Rumo a um novo levante popular?

Copa do Mundo da Fifa, luta de classes e a tarefa dos anarquistas revolucionários

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Comunicado Nº 40 da União Popular Anarquista (UNIPA)

Brasil, Junho de 2014.

*

Aos trabalhadores, mulheres e povos oprimidos do Brasil,
À juventude pobre e marginalizada,
Aos black blocks, midiativistas e demais militantes,
Aos anarquistas revolucionários e combatentes do povo em todo o país,
Aos militantes sinceros, mas equivocados, nas bases de organizações reformistas.

O mês de junho de 2014 chegou. Um ano depois do levante popular, fato ocorrido com o início dos eventos oficiais da “Copa do Mundo da Fifa” (a Copa das Confederações) terá início o evento principal. Como indicamos várias vezes, os protestos de junho de 2013 marcaram uma nova fase da luta de classes. E o evento que se aproxima pode adicionar novos componentes ainda.

A UNIPA continua travando batalhas em diversas frentes e assumimos desde 2013 o papel de não somente denunciar o reformismo, mas de criar uma alternativa de organização de massas. Travamos batalhas nas ruas, nas assembleias de diversas categorias e locais de trabalho, estudo e moradia sempre colocando formas construtivas de luta. Estamos enfrentando o PT, o PCdoB, o aparelho repressivo de Estado e seus asseclas da propaganda ideológica.

Apesar da desigualdade de forças na luta, não capitulamos e não recuamos. Temos cumprido nosso papel de avançar na agitação, propaganda e organização popular. E mais que isso: estamos entre as poucas organizações revolucionárias a colocar a tarefa de disputar o movimento global dos trabalhadores. É por isso que agora apresentamos nossa análise e fixamos nossas tarefas e conclamamos a unidade dos revolucionários e dos anarquistas para a luta no período que se avizinha.

Podemos dizer que três cenários se apresentam para o próximo período. 1º cenário, aquele que a burguesia e o Estado projetam, de um controle e dissipação dos protestos de 2013, com o controle das manifestações e seu enquadramento na ordem; 2º cenário, manifestações radicalizadas, porém com uma menor adesão, de forma que os setores revolucionários de massas fiquem em desvantagem ante o reformismo e a repressão; 3º cenário, uma extensão e/ou intensificação dos protestos em relação a 2013, com táticas insurrecionais de massa que podem levar a um colapso temporário do sistema político (com greve geral ou várias greves simultâneas).

Nós acreditamos que o ciclo da luta de classes iniciado em 2013 não será interrompido. Mas isso não significa supor que fatalmente teremos uma repetição do ano de 2013. Significa que as condições objetivas e subjetivas estão dadas e que vários elementos apontam para que tenhamos grandes mobilizações de massa. Mas independentemente do cenário que venha a se confirmar é importante: 1) combater o vanguardismo (revolucionário e reformista-burocrático), de forma que as massas determinem a dinâmica e intensidade da luta; 2) desenvolver a partir da experiência de luta nas ruas novas formas de organização que possam aprofundar a ruptura com o sindicalismo de Estado, o capitalismo sindical e as formas burguesas de organização.

Mas isso se dará em torno de temas muito concretos. E é isso que indicaremos na nossa análise o que consideramos como tarefas fundamentais do atual momento.

1 – A conjuntura e as polarizações de classe: Não Vai Ter Copa x Vai Ter Copa (e Na Copa Vai Ter Luta)

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Greves rebeldes tomaram conta do sistema de transporte brasileiro, atropelando sindicatos pelegos, governos e pressionando efetivamente os patrões.

O levante popular de 2013 foi o início de um novo ciclo. Depois dos protestos de rua e das táticas insurrecionais que nela predominaram, tivemos o deslocamento para as greves de categorias (professores, garis, rodoviários foram os casos mais emblemáticos). Como havíamos dito o levante expressava contradições de classe. E nesse sentido que as lutas de junho se desdobrassem nas lutas das categorias nos locais de trabalho era um desdobramento lógico.

Exatamente por isso que a palavra de ordem surgida nas ruas “Não Vai Ter Copa” expressou o sentimento de resistência e de luta polar contra a ofensiva capitalista que é a base material do evento “cultural”. Certamente a palavra de ordem “Não Vai Ter Copa” não é contra o evento de futebol “em si”, mas contra as agressões e opressão social que ele exigiu. E expressa uma ruptura ideológica em relação a visão do “povo passivo”, do povo “domesticado” pelo “pão e circo”.

Mas desde o levante popular os setores burgueses (PMDB, PSDB, DEM e etc.), governistas (PT e PCdoB) e paragovernistas (PSOL, PSTU) e seus braços de massa assumiram a tarefa de defender o modelo capitalista e da ordem burguesa. A Campanha “Vai Ter Copa” e “Na Copa Vai Ter Luta” foram duas formas de defender a mesma ideologia: o mito da necessidade ou invencibilidade do Estado capitalista e sociedade burguesa, não só da repressão, mas da ideologia burguesa. Tentaram desqualificar e criminalizar os setores populares em luta.

Os governistas e burgueses tem um papel claro: eles estão defendendo seu projeto de poder e as alianças com o capital nacional e internacional. Defender a palavra de ordem “Vai ter Copa” era defender o processo de acumulação de capital que ela representa e a política baseada no discurso “nacionalista” de que o Brasil é a Pátria de Chuteiras (mito construído desde o Estado Novo). Mas a palavra de ordem “Na Copa Vai ter Luta” significa o que? É o grito de desespero da oposição consentida, daqueles que querem defender o sistema, mas não podem assumir isso claramente porque precisam se manter como “oposição”.

Combatemos em diversas categorias e organizações populares essa política. O argumento dos governistas e paragovernistas era absurdo: os governistas falavam que o movimento contra a Copa do Mundo era da “direita”. Os paragovernistas afirmavam que a Copa do Mundo era “inevitável”, que a Copa vai acontecer e que o povo “quer a copa” porque o futebol é parte da “cultura” brasileira.

Esses argumentos têm dois pressupostos. 1º Eles ignoram os conflitos de classe, a violência dos protestos e das lutas econômicas que colocam grande parte da massa contra os interesses envolvidos na Copa, falando como se a classe trabalhadora fosse homogênea; 2º eles consideram que a ideologia burguesa foi assimilada pela classe trabalhadora e que uma vez assimilada ela não pode ser derrotada, cabendo as organizações se adequarem as limitações dessa ideologia burguesa. Como consequência a política derivada era ou de defesa aberta do imobilismo (com a completa paralisia de ações que visassem derrotar o capital, pois se considera que isso é impossível) ou a realização de simulacros de luta.

Mas a política dos governistas já está desmascarada. A política dos paragovernistas do PSOL e PSTU qual é? Eles impediram que a campanha “Não Vai Ter Copa” chegasse às categorias amplas e fortes, como dos funcionários públicos. Impediram que essa discussão fosse colocada para as bases e aprovaram em um Encontro de Cúpula a campanha “Na Copa Vai ter Luta”. Além disso, eles combateram por todos os meios a construção da greve geral. E nas categorias em que eles têm protagonismo tentam impedir as greves ou fazer com que estas se adéquem ao legalismo, evitando “prejuízos” ao funcionamento do sistema durante  a Copa (como tem acontecido na greve dos rodoviários do Rio de Janeiro).

Na realidade não é que a palavra de ordem não encontre eco entre os trabalhadores. Ao contrário, ela surgiu deles. Não é que seja impossível. O fato é que governistas e paragovernistas trabalham sistematicamente contra a greve geral. Eles trabalhar como bombeiros para evitar que o fogo da rebelião se alastre. Eles são parte dos fatores que dificultam esse processo. Por isso combater a burocracia sindical é tão importante, por isso não basta lutar, é preciso construir o sindicalismo revolucionário como forma de organização de massas.

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Metroviários (SP) resistem à repressão policial anti-greve.

A nossa política foi clara. Construir a Greve Geral. Defender a possibilidade real de derrotar o capital. É possível a greve geral? É possível parar a Copa do Mundo? Sim. “Não Vai ter Copa” não é só uma palavra de ordem. O movimento indígena parou a turnê da Copa do Mundo em Brasília, a ação direta de massas impediu isso. Mas essas ações só se realizam exatamente porque não existe nas organizações indígenas a presença desses setores para desarticularem a resistência, fragmentar as lutas. A eclosão de greves em diversas categorias mostra que a classe trabalhadora quer romper o pacto com o capital. Mas encontram diversos obstáculos, como setores do movimento que querem frear esse avanço.

Logo, a palavra de ordem “Não Vai Ter Copa” expressa o antagonismo de classes. Defender essa palavra de ordem é a única forma na atual conjuntura de expressar globalmente o anticapitalismo. Mas é possível transformar a palavra de ordem em fato real?  Isso dependerá da capacidade e velocidade da própria classe de superar a burocracia sindical e partidária governista e paragovernista. É possível uma greve geral nacional e também ações de massa, mas hoje o Estado burguês conta com uma ação combinada de governistas e paragoivernistas para tentar desarticular essa ação de massas e a greve geral, através da defesa de uma política corporativista e fatalista.     

Não indicamos isso como acusação moral. Sabemos que existem militantes sinceros nas bases de organizações partidárias e sindicais governistas e paragovernistas. Mas exatamente porque é uma análise teórica e política, a mera defesa subjetiva e genérica da luta não basta para isentar os militantes da sua responsabilidade. É preciso que esses militantes rompam com suas direções e se lancem na construção das formas de luta que possam atender as atuais tarefas históricas. Não fazendo isso estarão se tornando cúmplices de uma das maiores traições da história dos trabalhadores do mundo.

Aos anarquistas e revolucionários cabe também não somente denunciar, mas construir alternativas. Por isso é fundamental lançar a palavra de ordem da greve geral e da construção do Comitê Intersindical de Greve como forma concreta de ação e generalizar as ações de protesto de massa em todo o Brasil, fortalecendo a organização por local de trabalho, estudo e moradia. 

2 – A morte do mito da Pátria de Chuteiras: crises de representação política, crise econômica e crise ideológica

Independentemente do cenário, independentemente da classe trabalhadora ter a capacidade de materializar na realidade a palavra de ordem que ela forjou nas lutas do levante popular, o processo de lutas vai deixar um legado imprevisto da copa. A morte do mito “da pátria de chuteiras”, maior símbolo do nacionalismo no Brasil.

A força da burocracia sindical e da repressão estatal pode ser suficiente para momentaneamente garantir que a classe trabalhadora não seja capaz de dar um golpe global na acumulação de capital e na ideologia burguesa (a paralisação da Copa do Mundo teria efeitos econômicos e ideológicos, pois destruiria definitivamente o mito da invencibilidade do sistema capitalista além de comprometer os investimentos). Mas as novas formas de luta certamente deram um golpe profundo no mito da “pátria de chuteiras”.

Esse mito foi construído para dar unidade a uma sociedade marcada por contradições étnicas, de classe e regionais. A ideia de que o Brasil só existe como Nação unificada em torno do futebol foi usada em diversos contextos como arma política. Mas depois do levante popular, mesmo nas camadas mais baixas da população existe o sentimento de que o “futebol” não unifica seus interesses com a “nação”, ao contrário, os interesses dos empresários do futebol sacrificaram os interesses populares (saúde, educação, moradia). Podemos dizer que a Copa do Mundo, contraditoriamente, vai deixar como um dos seus legados, a desilusão com o futebol como forma de integração nacional. Isso é uma crise da ideologia burguesa que tem enfraquecido um de seus principais instrumentos.

Essa crise soma-se a duas outras crises. A crise política (da representatividade dos sindicatos e partidos) que o levante popular explicitou e intensificou. Os trabalhadores não se sentem representados e vêem as organizações existentes como inimigas dos seus interesses. Por outro lado, a crise econômica global está começando a emperrar a acumulação de capital no Brasil. Ou seja, uma crise econômica logo irá se somar a crise ideológica e política, de forma que o capital terá que intensificar os ataques contra a classe trabalhadora, mas sem os instrumentos ideológicos e políticos que antes possuía, ou pelo menos, sem que eles tenham a mesma eficácia.

Por isso, mesmo que não ocorra um novo levante popular, mesmo que a burocracia sindical e partidária consiga sabotar as lutas e com isso auxiliar na realização da Copa do Mundo e no processo de acumulação de capital, essa situação não expressa uma derrota global da classe trabalhadora. Ao contrário, expressa a impossibilidade momentânea da sua constituição autônoma. Essas três crises também não levam fatalmente a formação de uma alternativa.

Por isso é preciso a formação de uma estrutura de militantes que possa dar respostas a cada situação e combater o governismo e paragovernismo, criando formas alternativas de organização. Essa é a tarefa dos anarquistas revolucionários, forjar no fogo das barricadas uma nova organização de massas.

Ir ao Combate sem Temer!

Ousar Lutar, Ousar Vencer!

Não Vai ter Copa!

 

 

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3 respostas para Rumo a um novo levante popular?

  1. Só não sei quem é essa “massa” ou “classe operária” que tanto falam. Mas o texto é muito bom, tirando essa parte de “massa” e “classe operária”.

  2. DAISY disse:

    A massa somos nós, aqueles que sofrem com o sistema que nos reprime,aquele que trabalha para pagar o que não tem retorno, o que é “roubado”…..
    Classe operária…….não acredito que não saiba, por mais que seja um patrão, você também faz parte desta massa que é explorada de alguma forma pelo sistema de governo, pena de quem não seja lúcido!!!!!

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