“Anarquistas de governo”: o triste fim do revisionismo libertário no Brasil e na América Latina

Oportunista (3)

Comunicado nº 42 da União Popular Anarquista (UNIPA)
Brasil, fevereiro de 2015.

A UNIPA vem há mais de dez anos travando a luta teórica e ideológica contra o revisionismo do anarquismo. Essa luta foi interpretada equivocadamente, ou oportunistamente, como sinal de “intransigência”, “autoritarismo”. Na realidade essas acusações serviam como cortina de fumaça para encobrir os erros de linha política e mesmo um reformismo latente. Agora, depois de quase dez anos, a prática, como sempre, explicita a verdade. Hoje muitos dos que se reivindicam “anarquistas” ou “libertários” assumem uma defesa aberta de uma política socialdemocrata, caindo nas mais grotescas contradições, como apoiar o governismo. Esse texto denuncia e analisa teoricamente esse processo.

1 – Os fatos: o anarquismo social (democrata) como apêndice do governismo nos movimentos de massa

Podemos dizer que alguns fatos vêm se apresentando e ajudando a explicitar essas contradições. Iremos começar pelo relato dos mais recentes eventos. No Rio de Janeiro ocorreram, em janeiro de 2015, cinco plenárias de luta organizadas pelo “MPL” (Movimento Passe Livre). Nessas plenárias vimos, e todos viram, os militantes da FARJ (Federação Anarquista do Rio de Janeiro/integrante da CAB – Coordenação Anarquista Brasileira) cumprirem o papel de força auxiliar do governismo.

Os setores revolucionários, diante do fato de que o PCdoB e correntes do PT estavam atuando para dar a feição as plenárias que interessam ao governismo, ou seja, dar uma direção política corporativista, economicista e que separe a luta imediata de problemas histórico-estruturais da classe, tentaram levantar o debate sobre o participação ou não dessas forças nas plenárias. Como os revisionistas libertários atuaram em tal plenária? Representantes da FARJ, ante a proposta de não permitir representantes do PT e do PCdoB nas plenárias, se manifestaram favoráveis a presença da UJS, do Levante Popular da Juventude. Seu argumento foi que “O governo é da Dilma, não do PT” e “uma coisa é ser governo, outra é ser petista”. Essa defesa da presença do PT e do PCdoB foi fundamentada em argumentos que tentavam isentar esses partidos da responsabilidade política do Governo, tratando o Governo Dilma como a política de um “individuo” solto no ar, sem nenhuma condição social de sustentação.

Mas esta defesa, que poderia ser considerada como um desvio de “democratismo” abstrato, na realidade se conjugou com outra, mais séria, mais danosa e muito mais irresponsável. Os presos políticos do Rio de Janeiro, presos de toda nossa classe, combatentes do povo, estão sofrendo nas masmorras do Estado brasileiro por terem lutado por direitos, inclusive dos transportes. Coerentemente se colocou que uma das linhas de ação do ato deveria ser pela “Liberdade dos Presos Políticos”, bandeira que qualquer reformista digno subscreveria. Mas qual foi a defesa dos governistas, que contaram com o apoio da FARJ? Defenderam contrariamente que se levantasse a bandeira pela liberdade dos presos políticos porque isso seria fugir do foco da luta que “era apenas evitar os aumentos e obter transporte público”. Essa posição é, acima de qualquer coisa, uma traição, perfeitamente coerente com a política dos governos e o cinismo do PT e do PCdoB, mas não com a revolta popular.

Além destas práticas locais da FARJ (poderia se dizer que é um desvio de uma organização regional) é importante indicar o padrão das ações, primeiramente do FAO (Fórum do Anarquismo Organizado, que depois assumiria o nome de Coordenação Anarquista Brasileira).

Entre 2005-2006, quando as lutas contra as reformas da previdência e trabalhista resultaram num movimento de cisão em relação à CUT e denuncia do governismo, qual foi a posição do FAO? Eles não assumiram a luta contra o governismo e optaram por assumir o discurso da inviabilidade de condições históricas para uma ruptura (quando esta ruptura já estava objetivamente acontecendo) ou do sectarismo frente ao trotskismo. Erroneamente, justificaram se manter fora da luta contra o governismo por não querer se aliar ao trotskismo quando um grande número de correntes governistas são, ainda, trotskistas. De fato, não acompanharam o movimento de uma parcela da classe que explicitava as contradições e o impulso de romper com a CUT, com todas as contradições desse processo. Além disso, sua atividade dentro do campo da “Intersindical/CUT” não produziu nenhum antagonismo, não vimos nenhum debate de fundo político ser conduzido para expressar que esse setor estava “disputando” com os governistas.

Depois do levante popular de 2013, organizações aderentes da CAB, tem tido posicionamentos contraditórios. De maneira geral, a CAB já tinha manifestado sua condenação da violência de massas (defendida mesmo por Malatesta e pela FAU histórica, supostamente referências desse campo), primeiramente subscrevendo a condenação dos anarquistas gregos realizada por Frank Mintz. Não é então surpreendente que depois de junho de 2013 a OASL (Organização Anarquista Socialismo Libertário, também da CAB) e a FARJ tenham atacado os “Black Blocs” , argumentando que a tática Black Bloc “afasta” as massas, que a “violência” afasta os trabalhadores, invertendo o efeito pela causa e vendo-as de cabeça para baixo. A exaltação do “anarquismo histórico” (também chamado de violento, de terrorista) gera então uma flagrante contradição.

No mesmo período em que condenavam os protestos violentos na Grécia, os setores da CAB tem internacionalmente promovido campanhas juntamente com a FARV (Federação Anarquista Revolucionária da Venezuela), que é “chavista”, defende o Governo Chavez e suas políticas de capitalismo nacional. Além disso, tem também apoiado organizações que participaram de “Frentes Populares” com partidos burgueses, tal como organizações “anarquistas” que apoiaram a Bachelet no Chile.

A grande questão é: denunciar esses fatos é um dever de classe, de todos os que defendem a luta da classe trabalhadora e explorada. Analisar esses fatos e explicá-los é um dever revolucionário, pois eles servem para formar a consciência estratégica da própria classe e esta compreensão auxilia a enfrentar os desafios da luta.

Podemos dizer que esta política da FARJ/CAB é o resultado de uma atividade de diferentes naturezas: de um lado uma linha teórica e ideológica revisionista. Esta linha equivocada impede que essa organização desenvolva uma linha de massas, e a ausência de uma linha de massas autônoma leva a sua integração no governismo e nas frentes populares de esquerda da América Latina. Em 2006 já havíamos advertido que a recusa em aprofundar a luta teórica e ideológica, em assumir o bakuninismo, levaria ao oportunismo (ver Comunicado nº 15, “Anarquismo e Ecletismo, em geral e particularmente no Brasil”). Muitos tentaram falsear nosso argumento, acusando de “dogmatismo”, “sectarismo”. A fraseologia agora mostra seu resultado: porque a FARJ/CAB defende a presença do PT, e mais que isso, legitima o argumento de que o PT é diferente do governo? É o individualismo analítico e seu idealismo. O problema são os indivíduos, como o indivíduo se “considera subjetivamente”. Assim, eles defenderam a separação absoluta entre o Governo Dilma Rousseff e o PT/PCdoB porque os “indivíduos/filiados” não são do governo, e logo ser governista não é a mesma coisa que ser do PT. Ou seja, o individualismo cobra agora sua dívida, fazendo com que a teoria dos “anarquistas especifistas”, o “anarquismo social”, seja velho individualismo com outra roupagem.

O mesmo sobre a negação do materialismo: essa negação leva ao efeito prático de separar o indivíduo das condições e relações sociais. Assim, o problema é a “Dilma” e não as relações sociais, de classe, de poder, ideológicas que englobam a ação individual mas não podem ser reduzidas a ela. Assim, o PT, o PCdoB, suas práticas ideológicas cotidianas desaparecem e surgem apenas os “super-indivíduos”, herói ou vilão, típicos das novelas burguesas.

É interessante que essa defesa se dá no momento em que Lula, por uma opção tática, tenta se “distanciar de Dilma” para poder se colocar como “terceira via” nas eleições de 2018, retornando como “salvador da nação”. Essa defesa da separação entre o PT e seu bloco sindical-popular do modelo econômico e político vigente é apenas uma tática do PT para prolongar a vida do Lulismo. A CUT também está encenando uma guinada à esquerda, para renovar sua legitimidade.

Essa concepção teórica individualista isenta-se da necessidade de uma linha de massas. E por não terem uma linha própria, assumem a linha do governismo e do sindicalismo de Estado. A negação do “apoio aos presos políticos” é uma prática economicista e conservadora, da separação das lutas imediatas e históricas, típicas da socialdemocracia e do sindicalismo de Estado de tipo varguista. A ausência de uma linha de massas própria conduz a defesa da linha de massas estatista (socialdemocrata, comunista), e isto conduz a integração em diferentes graus, nas coalizões “governamentais”. Malatesta usou o termo “anarquistas de governo” para denunciar Kropoktin e outros por sua adesão à política imperialista; os “Amigos de Durruti denunciaram na Espanha em 1937 o “ministerialismo”, a participação de “anarquistas” como ministros e defensores dos Governos burgueses. Essas são apenas as formas mais avançadas da diluição desse reformismo libertário dentro das organizações reformistas e dos governos. Ela se nega a colocar todas as complexas determinações (ideológicas, organizativas, econômicas) e assume o economicismo como solução fácil. Assim, a prática de luta econômica (luta pela redução da tarifa é completamente separada da luta política contra o Governo, nunca sendo o momento de colocar a vinculação das duas). Exatamente como os reformistas tentam fazer todo o tempo.

Eles negam que a prática de resistência gera a prática revolucionária e que a prática de colaboração só pode gerar a prática contrarrevolucionária. Essa afirmação é fundamental pois o que se trata aqui é de ver como contribuir para o processo revolucionário. A luta ideológica e teórica não é uma opção, não há prática revolucionária sem teoria revolucionária, não há pratica revolucionária sem prática de resistência. Logo, se o anarquismo é revolucionário, ele não pode ter agora, antes da revolução, uma prática colaboracionista. Se ele tem uma prática colaboracionista, é porque ele nega a revolução e cai, portanto, no revisionismo.

Por isso a expressão “anarquistas de governo” é uma ironia histórica, uma contradição em termos; ou se é anarquista ou se é governista, mas os anarquistas de governo gostam de preservar o título de “anarquistas”. Como não estamos preocupados com monopólios sobre etiquetas, cada um pode dizer que é o que quer que seja (FHC dizia que não era neoliberal), mas deve arcar com as consequências políticas de seus posicionamentos e atos. Para compreender os novos anarquistas de governo precisamos compreender os “antigos”. É isso que iremos analisar agora.

2 – Do reformismo libertário da CNT aos “anarquistas do PT”: ou porque o “especificismo” e o anarquismo social não são nada

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Bandeiras da UNE, UJS, PSOL e PSTU a frente do ato contra o aumento em SP. A disputa já está dada, o combate ao governismo e reformismo é uma necessidade. Mas o revisionismo defende a “coexistência pacífica” com os governistas.

Podemos dizer que a integração de ideologias críticas no sistema capitalista é um fato recorrente. Mas também é recorrente a crítica e a denúncia desse processo. Dessa forma, tão logo o anarquismo foi formulado no século XIX, alguns operários tentaram dar uma interpretação reformista das teses de Proudhon, e formularam “O Manifesto dos 60 Operários do Sena”, que defendia as candidaturas operárias. Proudhoun elaborou uma carta em que dizia “Nada de eleições, nada de candidatos”, e depois formulou o projeto da organização da capacidade política operária fora das instituições estatais. Bakunin irá aprofundar esse desenvolvimento, dando forma clara a organização revolucionária (Aliança) e da organização das massas (AIT – Associação Internacional dos Trabalhadores), que se tornaria o modelo de linha de massas defendido pelos sindicalistas revolucionários em todo mundo durante um século.

Mas ao mesmo tempo, republicanos burgueses tentaram dar outro sentido as teses anarquistas, atribuindo um conteúdo individualista e mesmo capitalista. Esse processo foi concomitante a repressão que se deu depois da Comuna de Paris de 1871. Foi então a base da concepção anarco-comunista de Kropotkin que negou o bakuninismo e o coletivismo. O mesmo acontecendo com o individualismo de Benjamim Tucker nos EUA, centrando a estratégia na ação educativa de indivíduos sobre as massas. Os críticos dessa visão foram especialmente os sindicalistas revolucionários. Assim, historicamente existe uma luta entre os que tentam atribuir ao anarquismo uma proposta individualista e republicana e outra que entende o anarquismo como força revolucionária de massas.

Podemos dizer que depois da insurreição e Guerra Civil espanhola (1936), a linha republicana ganhou a CNT (Confederação Nacional dos Trabalhadores) e tornou-se hegemônica internacionalmente. Lá, a agrupação “Amigos de Durruti” cumpriu o papel de denunciar a integração de setores da CNT e FAI (Federação Anarquista Ibérica) no Estado burguês, o “ministerialismo”. Mas o fundamental é que essa linha não desapareceu. Os exilados espanhóis reformistas na França durante os anos 1960 assimilaram o novo liberalismo cultural como sinônimo de anarquismo, e ao longo dos anos 1970 Diego Abad Santillan, o mestre do “reformismo libertário”, formulou de maneira clara e categórica a renúncia à revolução. Em seu livro “estratégia e tática. Ontem, hoje, amanhã”, Santillán apresenta as linhas finais da evolução de seu pensamento e de sua política:

“Primeiro: […] o capitalismo não é mais uma massa uniforme e petrificada, é um conjunto de atitude e de categorias que não se mostra sempre solidária nem sequer frente aos adversários comuns; Existe um capitalismo que poderíamos qualificar de compreensivo e progressista, que observa a evolução obrigada da economia atual; […] Segundo: A grande revolução de hoje é a reforma; a barricada já cumpriu sua missão, se é que teve uma missão, e nas condições atuais é muito mais um caminho para a contrarrevolução do que para a realização de um progresso efetivo e de uma autentica libertação; A propagam e recorrem a ela precisamente os que não aspiram a liberdade nem a democracia, senão a instauração de novos despotismos. Terceiro: Resumindo, achamos que hoje importa muita mais a luta contra o totalitarismo estatal que contra o sistema capitalista que já mostra fissuras suficientes para que o espírito de iniciativa e desejo criador podem praticar formas de vida econômica não-capitalista”.

É nessa base histórica que os chamados “especifistas” e o “anarquismo social” tentam se apoiar. Estes setores, ao negarem o debate teórico e procurarem uma posição “democrática”, de conciliar todas as tendências, assimilam mecanicamente essa linha do “reformismo libertário”, que se tornou uma espécie de “republicanismo”.

No Brasil, o terreno foi preparado ainda pelo fenômeno dos “anarquistas do PT”. Nos anos 1980 a crítica ao stalinismo e ao PCB levou a um resgate romântico do anarquismo (exaltação do período do sindicalismo revolucionário pré-1930). Assim, muitos indivíduos dentro do PT se diziam anarquistas, por entenderem que anarquismo era “anticomunismo”. Ainda hoje existem petistas que se dizem anarquistas, e são também os maiores defensores da indefinição teórica, do anarquismo como “etiqueta ideológica”, pois o debate teórico desmascara sua posição.

No Brasil, esse revisionismo surgiu historicamente pela presença do individualismo liberal e culturalista, que não tem nenhuma relação com o sindicalismo revolucionário dos anos 1910-30. Nos anos 1990, com a tentativa de resgate de um anarquismo classista, esse campo se diversificou, surgindo a proposta de um anarquismo de massas. Mas setores queriam conciliar com essa tradição liberal e também agregar os “anarquistas do PT”. Um debate interno levou a uma cisão entre militantes, e esse processo resultou na formação de dois projetos: o anarquismo revolucionário defendido pela UNIPA e o revisionismo que se consolidou numa rede de organizações denominada de FAO (Fórum do Anarquismo Organizado e que depois assumiria o nome de CAB, Coordenação Anarquista Brasileira) que tentava conciliar elementos do classismo característico do anarquismo revolucionário, com o individualismo, camuflando suas posições sob uma aura de “prudência”.

Em 2006 afirmamos no Comunicado nº 15 que, caso esses militantes não rompessem com essa posição titubeante seriam levados a uma posição centrista e capituladora. Pois bem, essa posição começa a se expressar de forma a clarear as suas contradições. De 2011 até agora, tanto internacionalmente, como nacionalmente, a CAB e outras organizações tem se diluído dentro das frentes populares, tornando-se meros apêndices das políticas socialdemocratas. Dessa forma, a ausência de um debate teórico sério tem alimentado o oportunismo que é a base da ação da FARJ, mas também da linha internacional anarco-governista.

Existem diferenças dentro da CAB? Sim, ela é heterogênea. O especifismo, que é a panaceia da FAG (Federação Anarquista Gaúcha), que defende o “voto nulo” no Brasil mas se alia com organizações chavistas e bachelistas internacionalmente, não caiu ainda no grau de oportunismo da FARJ, mas nem por isso é isenta de responsabilidade sobre o desenvolvimento do reformismo libertário. O que é o especifismo? É uma limitação da apropriação mecânica de uma categoria formada num contexto histórico já superado, o Uruguai dos anos 1950. Naquele período fazia sentido defender a organização específica contra um setor do individualismo desorganizador. Isso resultou numa linha de massas, na defesa da greve geral, no combate à linha reformista do PC dentro da PIT-CNT (confederação sindical), na formação de uma corrente própria (Resistência Operária Estudantil) e na aliança com setores combativos (Tendência Combativa, que agregava especialmente setores maoístas).

O especifismo de hoje congela o debate e o desvirtua: ao invés de combater o individualismo, concilia com ele; ao invés de combater o reformismo, concilia com ele; reduz as múltiplas tarefas teórico-políticas do anarquismo a apenas uma: defender a organização como princípio “em si”. Essa redução conduz ao nada, servindo como posição negativa frente aos desorganizadores. Não enfrenta os problemas complexos de como se organizar, com que estratégia, observando que teses e etc. Pois, na realidade, mesmo setores reacionários podem defender a organização. A questão é: organização de que tipo? E nesse terreno o especifismo não avança. Se furta de ter uma posição construtiva, de apontar qual deve ser a linha de massas, fica numa denúncia genérica do governo, mas não disputa uma concepção e projetos; não tem uma proposta de sindicalismo revolucionário (que tem em Malatesta um dos seus principais teóricos e, contraditoriamente, o especifismo que tem em Malatesta uma referência, não usa a teoria de Malatesta para agir no movimento de massas). O anarquismo social é um cavalo de Tróia: é uma transformação da linha de Santillan, um republicanismo socialdemocrata com retórica libertária, daí o nome de anarquismo social (democrata) ou socialdemocracia libertária que os revolucionários na Europa lhe deram.

Logo, o especifismo e o anarquismo social não podem ser nada em termos dos desafios histórico-estruturais do movimento de massas. Eles só podem ser um apêndice do reformismo. A organização como princípio “abstrato” e “em si” legitima que eles tenham unidade com todos os que supostamente defendem a “organização” (a UJS, a CTB, a Articulação Sindical, a ASS), da mesma forma que defendem ferrenhamente a unidade do anarquismo como síntese do individualismo com o “social”, e daí seu flerte com o liberalismo, acusando de autoritarismo todos que rompam com essa dinâmica. A prática dos anarquistas de governo está assim ancorada em elementos de teoria individualista e no republicanismo “democrático”.

3 – A unidade na resistência e as minorias ativas: chamado aos anarquistas para o combate ao individualismo e ao reformismo libertário

“Que o sindicalismo não tem natureza própria, ao contrário do que há muito tempo afirmava um camarada – prova-o o fato de que pode ser socialdemocrata ou bolchevique… ou católico, anarquista. Não sendo mais que o nome dado ao movimento operário, ele terá o caráter que lhe infundam com sua mentalidade e seu temperamento as minorias ativas que o orientem. As discrepâncias de pensamento suscitadas no seio da Internacional motivadas pela orientação que se deveria dar as sociedades de resistência apresentaram um importante problema aos militantes das mesmas: a escolha dos meios condizentes ao fim comum de transformar a sociedade. É conhecida a diferença de critério a este respeito quanto ao método de luta entre os chamados marxistas e bakuninistas, entre autoritários e libertários. O congresso antiautoritário celebrado em setembro de 1872 em Saint-Imier representa a rebeldia da liberdade – que inspirou a fundação da AIT – contra o dogma autoritário e o espírito de dominação, encarnado em Karl Marx e os seus amigos. Desde então até hoje, a separação das organizações proletárias em todos os países, seguiram direções diferentes, é inevitável. Muito empenho foi posto e muito boas intenções têem sido consagradas ao propósito de retornar a unidade. Grande número de companheiros anarquistas tem sofrido, obcecados por esta idéia, de excessiva ingenuidade. Felizmente parece que as duras lições oferecidas pelo tempo, chegaram a estabelecer um acordo dentro do mesmo marco de luta para alcançar o ideal comum de emancipação. Mas nem tudo está esclarecido no referente a esta questão. É sabido que quando estava para fazer-se a luta, uma nova corrente de vontades fez a sua aparição para pretendendo incorporar as idéias socialistas – com a denominação de socialismo – uma nova doutrina social. Cerrando os olhos ante a investigação serena do passado, ante a realidade instrutiva do presente e em face aos verdadeiros destinos do futuro, anunciou-se ao mundo operário a descoberta de uma nova orientação. Para alcançar o fim, em cuja direção tinha que encaminhar-se, rotas diferentes das já conhecidas haveria de seguir. E para não sofrer extravio, disporia também de uma bussola especial O novo horizonte de onde m a seguir, viria a luz, era o sindicalismo como fim, as organizações corporativas como órgãos de reprodução da futura sociedade. (Edgard Leuenroth, Jornal “A Plebe”)

A análise de Edgard Leuenroth é fundamental. Não há sindicalismo puro. Cada ideologia tem seu modelo de organização de massas. E a unidade não se dá abdicando do modelo organizativo. Um dos centros da ideologia anarquista é justamente seu modelo de organização de massas. Ser minoria ativa e ser oposição aos modelos católico, estatal, socialdemocrata, de movimento.

Nossa análise não é uma mera denúncia. Sabemos que existem companheiros sinceros nas organizações anarquistas citadas, dispersos e mesmo em organizações reformistas. Mas não se trata do que os indivíduos pensam, trata-se de como suas ações e relações sociais contribuem ou não para um processo revolucionário. E por isso eles têm a responsabilidade de se posicionar frente a tais questões. E nesse momento fazemos um chamado a estes companheiros sinceros a uma autocrítica profunda e correção de linha política. E conclamamos todos aqueles que se consideram anarquistas a ter um posicionamento firme na luta de classes, combatendo o governismo, o reformismo libertário e o individualismo. Nosso chamado indica que:

1) É preciso que os anarquistas sejam coerentes com a sua linha histórica classista e revolucionária, e isso implica em atuar como minoria ativa, ou seja, praticar a unidade na resistência concreta, nas lutas econômico-políticas mas sem abdicar da defesa do seu modelo de sindicalismo revolucionário e de sua concepção de organização;

2) Os anarquistas, mesmo com divergências de entendimento, devem estar organizados dentro de uma corrente de oposição de base independente, formada de acordo com o modelo de sindicalismo revolucionário e fazer uma denúncia intransigente do papel jogado pelo governismo como força desorganizadora, do sindicalismo de Estado e apresentar formas de organização de base alternativas para fazer a disputa ideológica através da prática de resistência, ao invés de deixar essa luta para um futuro indefinido;

3) Combater o sectarismo, mas sem cair no democratismo republicano e liberal, e por isso, a unidade com outros setores em luta se deve fazer pela base, pelo chamado a construção de uma confederação de oposições de tipo sindicalista revolucionária. Isso significa que os chamados devem ser as bases em luta e não a correntes e direções reformistas e governistas ou mesmo vanguardas revolucionárias.

4) É preciso ter coerência, não adianta ter uma linha nacional, uma estadual e outra internacional como álibi para justificar as incoerências éticas e políticas. É preciso denunciar os governos de Frente Popular na América Latina e reconstruir as organizações regionais do tipo AIT para enfrentar a crise do capitalismo. Unidade teórica e unidade tática significa, em última instância, isso: compromisso ético-político com a causa do povo.

Esse documento então é um chamado a unidade, mas a unidade positivamente assentada sobre fundamentos teórico-programáticos. A nossa unidade não implica abandonar a luta teórico-ideológica. Iremos continuar denunciando as capitulações e de agora em diante ninguém mais poderá se esconder atrás dos mitos do reformismo libertário.

Anarquismo é Luta!

anarquiasempre

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Para ler em PDF: Comunicado nº42

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7 respostas para “Anarquistas de governo”: o triste fim do revisionismo libertário no Brasil e na América Latina

  1. Marcio disse:

    quanta besteira e acusações sem fundamento!

  2. Primeiro Parabéns pelo texto e pela analise histórica, segundo é bom perceber que em muitos lugares do Brasil como aqui em São Paulo Rio de Janeiro e outros, muitos sacaram qual é que é da CAB, terceiro e por fim desta forma fazemos da voz da UNIPA a voz do PAI.

  3. Leo Anarquista disse:

    FARJ apenas não apoiou a expulsão de um grupo político de um encontro do MPL que se diz sem corte ideológico,expulsa-los seria um corte ideológico.E todos ficaram de mimimi ”MPL e FARJ são governistas e bla bla bla” porém ninguém além da FARJ e do MPL pensaram que uma atitude antidemocrática de expulsar um grupo de político de um encontro que se diz aberto e sem corte ideológico poderia ser substituída por uma proposta de radicalização ou algum tipo de ação direta que tal grupo indesejado no encontro com certeza não iria concordar,mas acho que o problema de hoje é que vários grupos não tem paciência nem analise de conjuntura para planejamentos assim,ao invés de decidirmos como chamar mais pessoas aos atos e como lidar com a policia do rio que cada vez aperta mais os atos com seu caldeirão de Hamburgo,grupos inconsequentes ficam soltando notas equivocadas como esta e dividindo ainda mais o movimento que enfraquece a cada manifestação menor.Dialogo entre a esqueda é essencial,duvido que algum militante da UNIPA procurou algum militante da FARJ ou MPL para entender melhor a situação como eu procuro fazer sempre.Por isso por exemplo mesmo no meio de diversas criticas ainda apoio a FIP pois lá estou com eles dialogando e entendendo seus posicionamentos,e porém também achei equivocado quando chamou MPL de governista e inadmissível quando cometeu a irresponsável e gravíssima acusação de associar o MPL com a policia sem nenhuma evidencia ou prova.

  4. Marinete socialista disse:

    Na minha opinião, separar as lutas contra o aumento de tarifas da luta contras as prisões políticas, especialmente no Rio de Janeiro, significar enfraquecer o movimento. Quantos não foram ou serão presos nos próprios atos contra o aumento de tarifas? Acabei de ler outro exemplo neste mesmo site da prisão de um militante da Fag em Porto Alegre em razão de protestar contra reajuste da tarifa! Vejam! O aumento de tarifa não está sendo apenas uma luta econômica. Na medida em que o Estado coloca a violência e o encarceramento como resposta, ele politiza estas lutas. E o movimento de luta da população não pode rejeitar esta politização, e separar uma coisa da outra. Lutar contra o aumento, lutar contra as prisões: uma só luta!

    Sobre vincular a Farj/Cab ao governismo, isso é um grave assunto. Há anos que vejo a militância do antigo Fao e agora da Cab em meio as entidades dominadas pelo governismo (no Mst e em sindicatos Cutistas, especialmente) ou que com elas tem alguma proximidade (tipo a Intersindical que atua na Cut). Mas nunca vi ou li uma posição ou um documento que criticasse com contundência a burocracia Petista ou Pcdobista. Nem mesmo uma posição de disputa por outra forma de organização nestes meios. Construir alguma proposta alternativa de base que possa romper com o governismo então, nada. É muito complicado, atuar de baixo das asas das burocracias mais sedentas pela defesa do governo e sobre elas não praticar a disputa política e a denúncia de seu papel conciliador, é muito complicado. Se isso não é travar uma convivência pacífica com o governismo, o que poderia ser?

    No Rio, o governador Pezão é do Pmdb, base aliada da Dilma. Vale dizer que hoje o Pt não se elegeria ou não governaria sem suas alianças espúrias, entre elas o Pmdb – logo tem que saber o caráter estratégico que é a conciliação de classes, coisa sem a qual não falaríamos em 12 anos de Pt. O governo federal constrói suas alianças nacionais e locais, e as bases populares de sustentação desse governo – tal como Ujs, Jpt, Levante Popular da Juventude, Une e adjacentes lutam nas reuniões de movimentos, nos corredores de universidades, nas lutas contra o aumento etc., para que as lutas não desestabilizem seu governo e suas alianças. No Rio é igual! Ujs, Une e Lpj farão de tudo para despolitizar a luta contra o aumento. Ainda não são burros para aceitarem os argumentos muitas vezes “técnicos” destes governos para aumentar o valor das passagens (talvez seja uma questão de tempo ou conjuntura apoiarem as medidas antipopulares? não precisamos ir longe, o que as centrais, tipo a Cut, farão sobre o “aperto” de salários e aumento do custo de vida, seguro desemprego etc etc etc?). Vão falar que são contra o aumento, claro. Mas vão tirar seu governo e suas alianças da mira da luta popular.

    Pelo relato, me parece que a Farj e o Mpl aceitaram dissociar as lutas e preferiram a unidade com os governistas…. estes sim, que racham a união do povo pra lutar contra os inimigos comuns!

    Sobre a histórica Cnt na Espanha, interessante esse debate. Não sou anarquista, mas tenho posição próxima aqueles que criticaram o ministerialismo da direção da Cnt-Fai. O ministerialismo traiu a revolução em andamento! Rompeu um possível ciclo de lutas internacionalistas naquele momento histórico, e sob a influência anárquica. Vejo a Unipa insistir a muito tempo neste debate com o Fao (agora Cab), sobre o significado da Cnt, da Fai, dos Amigos do Durruti. Mas a Cab jamais fez uma leitura histórica do ministerialismo na Espanha, e continua aceitando suas influências teóricas. E porque falar agora da Espanha? Me fez pensar, a ausência de crítica ao ministerialismo na Espanha causou a traição da Revolução em curso. E no Brasil? O que significará a ausência de crítica do governismo no movimento de massas?

  5. O Bakuninista disse:

    Leo Anarquista, como o texto procura destacar, o debate entre os bakuninistas e o anarquismo especifista tem mais de dez anos. Os episódios durante as plenárias do MPL-Rio apenas reforça a política papel claudicante do anarquismo especifista frente ao governismo. A posição dúbia frente a exigência de ruptura com a CUT, a UNE, com as direções do MST, MTD e MTST governistas. Sua argumentação mostra exatamente uma das principais contradições: a construção de espaços “unitários”, sem corte ideológico.
    Primeiro quem rompeu com a unidade do movimento foram os governistas, pois defendem o governo em detrimento das lutas sociais. Isso ficou explícito nas falas dos militantes do PCdoB e do PT nas plenários do MPL-Rio, defendendo a luta institucional via pressão para a ação do MP contra o aumento das tarifas, ou com a defesa da incorporação das pautas da reforma política, ou ainda com defesa do governo municipal de Marica, cuja prefeitura é petista. Portanto, não há como construir espaços unitários com setores que não passam de infiltrados dos governos no movimento.
    Em segundo lugar, como afirma o anarquista Edgard Leuenroth:
    “Que o sindicalismo não tem natureza própria, ao contrário do que há muito tempo afirmava um camarada – prova-o o fato de que pode ser socialdemocrata ou bolchevique… ou católico, anarquista. Não sendo mais que o nome dado ao movimento operário, ele terá o caráter que lhe infundam com sua mentalidade e seu temperamento as minorias ativas que o orientem”
    Ou seja, não há movimento sem corte ideológico. Os bakuninistas não defendem um MPL anarquista, mas defende, como o Edgard Leuenroth, a disputa ideológica no interior dos movimentos e, portanto, como exigência da atual conjuntura, a ruptura como o governismo é fundamental, é parte necessária da luta ideológica de hoje.
    Lembro o texto da FARJ sobre as eleições, no qual os companheiros concluem que é necessário combater o governismo. “É fundamental reconstruirmos e criarmos grupos de base sindical que possam romper com o governismo”. No caso o MPL-Rio não se aplica essa estratégia? (não adianta responder que o MPL não é um sindicato, pois o debate aqui é o conjunto das organizações do movimento dos trabalhadores).

  6. saudações compas,
    teria alguma fonte que confirme essa passagem: “Não é então surpreendente que depois de junho de 2013 a OASL (Organização Anarquista Socialismo Libertário, também da CAB) e a FARJ tenham atacado os “Black Blocs”, argumentando que a tática Black Bloc “afasta” as massas, que a “violência” afasta os trabalhadores, invertendo o efeito pela causa e vendo-as de cabeça para baixo.”

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