Nacionalismos e a Disputa Imperialista na Ucrânia

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Organizações de extrema-direita e fascistas fazem passeata em Kiev.

O conflito na Ucrânia está diretamente ligado ao aumento dos conflitos entre os principais Estados do Sistema Interestatal Capitalista. Por um lado, temos o contínuo processo russo de retomada do seu poderio, no mínimo de área de influência sobre as ex-repúblicas pertencentes a União Soviética. Por outro, o papel dos EUA, secundarizado pelas potências da União Europeia que desde a queda do Muro de Berlim e do desmantelamento soviético iniciaram uma política de “humilhação” da ex-potência, financiando guerras de separação, que dissolveram a antiga Iugoslávia e “revoluções” na Sérvia (2000), na Geórgia (2003), da Ucrânia (2004) e do Quirguistão (2005) que procuravam colocar no poder líderes político pró-ocidente.

    Todos esses movimentos foram criados e apoiados pelo governo norte-americano através de organizações como United States Agency for International Development (USAID), National Endowment Democracy (NED), International Republican Institute (IRI), National Democratic Institute for Internacional Affairs (NDI), Freedom House (FH), Albert Einstein Institution e Open Society Institute (OSI) financiado pelo governo norte-americano, empresas e fundos financeiros, como de Geoge Soros, partidos e centrais sindicais, como AFL-CIO, conhecida pelo apoio aos golpes na América Latina.

    No cenário interno, a Ucrânia tem a divergência dos líderes políticos e dos oligarcas que controlam o Estado e a economia do país, assolados por graves casos de corrupção, e a situação colonial histórica de submissão ao poder de Moscou. Neste sentido, as posições políticas internas estão diretamente relacionadas ao apoio russo ou ocidental.

A Rescentralização da Autoridade Central na Rússia

Depois do fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), em 1991, se consolidou o processo de restauração do capitalismo, finalizada por Mikhail Gorbachov, que se concentrou nas mãos de novos oligarcas oriundos da ultracentralização soviética. Verdadeiras aves de rapina que no processo de privatização formaram fortunas e passaram a controlar a economia local formando uma oligarquia. Enquanto isso, os trabalhadores da região sofreram com empobrecimento e deterioração das condições de vida. Na Ucrânia este processo é ainda mais forte. Somente com a ascensão de Vladimir Putin a presidência da Rússia em 2000 que se inicia um processo de retomada da centralização de poder no país através de uma forte militarização com um discurso nacionalista russo.

    A partir deste momento a Rússia passa a retomar seu protagonismo político-militar e econômico no sistema interestatal capitalista e tenta retomar a influencia nos países do Leste Europeu, da Ásia Central e uma nova política internacional de alianças. Isso foi feito através da aliança com a China, apesar de algumas disputas de fronteiras, com a formação da Organização para Cooperação de Xangai (OCX) e a formação do BRICS. Isso tem gerado tensões contra os interesses norte-americanos e europeus (alemães e franceses, principalmente).

O Movimento Euro-Maidan

A atual situação da Ucrânia está diretamente ligada: 1) aos rumos da “revolução laranja”, de 2004; 2) a oligarquia ucraniana que controla o Estado e 3) as disputas imperialistas entre Rússia e Estados Unidos.

    A “revolução laranja”, na verdade um golpe de Estado com apoio ocidental, impediu a chegada ao poder de Vitor Yanukovitch, candidato pró-Rússia. Assim, ascenderam ao poder os candidatos pró-ocidente, Viktor Yushchenko, presidente, e Julia Timochenko, primeira-ministra, que permaneceram no controle do poder central entre 2005 e 2010. Em 2008, o governo ucraniano pediu adesão a OTAN, entretanto a ação política dos russos e a recusa de França e da Alemanha, com contratos militares e energéticos com Moscou, impediram que a Ucrânia aderisse a OTAN.

    Neste cenário, tem ressurgido as tensões entre Rússia e EUA. A tentativa norte-americana, com apoio da OTAN e UE, de instalar bases de misseis na Polônia e na Turquia tem gerado conflitos diplomáticos. Esses conflitos político-militares somam-se a tentativa da Turquia e da UE de instalar um gasoduto da Georgia até a Europa, para diminuir a dependência Europeia, principalmente, alemã, do gás russo. Entretanto, as condições econômicas do abastecimento de Moscou foram muito melhores, o que inviabilizou o projeto turco-europeu. O reestabelecimento da autoridade central de Moscou inviabilizou os planos do ocidente de humilhação a ex-potência mundial que busca agora reestabelecer sua área de influência. Não por acaso negocia a instalação de bases militares em Cuba, na Nicarágua, na Venezuela, no Vietnã e em Cingapura e já possui uma na Síria.

    Soma-se a esses fatores mais recentes, o problema étnico e colonial que historicamente marca o país e que agora divide a Ucrânia. O chauvinismo aparece como linha político-militar de ambos os lados, e a diplomacia russa passa a defender a intervenção militar a partir deste ponto de vista: a defesa dos interesses dos ucranianos de origem russa.

    A independência da Crimeia com aval Russo teve como ponto principal a manutenção da base naval de Sebastopol, base da marinha russa desde 1783. Além disso, a região da Crimeia, palco de disputo entre o império czarista, turco-otomando e austro-hungaro no século XIX, foi oficialmente anexada ao território ucraniano pela ex-presidente da URSS, Nikita Krushev, em 1953, que fez sua carreira política no país.

Os Protestos da Praça Maidan

O movimento na Praça Maidan surgiu no fim de novembro de 2013, em reação à suspensão pelo então presidente Viktor Yanukovich – pró-Rússia – das negociações sobre um acordo de livre-comércio com Bruxelas. Este acordo tende a transformar a Ucrânia numa “nova Grécia”. O movimento na Praça Maidan se metamorfoseou. Juntando inicialmente alguns milhares de partidários pró-europeus, a praça se tornou, ao longo da repressão, o símbolo da revolta dos ucranianos de todos os tipos contra um sistema político altamente corrupto e oligárquico, não se diferenciando de outras revoltas que vem acontecendo no mundo. A própria Revista The Economist classifica o sistema ucraniano como o mais corruptos dos sistemas políticas surgidos da destruição da URSS. A Revolta se iniciou contra Yanukovich e atingiu os partidos de oposição.

    No entanto, no segundo momento os partidos de direita e de extrema direita passaram a ser as principais forças políticas organizativas no movimento da Euromaidan. São eles: a União Pan-ucraniana (Batkivshina) partido liberal pró-europeu, membro observador do Partido Popular Europeu (PPE) que reúne os principais partidos da direita europeia, entre eles a CDU (União Cristã-Democrata Alemã) da chanceler Angela Merkel; Aliança Ucraniana Democrática para a Reforma (UDAR), também liberal e pró-europeu, conta com apoio de instituições ligados aos republicanos norte-americanos e a CDU da Chanceler Alemã; o Svoboda, um partido da extrema-direita ultranacionalista. O Svoboda tem ligações com a Frente Nacional francesa, de Marine Le Pen, além de controlar uma organização paramilitar, os Patriotas da Ucrânia e por fim, o Pravy Sektor (Sector da Direita) uma federação de pequenos grupos da extrema-direita radical e fascista (Tridente, Patriotas da Ucrânia, a Assembleia Nacional Ucraniana – Autodefesa Nacional Ucraniana, Martelo Branco e a ala radical do Svoboda) que considera o Svoboda muito liberal.

    Por sua vez, o Batkivtchina, UDAR e Svoboda fizeram uma aliança primeiro materilializada no Grupo de Ação para a Resistência Nacional que ajudou na queda do governo Yanukovich e agora no parlamento com a formação da coligação “Opção Europeia”, que reúne cerca de 250 deputados, e na formação do poder executivo, onde o Svoboda tem três ministros.

    Tanto do lado ocidental, como do lado Russo existem forças ultranacionalistas, que se utilizam do chauvinismo, característico da política de Putin na retomada da centralização da autoridade de Moscou. Se confrontam assim um nacionalismo ucraniano pró-europeu e outra o nacionalismo russo defendido pela Rússia. Assim, se colocaram na defesa da intervenção político-militar, como no caso da Crimeia, onde existe ainda uma minoria Tártara, e na defesa de todos os russos presentes na Ucrânia.

    Neste sentido, as forças ocidentais depois das contínuas intervenções militares, recentemente a Líbia, o Egito e a Síria, tentam se contrapor a política russa sobre a acusação hipócrita de sua ação política militar. Sem o aval sino-russo não há possibilidade, pelo menos legal, de apoio a uma operação militar da OTAN nos moldes do que aconteceu na Líbia. A situação europeia é ainda mais delicada, uma vez que Alemanha depende do gás russo, a França fechou um acordo militar e a Inglaterra tem bilhões de dólares em investimento financeiros na City, oriunda dos oligarcas russos que povoam Londres.

    O presidente Vitor Yanukovitch – pró-Rússia – que venceu as eleições em fevereiro de 2010 se refugiu na Rússia. Os protestos da Euro-Maidan fizeram com que Viktor Yushchenko e Julia Timochenko, presa em 2011, por corrupção, fossem alçados ao posto de principais lideranças do país. Ou seja, uma troca da oligarquia, agora com base parlamentar de direita e extrema-direita apoiada por Bruxelas e Washington. Enquanto isso, os grupos nacionalistas pró-russos procuraram a autonomia de suas regiões sob a tutela de Moscou. A posição do Partido Comunista Ucraniano, que defendia o governo deposto, foi da defesa da legalidade e do sistema político vigente apontando positivamente para aliança com Moscou. Neste sentido, adotou uma linha de criação de autodefesa em torno do atual sistema e das estátuas e monumentos levantados pela URSS que foram sistematicamente atacados pelas forças políticas conservadoras.

    Aos trabalhadores não cabe a defesa de Putin ou Obama, dos nacionalistas russos ou ucranianos, mas a construção do autogoverno dos trabalhadores que passa pelo resgaste do internacionalismo, tal qual fizeram os communards, no confronto entre o Estado Alemão e Francês, e os trabalhadores na Revolução Russa quando adotaram a linha de destruição do estado czarista e do governo provisório pela Revolução Socialista.

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