Entrevista da UNIPA ao jornal anarquista Meydan da Turquia

Apresentação1

A luta popular no Brasil teve repercussões internacionais a partir da revolta de junho de 2013 e dos protestos contra a copa do mundo. A UNIPA se colocou desde o início ao lado das manifestações e defendeu uma via classista e autônoma para as massas. Como continuidade desse processo tivemos a honra de conceder uma entrevista ao jornal anarquista MEYDAN da Turquia. A entrevista foi publicada no final de Julho com o título “União Popular Anaquista fala sobre a Copa do Mundo”, e pode ser acessada pelo link: http://meydangazetesi.org/gundem/2014/07/ahbduyakupasi/. Saudamos os camaradas e o povo da Turquia que também enfrentam duros combates contra o Estado e a burguesia. Boa Leitura a todos/as!

***

MEYDAN: Vocês poderiam nos informar sobre a situação atual no Brasil, por favor?

UNIPA: Desde 2013, o Brasil tem encarado um colapso nas condições socioeconômicas e políticas da hegemonia burguesa. Três fatores importantes têm contribuído para este contexto: 1) a crise macroeconômica mundial, que destruiu muitas ferramentas do Estado para assegurar o apoio das massas; 2) a formação de uma nova fração de classe, como consequência da superexploração e das reformas neoliberais; 3) novas formas de resistência, estratégia e organização dos trabalhadores, como comitês de fábrica e outras organizações informais. Deste modo, podemos falar sobre um novo ciclo da luta de classes, caracterizado por muitas situações específicas, como greves, manifestações violentas e confrontos nas ruas. Depois da maior demonstração de massas da História do Brasil, em junho de 2013, temos visto importantes greves nos serviços públicos (como, por exemplo, as escolas públicas do Rio de Janeiro), sistema de transporte (como os motoristas de ônibus do Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e outros estados), sistema de segurança dos bancos (trabalhadores terceirizados), e serviços de limpeza urbana (Rio de Janeiro). Essa última greve foi muito importante para a organização da classe trabalhadora brasileira devido à resistência à repressão do Estado e à resposta dada à burocracia sindical. A greve dos trabalhadores da limpeza urbana aconteceu durante o carnaval, o que provocou uma interrupção na coleta de lixo, obrigando o Estado a atender às reivindicações dos trabalhadores.

MEYDAN: Qual era a situação do processo de gentrificação urbana anterior à realização da Copa do Mundo? Qual o grau de repressão do Estado contra os manifestantes?

UNIPA: Temos visto muitos tipos de conflito social no Brasil. Nas principais capitais (Rio de Janeiro, São Paulo, Fortaleza, Porto Alegre), os moradores das favelas são particularmente brutalizados pela violência e gentrificação do Estado. Milhares de pessoas foram desalojadas e tiveram suas casas demolidas. Muitas pessoas também foram assassinadas pela polícia (que agora também age nessas favelas por meio das unidades de polícia pacificadora, as UPPs), em uma verdadeira política de extermínio. Assim, a gentrificação foi realizada com o objetivo de atender a um determinado projeto urbano, subordinado a interesses econômicos (da FIFA, turismo internacional, etc), a despeito do povo brasileiro, que não será beneficiado com esses processos.

Até aqui, esse conflito tem sido administrado pelo Estado de duas maneiras: perseguição política e assassinato paramilitar. Portanto, milhares foram detidos e agredidos pela polícia. Ouvimos sobre doze ativistas que foram misteriosamente assassinados no ano passado e sobre forças paramilitares agindo a fim de intimidar por meio de sequestros, estupros e agressões. Os manifestantes tem sofrido perseguição em seus trabalhos (redução de pessoal, processos de demissão), escolas e universidades. Poderíamos dizer que no Brasil estamos vivendo sob um Estado Policial neste exato momento.

MEYDAN: Quem são as pessoas que aderem aos protestos? Porque a grande mídia tem nos informado que os protestos são feitos basicamente por estudantes, mas sabemos que os manifestantes são as pessoas que tem de encarar as políticas do Estado e do capitalismo, vivendo em áreas incluídas nesses projetos de gentrificação. Atualmente, é óbvio que os projetos de gentrificação terão continuidade depois do evento, como acontece em qualquer lugar. Mas o que vocês esperam dessas manifestações, acreditam que a oposição social vai manter seu poder nas ruas?

UNIPA: Este ponto é bastante importante. Para dizer a verdade, em 2013 e 2014, os novos segmentos da classe trabalhadora exerceram o protagonismo nas demonstrações de rua. Falamos de trabalhadores terceirizados, desempregados, juventude pobre, superexplorados, trabalhadores informais, estudantes e outros grupos. No Rio de Janeiro, por exemplo, a maior demonstração de rua aconteceu no dia 20 de junho, 2013, mobilizando cerca de dois milhões de pessoas. Então, os burgueses e o Estado tentaram convencer a sociedade que os manifestantes não eram “trabalhadores”, porque as pessoas nas ruas não se ecaixavam perfeitamente no padrão social-democrata de operário industrial. Compreendemos que isso foi uma estratégia discursiva para preservar o monopólio da representação legítima nas mãos do PT e da burocracia sindical. Esses trabalhadores tem enfrentado nos últimos anos diferentes tipos de exploração e os projetos de gentrificação foram o mais recente golpe.

Assim, a complexa conjuntura no Brasil não nos autoriza a fazer predições, mas temos algumas hipóteses sobre o futuro das manifestações nos próximos anos. Na nossa perspectiva, entendemos que entramos em um novo ciclo da luta de classes no Brasil e que a hegemonia burguesa e reformista está enfraquecida. Isso não significa que um novo movimento de massas e uma nova organização revolucionária vão surgir inexoravelmente, tampouco significa que o imperialismo ou o capital vão entrar em declínio. Por outro lado, podemos dizer que foram criadas condições subjetivas e objetivas de forjar novas organizações não-burocráticas, populares e dos trabalhadores, de tipo sindicalista revolucionário. Provavelmente, os protestos vão desenvolver seus aspectos qualitativos e quantitativos nos próximos anos.

MEYDAN: Qual papel os anarquistas têm desempenhado nesses protestos? Qual é a visão da UNIPA no que diz respeito a entender à situação? O que a UNIPA pensa sobre a situação (não apenas do evento, mas também dos confrontos, etc.)? Nós sabemos que a solidariedade internacional é importante nesses períodos, vocês acreditam existem suficientes atos de solidariedade acontecendo ao redor do mundo?

UNIPA: O anarquismo não tem uma tradição forte no Brasil. Podemos falar de dois tipos de papéis desempenhados por anarquistas: 1) indivíduos difusos que reivindicam o anarquismo e 2) as organizações anarquistas. Porém, muitos manifestantes se identificaram como anarquistas durante as manifestações. Mas essa identificação era mais uma forma negativa de exprimir seus sentimentos contra os partidos políticos e a burocracia sindical, do que uma reivindicação positiva da ideologia revolucionária anarquista. A maneira fundamental de se realizar isso foi por meio das táticas Black Bloc e ações destrutivas (ataques a Bancos, estações policiais, etc.). Embora essas ações sejam importantes, não são suficientes para fazer uma revolução. É essencial propagar a forma de organização do sindicalismo revolucionário para diferentes níveis, especialmente para as novas formas de luta dos moradores de favelas e periferias e para as greves de massa contra a superexploração. No que diz respeito às organizações anarquistas, muitas delas agiram marginalmente nos eventos mencionados. Muitas organizações anarquistas agem apenas para propagar ideias gerais e colaborar (conscientemente ou não) com a burocracia reformista. Por outro lado, as organizações anarquistas revolucionárias cumpriram um papel central em muitas dessas demonstrações de rua e greves por todo o Brasil, criando organizações formais e informais, conduzindo comitês de greve, organizando confrontos e táticas black bloc para enfrentar a violência do Estado. Portanto, o papel desempenhado pelo anarquismo não foi homogêneo, mas refletiu as contradições do anarquismo, e o estado atual de seu desenvolvimento no Brasil. Por consequência, acreditamos que o anarquismo revolucionário foi potencializado pelos eventos dos últimos anos e continuará se desenvolvendo e fortalecendo.

A UNIPA considera que os protestos violentos vão continuar e que é tarefa dos anarquistas organizar a autodefesa dos trabalhadores oprimidos contra a polícia e o Estado. Mas acreditamos que é imperativo organizar a autodefesa como parte da organização sindicalista revolucionária de massas. É necessário criar organizações de base a fim de as opor às burocracias sindical e reformista. Acreditamos que o papel do anarquismo revolucionário é organizar a violência revolucionária de massas, assim como também as lutas econômicas e políticas, de outro modo, este novo ciclo da luta de classes não será capaz de construir uma nova alternativa socialista. Por esse motivo, os anarquistas revolucionários ao redor do mundo devem avançar no desenvolvimento do internacionalismo. Apesar da solidariedade internacional ser crucial, não é suficiente. Desta maneira, devemos construir uma organização de massas internacional para coordenar a solidariedade e as lutas pelo mundo, mais precisamente, uma organização do tipo da AIT (Associação Internacional dos Trabalhadores), para combater o imperialismo, o nacionalismo, a social-democracia e o comunismo. A UNIPA está convocando os anarquistas revolucionários ao redor do mundo para construir essa organização.

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Leia também em:  TURCO  –   INGLÊS   –   PORTUGUÊS

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