A execução do jovem negro Michael Brown pela polícia: o extermínio da juventude e a autodefesa popular

“Não existe capitalismo sem racismo.” 

Malcom X

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No dia 09 de agosto de 2014, o jovem negro Michael Brown, 19 anos, foi assassinado pela polícia de Fergunson, no estado do Missouri, nos EUA. Na versão da polícia, o jovem teria tentado agredir e roubar as armas dos policiais durante uma abordagem de rua. Essa versão não foi confirmada pelas testemunhas. Também foi desmentida por um vídeo amador feito por um morador local durante a abordagem e contrariou o resultado de uma autópsia do corpo do jovem, que apontou a execução de Michael pelo policial. Segundo as testemunhas, Michael caminhava pela rua em direção a casa de sua avó quando uma viatura parou e o policial gritou para ele “para trás caralho”. O que se seguiu foram 9 disparos contra o jovem que se encontrava desarmado e com as mãos na cabeça. O corpo de Michael Brown ficou estendido no chão durante várias horas acompanhado por cerca de 60 policiais enquanto uma multidão de populares se reunia.

As concentrações espontâneas de pessoas continuaram acontecendo durante todo o sábado por Fergunson, que é um subúrbio de moradores, o que chamaríamos no Brasil de uma “cidade dormitório”. As manifestações de indignação continuaram por toda a semana. Ainda no dia 10, uma vigília reuniu mil moradores de Fergunson. A medida que a população se aglutinava o aparelho repressor do Estado policial norte-americano entrou em operação com a prática do toque de recolher, com o envio de policiais dos arredores de Fergunson, equipes da SWAT com fuzis, veículos blindados e equipes K-9, que fazem uso de cães adestrados. Em resposta, os jovens negros, brancos e latinos da cidade organizaram saques, incendiaram postos de gasolina e pararam ônibus. Durante a semana o serviço público ficou paralisado.

O caso ganhou proporção nacional após a cínica declaração de Obama no dia 18 de agosto de que “não existem desculpas para a polícia usar força excessiva” contra manifestantes e deter jornalistas. Soma-se a isso as medidas de enviar o Secretário de Justiça e o FBI para avaliar o caso. Já no dia 20, o que os moradores de Fergunson viram foi a presença da Guarda Nacional atuando contra as manifestações populares, detendo incialmente 60 pessoas. A mídia burguesa norte-americana classificou os protestos como pacíficos e violentos (a mesma estratégia usada pela grande mídia no Brasil em julho de 2013) na tentativa de dividir a revolta popular. A atuação da mídia provocou reações quando passou a publicar imagens pessoais de Brown supostamente fazendo um sinal típico de uma quadrilha. Nas redes sociais os usuários saíram em defesa de Michael e houve protestos em frente a sede da rede CNN.

Guerra racial ou guerra de classes?

Fergunson é uma localidade que apresenta altos níveis de desemprego e racismo. Ela possui cerca de 21.000 habitantes, dos quais 70% são negros. O desemprego é de 47% nos jovens negros na faixa entre 16 a 24 anos. Já nos brancos da mesma faixa etária é de 16%. A maior parte do contingente policial da cidade é formada por brancos. Esses números possuem relação com a história do próprio estado do Missiouri, o último a abolir a escravidão nos EUA.

image3Perante os fatos ocorridos em Fergunson em torno da execução de Michael Brown, a narrativa mais comum que se formou classificava o ocorrido como derivado de tensões raciais. Essa foi a narrativa também propagada no Brasil pela mídia burguesa (G1, R7). Contudo, ao revelarem o racismo, que de fato existe nos EUA, ocultaram as tensões de classe existentes também lá. Classificar de tensão racial os protestos e saques em Fergunson não explica a participação de brancos e latinos nas ações populares de rua. A narrativa da “guerra racial” não explica toda a questão e cria obstáculos de se entender o que se passa em Fergunson como um fato da luta de classes.

Diante dos fatos, o governador do estado, Jay Nixon, colocou a segurança da cidade sob o comando do policial rodoviário negro Ron Johonson. A classificação de “violência racial” é benéfica ao governo e ao reformismo que conclamaram a presença de mais policiais negros na polícia de Fergunson como saída política para a situação. “Esta é uma oportunidade para consertar o que está errado”, falou o chefe de polícia Thomas Jackson numa entrevista coletiva. “Estamos trabalhando para encontrar meios de nos envolvermos com a comunidade. Relações raciais são nossa prioridade máxima.”

Como nós da UNIPA afirmamos no texto Mapa da Violência: jovens e negros na mira assassina do Estado: “é importante reafirmar que a violência é sobretudo um reflexo das contradições de classe que fundamentam a sociedade, e que nesse sentido a população pobre e jovem das periferias e favelas permanece vulnerável à violência e à criminalidade porque para ela os direitos a uma existência suportável são negados pelo Estado para garantir a manutenção do capital”. A AFL-CIO, a maior central sindical dos EUA, limitou sua ação a pedir voto aos democratas e enviar cartas aos legisladores, pois como a CUT no Brasil, é um braço do governo no movimento sindical. Como afirmou Kareem Abdul -Jabbar, embaixador educacional e seis vezes campeão da NBA pelo Los Angeles Lakers, “Ferguson não é apenas questão de racismo sistêmico – é sobre a luta de classes e como os pobres nos EUA são tratados.”

O Clube de Tiro Huey P. Newton e o resgate do patrulhamento comunitário

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A revolta popular de Fergunson provocou manifestações pelo território norte-americano. Da cidade de Dallas, no estado do Texas, outro estado com forte tradição racista, uma das principais bases dos racistas do Ku Klux Klan, a reação popular a violência classista e racista da polícia veio na forma do resgate do patrulhamento comunitário.

No dia 20 de agosto, um grupo de 30 pessoas realizou uma patrulha armada de autodefesa no Sul de Dallas pela tarde. Nesse mesmo dia ocorriam manifestações populares contra a violência policial na cidade. O grupo, formado por homens e mulheres, negros e pardos, membros do Clube de Tiro Huey P. Newton, caminharam pelas ruas portando rifles, escopetas e fuzis AR-15, além de faixas contra a polícia e a favor de Michael Brown. “Eles estão tentando proteger a comunidade”, disse Jacey Cofer da organização Mães contra a Violência Juvenil. O nome do clube é o nome de um dos fundadores e Ministro da Defesa do Partido dos Panteras Negras.

Dallas também apresenta índices de violência policial. Como afirma o Clube de Tiro Huey P. Newton, nos últimos 10 anos a polícia assassinou mais de 70 pessoas desarmadas, a maioria negros e pardos. A coerção policial a comunidade de trabalhadores negros e pardos é tão presente que, apesar de o constante assassinato cometido por policiais, desde 1973 não existem registros oficiais de denúncias contra a polícia, salvo um caso, onde a versão da polícia foi contestada por câmeras de vigilância.

O Clube de Tiro Huey P. Newton, se baseia na tradição da autodefesa popular praticada pelo Partido dos Panteras Negras nos anos 1960 e 1970 nos EUA como forma de controle comunitário sobre as atividades da polícia e do Estado. O Clube parece ter ligações com o Novo Partido dos Panteras Negras e possui uma lista de 3 demandas inegociáveis: “1) Exigimos o fim imediato da brutalidade policial, assédio e assassinato do povo; 2) Afirmamos o direito das pessoas, especialmente as de cor, de portar armas e proteger-se, onde os governos local, estadual e federal não conseguir fazê-lo; 3) Exigimos que a mídia, em coordenação com a polícia, cesse imediatamente de assassinar o caráter das vítimas do terrorismo policial”.

Diante do extermínio da juventude pobre e negra seja nos EUA, seja no Brasil, o Clube de Tiro Huey P. Newton mostra que o caminho dos trabalhadores na luta contra a exploração capitalista e a opressão racista é a autodefesa popular. Isso significa não revindicar por melhorias salariais para a polícia ou mais policiais negros para servir de carrasco do povo pobre, negro, pardo, indígena. Retomar a autodefesa popular por bairro, vila ou favela é retomar o protagonismo dos trabalhadores frente a violência estatal, é desde já “construirmos nós com nossas próprias mãos” o caminho da libertação popular frente ao capitalismo, o Estado e racismo.

Fim da PM já!
Abaixo o extermínio da juventude pobre e negra!
Lutar, criar autodefesa popular!

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