América Latina: Desenvolvimento Capitalista e Conflitos no Campo

Publicado no Causa do Povo nº 72, jun/jul 2015

americalatinaO crescimento econômico da última década está vinculado a exportação agro-mineral e energética. Hoje, planos como o Puebla-Panamá e IIRSA visam criar corredores de exportação de minério, energia e produtos agrícolas por toda América Latina. A conjuntura internacional é marcada pela disputa dos EUA e países asiáticos, sobretudo a China, novo eixo de acumulação de capital. A China vem investindo na América Latina e anunciou o financiamento da Ferrovia Bioceânica que ligará a costa brasileira ao pacífico. Os projetos de exploração agro-mineral avançam, mas a resistência dos povos indígenas, afrodescendentes e camponeses se amplia por toda região.


A última década foi marcada por altas taxas de crescimento econômico. Essas taxas estavam vinculadas a exploração agro-mineral e energética destinada ao exterior. Projetos como Plano Puebla-Panamá e IIRSA (Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana) estão diretamente vinculados a esse plano. Esses planos têm como objetivo a criação de corredores de exportação de minério, energia e produtos agrícolas por toda América Latina. Em meio a estes planos os Estados da América Latina se encontram no meio da disputa entre China e Estados Unidos.

O governo Obama (Partido Democrata) tem como eixo de atuação a reafirmação do poder militar e econômico na região do Pacífico. Os EUA procuram exercer um controle geopolítico e econômico em toda região, incluindo o Oceano Indico. O deslocamento do eixo de acumulação de capital para Ásia tem levado a essa movimentação. Enquanto por outro lado tenta criar uma grande área de livre comércio no atlântico norte com a Europa.

Por outro lado, a República Popular da China procura fortalecer sua posição internacional e suas alianças geopolíticas e econômicas, tanto na Ásia como na América Latina, tendo em vista o fornecimento de matéria-prima para China e o estabelecimento do comércio sul-sul com os governos de origem socialista e trabalhista. Só em 2014 a América Latina captou 27% de todo investimento na exploração mineira mundial.

Assim, os Estados Unidos tem procurado manter sua influência na região, com negociações e desestabilizações de governos, ao mesmo tempo que negocia tratados de livre comércio. A China por sua vez vem investindo na região e anunciou o financiamento da ferrovia que ligará a costa brasileira ao pacífico (Ferrovia Bioceânica ou Transcontinental). Além de apoiar o projeto de criação do Canal da Nicarcaguá que beneficiaria sua posição e os investimentos russos e brasileiros no porto de Mariel em Cuba, que será operado pela empresa Singapur PSA International.

O Impacto e Resistência das Populações Indígenas, Camponesas e Afrodescentes.

Os projetos de mineração avançam por toda América Latina e a resistência dos povos indígenas, afrodescendentes e camponeses se ampliam por toda região. Vejamos alguns exemplos:

A própria construção do Canal da Nicarágua impactará todo ecossistema local e populações camponesas que dependem do Rio San Juan.

peru

Peru

 No sul do Peru os camponeses lutam contra o projeto de exploração e processamento de cobre a céu aberto de Tia Maria, na província de Islay na região de Arequipa, distrito Cocacharra. O projeto pertence a empresa mexicana-estadounidense Southern Copper Corporation (SCC). O projeto teria duração de 21 anos para extrair 10 mil toneladas de cobre diárias utilizando as águas subterrâneas do Vale do rio Tambo. Os protestos se iniciaram em 2009 e 41 camponeses já foram mortos pelas forças policiais do governo de Ollanta Humala.

Colômbia

Colômbia

 Na Colômbia temos os conflitos de Santurbán, Colosa, La Toma, RíoRanchería, entre outros. Os camponeses e as comunidades afrodescendentes e indígenas tem se organizado contra o Tratado de Livre Comércio (TLC) com os EUA que pode aumentar a pressão extrativistas sobre seus territórios. Já foi organizado uma “Cimeira Agrária, Camponesa, Étnica e Popular” que reuniu 200 delegados de 28 departamentos pertencentes a 13 organizações sociais que realizaram greves gerais e obrigaram o governo a negociação. É importante lembrar que na Colômbia, os combustíveis minerais são responsáveis por 66% de sua pauta de exportações; e no Peru, os minérios e combustíveis minerais constituem 63%.

Equador

No Equador quase 20% do território equatoriano foi tomado por projetos de grandes mineradoras chinesas, canadenses e europeias. As populações indígenas e camponesas passaram a travar uma luta “pela água e contra o extrativismo”. As mega-mineradoras têm se espalhado pela América Latina causando danos ecológicos e sociais. Segundo a CONAIE (Equador) para produzir 1 grama de ouro usam-se 8 mil litros de água e removem-se 250 toneladas de rocha. Uma mina pode consumir em uma hora a mesma quantidade de água que uma família camponesa gasta em 22 anos.

No Brasil projetos energéticos, como as hidrelétricas da Amazônia (Belo Monte, Santo Antonio, Jirau), de transporte, como a ferrovia que a China financiará e minerodutos como o projeto Rio-Minas tem impactado as populações locais, ribeirinhos, camponesas, quilombolas e indígenas. Encontram-se em discussão no Congresso a PEC 215 que se aprovada afetará os direitos territoriais de povos indígenas e comunidades tradicionais.

A Ferrovia Transcontinental (que irá passar pelo centro-oeste, Amazônia e Andes peruanos) foi anunciada oficialmente pelo governo Dilma (PT-PMDB) no último dia 09 de junho, como parte de um mega-projeto de privatizações da infraestrutura (segunda etapa do PIL, Programa de Investimento e Logística) que terá como valor total de “concessões” 194,4 bilhões. A construção da Ferrovia é fruto da aliança entre China, Peru e Brasil e irá beneficiar especialmente o mercado entre América do Sul e Ásia. O segundo maior mercado da soja brasileira é a China. Tudo indica mais um projeto que aprofundará a corrida do agronegócio brasileiro, consequentemente o conflitos agrários e ambientais.

No Uruguai o Governo da Frente Ampla, de Mujica, defendeu o projeto de Mineração de Aratirí, da empresa transnacional ZaminFerrous que propunha uma mina a céu aberto e transporte em Mineroduto. Os povos locais e os agricultores locais conseguiram evitar o projeto. Diversos povos em todo continente tem resistido ao avanço dos megaprojetos capitalistas.

Todos estes projetos têm como objetivo o desenvolvimento capitalista que significa a destruição de outros modos de vida e do ecossistema local em prol da acumulação de capital que se concentra nos países centrais. Os governos e empresas se aliam internacionalmente e avançam sobre os povos para lucrar. Assim, a resistência dos povos deve também ser internacionalista.

americalatina2Patriotas de todas as pátrias oprimidas!

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