular na Espanha expressou exatamente a capitulação da CNT frente ao Governo Republicano burguês, considerado progressista pelos ministerialistas em 1936. Aquestão é que, dado o ecletismo teórico próprio da proposta “especifista”, os posicionamentos sobre a capitulação dos dirigentes da CNT durante a guerra civil espanhola é sintomático já que não apenas foi saudado pelos revisionistas chilenos e argentinos como um exemplo de “maturidade política”, como também foi utilizado pela FARV como argumentação para sua participação nas eleições venezuelanas[6].

Tal análise revisionista da possibilidade de apoio a “Governos Progressistas” produz a seguinte resposta para a conjuntura: “Mas o que nos leva a pensar no aproveitamento que podemos realizar da relativa ampliação que existirá no futuro governo concertacionista no país. Governo que, a diferença do lapso direitista que termina, pode nos permitir aproveitar de uma maneira antes impensada os espaços e lutas democráticas.” A brecha para a política de colaboração está aberta. A CNT precisou de milhares de presos e uma conjuntura pré-revolucionária para capitular, os “libertários” chilenos estão indicando os vícios reformistas muito antes. Além disso, a eleição é colocada como fato que elevará a luta a patamares “impensados”. Mais abaixo, no mesmo parágrafo, saudará como elemento positivo a entrada do PC na coalização partidária Nueva Mayoría (ex-Concertacion), o que para eles elevará o grau de disputa das massas sobre o Governo. Não tardou para a Red Libertária chegar a conclusão que a criação de um partido libertário eleitoral seja mais efetivo do que esperar que o PC defenda as massas dentro do Governo.

Dois desafios para o próximo período apontados pelo texto são sintomáticos: a) Vanguarda compartilhada; b) Frente Unida de Esquerda. Os dois pontos estão intimamente relacionados. No primeiro deles, ao querer se diferenciar da proposta de partido único leninista (mas não da Frente Popular de Stalin!) caem em uma política de cúpulas e rebaixada, na qual o poder futuro seria compartilhado entre os diversos partidos de esquerda, sem que, no entanto, o texto faça qualquer diferenciação de conteúdo político (reformistas, revolucionários) ou de classe (burgueses, pequeno-burgueses, proletários) dessa futura “vanguarda compartilhada”. Pra justificar essa posição, criticam tanto a concepção do partido único leninista quanto retomam o mito da guerra civil espanhola sobre uma possível “ditadura anarquista”: “devemos deixar de lado os sonhos sobre revoluções com um programa completamente anarquista, na qual o Estado é dissolvido e existe uma única força hegemônica”.

Está claro para os anarquistas revolucionários que tal mito revisionista da “ditadura anarquista” não passa de um desvio covarde e pequeno-burguês em relação a natureza de classe do processo revolucionário. Em nossa visão o poder revolucionário não deve estar baseado em uma coalizão de partidos de esquerda e sim no poder das organizações de base dos trabalhadores, nos conselhos, sindicatos, comitês etc. A vanguarda será das organizações revolucionárias que tenham apoio nas massas, sejam quantas forem, uma ou dez. Além disso, recorrentemente as coalizões entre a esquerda ou “setores progressistas” (como na Frente Popular) foram responsáveis pela capitulação e não pelo avanço da luta revolucionária. A revolução representou na maioria dos casos a ruptura com estas coalizões, tal como foi no caso russo. A Revolução de Outubro foi a ruptura com o Governo Provisório, espaço de coalizão entre a esquerda republicana e a burguesia.

Para fundamentar sua proposta política de alianças flexíveis com distintas classes e setores o texto afirma que a política de “classe contra classe” dos primeiros anos da União Soviética seria a responsável pela vitória do nazismo na Alemanha e fascismo na Itália. Discordamos terminantemente desta análise! A vitória do fascismo não foi fruto de uma política “classe contra classe”, e sim da incapacidade dos partidos socialdemocratas e comunistas darem respostas frente ao aprofundamento da luta de classes internacional, dado suas burocratizações e tradições reformista-legalistas. Apesar de todas as nossas divergências, Trotsky faz uma análise importante sobre o papel da socialdemocracia no avanço do fascismo: “A situação era completamente diferente na Alemanha, onde a direção pertencia a poderosos partidos, contando um deles com 70 anos de existência e outro com cerca de 15. Esses dois partidos, que possuíam milhões de eleitores, encontraram-se moralmente paralisados antes da luta e renderam-se sem combate. Jamais houve na História semelhante catástrofe. O proletariado alemão não foi derrotado pelo inimigo em um combate: foi abatido pela covardia, abjeção e traição de seus próprios partidos. Não é de se espantar que tenham perdido a fé em tudo o que estava habituado a crer a quase três gerações. A vitória de Hitler, por sua vez, reforçou Mussoline”.[7]

encapuchados

Os anarquistas devem atuar junto as massas para aprofundar o conflito de classes! (Foto: Chile)

É importante explorar esse debate não apenas como análise conjuntural ou “tática” (como alguns nos querem fazer entender) pois a concepção dos “libertários” chilenos faz uma completa inversão dos fatores da luta de classes, elevando o fator da Conciliação sobre o Conflito, e isso representa uma profunda revisão na teoria anarquista de Bakunin, Makhno, Archinov, Jaime Balius e tantos outros. Seria o mesmo dizer que a derrota do proletariado francês na guerra franco-prussiana (1870-71) foi oriunda da linha de ruptura com o republicanismo, quando ao contrário, a derrota teve suas causas na ruptura tardia dos operários e camponeses com a burguesia republicana “progressista”, nem um pouco interessada em arcar com os desafios de armar o povo contra a invasão estrangeira e se ver diante da própria revolução social em marcha. Foi dessa forma que Bakunin apontou neste período que o único caminho para o proletariado francês era realizar a revolução social conjuntamente com a guerra contra a invasão prussiana, ou seja, transformar a guerra imperialista em guerra civil revolucionária. O mesmo foi proposto pelo grupo Amigos de Durruti em 1936 quando defenderam que a guerra contra o fascismo não deveria ser separada da revolução espanhola. Fazer a revolução na Espanha naquele momento significava romper com os Comitês AntiFascistas, espaços que reuniam setores da burguesia republicana e da esquerda espanhola, que se opunham a coletivização e boicotavam o armamento geral dos trabalhadores.

Na Espanha, a CNT compôs e apoiou o “Governo Provisório” ao invés de destruí-lo sob o poder das massas. Ou seja, a CNT optou por fazer a guerra contra o fascismo e não a revolução social, tudo em nome da “unidade da esquerda” contra o inimigo de direita. Mas foi exatamente essa política de separação entre Guerra e Revolução (tendo como consequencia o colaboracionismo), somado a sabotagem burguesa e stalinista (que não foram combatidas para manter a “unidade”), que levaram a derrota histórica dos trabalhadores espanhóis. A guerra e a revolução foram derrotadas pela colaboração de classes.

Outro exemplo é a Revolução Russa. Em 1917 os mencheviques e SR’s clamavam pela unidade em primeiro lugar para vencer a primeira guerra mundial para depois fazer a revolução socialista, situação que levou a revolução de outubro ser acusada de dividir a Rússia “progressista” frente ao Imperialismo Alemão. Porém, apoiado no poder revolucionário dos sovietes, o povo não apenas venceu a burguesia interna como o próprio imperialismo. Ao contrário do que se possa pensar, os bolcheviques quando rompem com a “Coalizão de Esquerda” não estavam sendo sectários, estavam se apoiando na força das massas, da influencia que tinham nos sovietes, se aliando com o povo contra os demais partidos que se opunham ao poder das massas revolucionárias. Essa política foi fruto do movimento de massas que se radicalizava e do combate à socialdemocracia operada por Lênin[8], que criticou parcialmente (em 1917) o etapismo dos mencheviques que queriam apenas uma república burguesa. Após a Revolução de Outubro o etapismo é retomado como centro da política da União Soviética tendo a sua frente o mesmo Lênin saindo em defesa da construção de um Estado Socialista tendo por modelo o Estado Junker-Burguês Alemão[9], política que “matou” os sovietes e reconstruiu uma casta privilegiada no país.

Reconstruir o Anarquismo Revolucionário!

 “Mais do que qualquer outro conceito, o anarquismo deveria se tornar o conceito dirigente de revolução, pois é somente dentro da base teórica anarquista que a revolução social pode ser bem sucedida na total emancipação dos trabalhadores”

Dielo Trouda, 1926

A crítica ao posicionamento “tático” das organizações Red Libertaria e FEL deve ser feito pela retomada das bases teórico-estratégicas do anarquismo revolucionário (que é o que define as táticas), e não pela crítica moralista em relação as eleições “em geral”. O anarquismo, formulado por Mikhail Bakunin e desenvolvido por Makhno, Arshinov, Durruti, Jaime Balius e tantos outros combatentes do povo, é uma teoria revolucionária que possui concepções específicas acerca do Estado capitalista moderno, da dialética Guerra e Revolução (e da necessidade estratégica da violência das massas), da contradição Reforma x Revolução, da experiência coletiva na luta de classes como a verdadeira “escola” do proletariado, do papel dos anarquistas na revolução, bem como em relação a Ação Direta e a Independência de Classe em oposição ao colaboracionismo. Estas concepções teórico-estratégicas são as definidoras das táticas na luta popular, o que não é diferente no caso do boicote as eleições burguesas.

Deve-se compreender então que as táticas não são definidas ou debatidas “do nada” ou como meras exigências conjunturais (como fazem crer no caso da guerra civil espanhola, da Venezuela e do Chile), existem concepções e princípios mais amplos que as determinam. Nesse sentido, o boicote às eleições burguesas defendido pelos anarquistas possui um papel completamente diferente do que para uma possível “tática” dos comunistas ou conservadores. Para os anarquistas estão contidos nesta “tática” os elementos de separação (independência) do proletariado frente aos espaços e instituições burguesas, da negação do Estado, da afirmação da capacidade política dos trabalhadores através da ação direta. Não é uma “tática” que pode-se aplicar ou não sem maiores consequências para a coerência teórica e ideológica geral do anarquismo. Na verdade, poderíamos dizer que a negação anarquista da democracia estatal-burguesa e do reformismo pressupõe o boicote as eleições.

O problema é que o especifismo esconde seus posicionamentos equivocados atrás de um punhado de organizações e grupos espalhados pelo mundo sem nenhuma unidade séria entre si (sem nenhuma organização internacional), o que retira a responsabilidade (aparente!) destes distintos grupos sobre os posicionamentos e capitulações de outros. É necessário que esse silêncio, esse abafamento das concepções e práticas equivocadas tenha fim, em nome do próprio triunfo da causa dos trabalhadores e da revolução social. Os bakuninistas já vinham afirmando a algum tempo a necessidade de ruptura com o revisionismo, mas esta tarefa havia sido sistematicamente negada por grande parte dos grupos anarquistas e “libertários”. Agora fica mais claro do que nunca a necessidade de reconhecer a existência do revisionismo e o dever de lutar contra ele (como parte da própria luta contra a burguesia).

Camaradas, o que não avança retrocede. As organizações anarquistas devem se posicionar teoricamente sobre a nossa história, bem como analisar e depurar cada passo que é dado por nossos camaradas e por nós mesmos. Hoje fica evidente que as interpretações sobre a Guerra Civil Espanhola e a Revolução Russa são fundamentais, e não apenas sob um viés historicista ou acadêmico, mas direcionado por uma teoria revolucionária que seja capaz de olhar para os eventos históricos e extrair as lições para nossa luta cotidiana.

Vivemos um momento onde a crise capitalista está aprofundando as contradições sociais e elevando a luta de classes a um novo patamar. Não podemos nos permitir cair nos mesmos erros do passado, frutos do revisionismo e da colaboração de classes. Portanto, é fundamental que os militantes e as organizações anarquistas do mundo inteiro se coloquem na responsabilidade histórica de apontar uma direção autônoma e revolucionária para o movimento dos trabalhadores, abandonando de vez as concepções educacionistas e pequeno-burguesas do anarco-comunismo e a visível autolimitação do especifismo (que propõe a “organização anarquista” em abstrato). Da mesma forma é necessário enterrar de uma vez por todas a falsa dicotomia entre movimento de massas e movimento insurrecional! Como já defendia a FAU-histórica: “Não há política revolucionária sem teoria revolucionária. Não há política revolucionária sem linha militar revolucionária” (FAU, 1972). Estamos certos de que da correção destes erros e desvios históricos depende em grande parte o avanço do anarquismo como força revolucionária das massas trabalhadoras. Sigamos em frente, na luta sem trégua por socialismo e liberdade.

ANARQUISMO É LUTA!

VIVA A REVOLUÇÃO SOCIAL PROLETÁRIA!

MORTE AO ESTADO E AO CAPITAL!

CONSTRUIR A REDE ANARQUISTA INTERNACIONAL!

POR UMA TENDÊNCIA CLASSISTA E INTERNACIONALISTA!

chile-con-frase


[1] “Declaración pública de la Red Libertaria”. Pode ser visualizado pelo sitio: http://www.elciudadano.cl/2013/07/01/72475/declaracion-publica-de-la-red-libertaria/
[2] “Declaración publica de FEL chile frente a la conyuntura eleccionaria de 2013”. Pode ser visualizada pelo sitio: http://fel-chile.org/declaracion-publica-fel-chile-frente-a-la-coyuntura-eleccionaria-2013/
[3] Pode ser visualizada pelo sitio: http://cel-arg.org/blog/2013/08/02/la-democracia-de-masas-una-apuesta-libertaria-para-el-actual-periodo/
[4] Disponível em: http://www.humanistas.cl/elecciones-2013/marcel-claude-presidente/programa-marcel-claude/8-ejes-transversales/
[5] Texto da UNIPA: “Chavismo e Bolivarianismo: os limites da política anti-hegemônica desenvolvimentista e o protagonismo popular”. Disponível em: https://uniaoanarquista.wordpress.com/2013/03/13/chavismo/
[6] Disponível em: http://farvespecifistas.blogspot.com.br/
[7] “Programa de Transição”, Leon Trotsky.
[8] Referência: “Teses de Abril”.
[9] Referência: “Infantilismo de Esquerda e a mentalidade pequeno burguesa”
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6 respostas para As eleições chilenas e as degenerações na teoria e prática do anarco-comunismo

  1. no momento que se mistura comunismo com anarquismo já se esta dando um tiro no próprio pé, deve-se ter em conta sempre que os comunistas são oportunistas inimigos da revolução libertaria.

  2. Fabiano Souza disse:

    Por isso é fundamental o entendimento do anarquismo como ideologia, teoria, estratégia e programa revolucionários. Proudhon, Bakunin, Makhon, entre outros, contribuíram de maneira decisiva na construção do anarquismo. Recuperar e atualizar essas contribuições é fundamental para os dias de hoje.
    Avante companheiros anarquistas!

  3. pedrito disse:

    excelente texto. plantea el debate más allá de los moralismos y lo sitúa en el plano de la estrategia de clase, donde han de estar los debates en el anarquismo. Quiza sólo señalar que circulan ya posicionamientos de grupos del FEL y de otros grupos anarquistas chilenos donde se desmarcan de las posturas de Red Libertaria – y de OCL (de hecho hay un documento de una fracción de la misma opuesta a la dirección electorera). A esos camaradas chilenos opuestos al derrotero reformista de Red Libertaria, es preciso hacerles un llamado a militar por el anarquismo revolucionario en Chile.

    Bakunin vive!
    No votes, LUCHA!

  4. Pingback: [Brasil] Reflexión-Debate | ‘As eleições chilenas e as degenerações na teoria e prática do anarco-comunismo’ |

  5. Fabiano Souza disse:

    Temos um aprofundamento da degeneração dos libertários chilenos, em uma entrevista uma liderança anarquista afirma a necessidade de uma nova constituição e lista um série de reformas necessárias. Ou seja, esquece a revolução para construir um modelo de gestão do Estado capitalista. Vejam a entrevista: http://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2013/12/06/jovem-anarquista-e-a-nova-presidente-da-federacao-de-estudantes-da-universidade-do-chile/

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