VIA COMBATIVA | A Filosofia Bakuninista: dialética da ação e o materialismo sociológico

Para contribuir na formação política militante, estaremos relançando todas às sextas-feiras no site da Unipa os artigos de Via Combativa – uma revista de teoria política anarquista. Acompanhe!vc1b

UNIÃO POPULAR ANARQUISTA. A Filosofia Bakuninista: dialética da ação e o materialismo sociológico. Via Combativa, Brasil, Nº 01, p. 7-11, maio de 2009.


A Filosofia Bakuninista: dialética da ação e o materialismo sociológico

“Nós, revolucionários-anarquistas, defensores da instrução geral do povo, de sua emancipação e do mais amplo desenvolvimento da vida social e, por isso mesmo, inimigos do Estado e de toda gestão estatista, afirmamos, ao contrário dos metafísicos, positivistas, eruditos ou não, prostrados aos pés da deusa ciência, que a vida natural e social sempre precede o pensamento, que é apenas uma função, mas nunca o resultado”

Mikhail Bakunin

O revolucionário anarquista Mikhail Alexandrovitsch Bakunin nasceu em 1814 na cidade de Premukhimo, província russa de Twer, e faleceu em 1876 na cidade de Berna, Suíça. Oriundo de uma família da nobreza rural, Bakunin viveu numa Rússia absolutista, onde o povo era explorado pela aristocracia rural e pela burocracia czarista.

Sua biografia é marcada por intensa atividade política revolucionária, participando das mais importantes revoltas e organizações do proletariado do século XIX. É importante destacar que sua participação não foi secundária, mas sim central, influenciando, construindo e teorizando. Bakunin nos deixou um legado fundamental: sua teoria e sua ideologia revolucionárias.

Militância de Bakunin na Europa do século XIX

Militância de Bakunin na Europa do século XIX

Apesar de sua importância, a obra de Bakunin encontra-se fragmentada, esparsa, carecendo de uma sistematização (deixou vários de seus escritos incompletos). Sendo assim, o presente artigo tem por objetivo contribuir para a sistematização e a atualização da teoria revolucionária bakuninista. Para tanto começaremos com uma discussão histórica sobre as bases filosóficas e políticas do bakuninismo. Por fim, apresentaremos uma sistematização inicial de sua teoria, que compreende uma filosofia política e um método sociológico.

  1. As revoluções: Bakunin no contexto do século XIX

Podemos afirmar que Bakunin tem seus primeiros contatos com as filosofias e com as teorias contestatórias do seu tempo em 1834, quando em Moscou participou de importantes círculos de discussões filosóficas. Nestes círculos, teve acesso a debates sobre autores do romantismo e da filosofia alemã, do social ismo francês nascente e da questão dos povos eslavos. Os debates eram sobre os escritos dos mais influentes intelectuais de sua época. Identificamos, neste período, afiliações teóricas de Bakunin com a filosofia alemã, que tinha em Hegel seu maior expoente, e com o socialismo francês, a partir dos escritos de Saint-Simon. Continuando seus estudos de filosofia na Universidade de Berlim, já em 1840, aprofunda seu conhecimento sobre a dialética hegeliana, mas agora à luz da interpretação dos hegelianos de esquerda. [1]

O contato com os hegelianos de esquerda foi fundamental, pois Bakunin rompe com a mera especulação filosófica e parte para a prática política a partir da reflexão. Sua práxis política revolucionária começa na militância pan-eslavista, participando de movimentos revolucionários contra as bases das Monarquias Absolutistas e pela independência do “povo eslavo”. Durante essa intensa militância conheceu P.-J. Proudhon, que era um dos principais expoentes do socialismo francês, e Karl Marx, que também iniciava sua militância política.

É importante ressaltar que a Europa da primeira metade do século XIX estava sofrendo os efeitos transformadores das Revoluções Industrial e Francesa. A expansão das atividades industriais pela Europa provocou o enriquecimento da burguesia, forçou o êxodo rural e criou novas relações sociais de exploração das massas empobrecidas, agora transformadas num proletariado industrial. Entretanto, a economia agrícola entrou em crise (as antigas estruturas feudais em decadência eram insuficientes para acompanhar os novos tempos), gerando desabastecimento e aumentando o custo de vida nas cidades e a miséria no campo. Portanto, nas cidades, os trabalhadores eram os mais atingidos pela crise agrícola, enquanto os camponeses eram impelidos pela miséria e pela opressão à migrar para as cidades.

As influências da Revolução Francesa são tanto do período revolucionário (1789-1799), quanto da Era Napoleônica (1799-1815) e da reação do Congresso de Viena (1815). A instabilidade política se estendeu pelas décadas de 1820 e 1830. Observamos nesse período a deflagração de conflitos entre “forças político-liberais”, compostas por setores médios da população, ora por setores do exército e pela burguesia, defensores do liberalismo, e “forças político-conservadoras”, compostas pela aristocracia, pela hierarquia eclesiástica, pela alta burguesia e por oficiais do exército, defensores da restauração do Antigo Regime. Nesse contexto, o proletariado, progressivamente, se afasta da influência liberal e se aproxima do socialismo.

Inserindo-se nesse turbilhão de revoltas e revoluções, Bakunin se dedica à luta pela liberdade dos povos eslavos. É importante destacar que os povos eslavos foram durante séculos submetidos ao domínio de grandes impérios da Europa Oriental, como o Sacro Império Romano-Germânico e o Império Czarista Russo. Posteriormente, foram mantidos sobre o julgo austríaco e prussiano [2]. Portanto, ser pan-eslavista significava lutar contra a submissão e exploração, contra o antigo regime imperial e pela defesa da auto-determinação dos povos.

Em 1848, ano conhecido como a Primavera dos Povos por causa das inúmeras e quase simultâneas revoltas contra o despotismo monárquico em toda a Europa (Berlim, Viena, Paris, Veneza, Roma, Praga, Munique, Budapeste e Milão), Bakunin participou do Congresso Eslavo, em Praga, e da insurreição que o sucedera (a Insurreição de Pentecostes). No mesmo ano, participou da Revolução Proletária em Paris. No ano seguinte, participou de outra insurreição, desta vez em Dresden (Alemanha). Por sua intensa atuação revolucionária armada, foi caçado sob o rótulo de “terrorista”, sendo preso e condenado à morte em 1850. A sentença de morte foi convertida para trabalhos forçados, prisão perpétua e, finalmente, extradição para a Rússia. Em 1857, foi levado para a Sibéria, de onde fugiu em 1861, passando pelo Japão, pelos Estados Unidos e retornando à Europa. Em 1864, Bakunin reencontraria Proudhon, que veio a falecer semanas depois.

Retomando sua militância revolucionária, Mikhail Bakunin passa a defender a Revolução Universal, isto é, desenvolve a concepção de que:

“Hoje nenhuma revolução pode ser bem-sucedida em qualquer país se não for ao mesmo tempo uma revolução política e social. Todas as revoluções exclusivamente políticas – seja em defesa da independência nacional ou por mudanças internas, ou até pelo estabelecimento de uma república – que não objetive a imediata e real emancipação política e econômica do povo será uma falsa revolução. Seus objetivos não serão alcançados e sua conseqüência será reacionária. A Revolução deve ser feita não para, mas pelo povo e não pode nunca ser bem-sucedida se não envolver entusiasticamente todas as massas do povo, ou seja, no campo e nas cidades”. (Bakunin, Catecismo Nacional).

A própria questão eslava passa a se submeter à revolução proletária:

“A revolução, porém, não pode ser obra de um único povo; por natureza, esta revolução é internacional, o que significa dizer que os eslavos, que aspiram à sua liberdade, devem, em nome desta, unir suas aspirações e a organização de suas forças nacionais às aspirações e à organização das forças nacionais de outros países; o proletariado eslavo deve entrar em massa na Associação Internacional dos Trabalhadores”. (Bakunin, Estatismo e Anarquia, p. 74).

Pierre-Jospeh Proudhon - Bakunin buscou nele a idéia da anarquia e as teses acerca da relação entre federalismo e socialismo

Pierre-Jospeh Proudhon – Bakunin buscou nele a idéia da anarquia e as teses acerca da relação entre federalismo e socialismo

 Os biógrafos de Bakunin afirmam que, nesse período, ele abandonaria o republicanismo radical e se converteria num militante socialista revolucionário. Todavia, sabe-se que, posteriormente, Bakunin associou sua filiação socialista ao anarquismo de Proudhon:

“Cabet, Louis Blanc, fourieristas, saint-simonianos, todos tinham a paixão de doutrinar e organizar o futuro, todos foram mais ou menos autoritários. Mas eis que Proudhon apareceu: filho de um camponês, de fato e de instinto cem vezes mais revolucionário de que todos estes socialistas doutrinários e burgueses, ele se armou com uma crítica tão profunda e penetrante quanto impiedosa, para destruir todos estes sistemas. Opondo a liberdade à autoridade contra estes socialistas de Estado, proclamou-se ousadamente anarquista”. (Bakunin, Federalismo, socialismo e anti-teologismo, pp. 25 e 26).

Bakunin, neste sentido, dá continuidade e aprofundamento à obra de Proudhon a partir de dois pilares fundamentais: o socialismo e o federalismo. A concepção socialista proudhoniana é pautada pela identificação da propriedade privada capitalista como a origem das desigualdades econômicas, e por isso a revolução proletária deve abolir a propriedade privada.Ao mesmo tempo a centralização estatal e governamental é identificada com a propriedade privada e com a desigualdade social, e por isso o federalismo é considerado como base da igualdade política, pois se opõe à centralização do poder e garante a efetiva participação política das massas organizadas nos organismos de gestão da sociedade.

Essa é a principal fase da biografia de Bakunin, a década de 1860. Sua biografia insere-se, portanto, nas lutas do proletariado europeu daquele período, cujas principais experiências foram a organização da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) e o processo revolucionário da Comuna de Paris (1871) [3]. Podemos afirmar que, através da militância na Aliança, ele viria a desenvolver a sistematização da ideologia e da teoria revolucionárias anarquistas. Durante essa militância escreveu suas principais obras: “Federalismo, Socialismo e Anti-teologismo” (1867), “Considerações filosóficas sobre o fantasma divino, sobre e mundo real e sobre o homem” (1870), “O Império Knuto-Germânico e a Revolução Social” (1871), “Estatismo e Anarquia” (1873), e as cartas ao Jornal L’ Egalité (1872). A análise das duas primeiras obras citadas, percebidas no contexto político-social em que foram escritas, permite-nos apreender o significado do bakuninismo enquanto uma filosofia política.

  1. A construção da filosofia política Bakuninista

Considerando a percepção bakuninista de que as esferas da sociedade (econômica, política, ideológica e cultural) estão interligadas num sistema dialético de influência mútua, não poderíamos deixar de destacar as transformações ideológicas e científicas que marcaram o século XIX. O liberalismo e o individualismo burgueses, a filosofia hegeliana, o socialismo, o positivismo e o evolucionismo contribuíram decisivamente para a ruptura com as bases ideológicas do Antigo Regime. Portanto, num movimento dialético, alimentaram e foram alimentados pelas rupturas políticas e econômicas do século XIX.

A inserção de Bakunin nesse contexto de efervescência intelectual, de construções filosóficas, avanços da ciência e, acima de tudo, de rupturas ideológicas, pode ser identificada no seu texto Federalismo, Socialismo e Antiteologismo. Nela encontramos três pilares fundamentais da filosofia de Bakunin: a igualdade política (federalismo), a igualdade econômica (socialismo) e a teoria materialista (antiteologismo). Identificando estesaspectos – como os argumentos que se seguem pretendem provar –, podemos afirmar que a teoria bakuninista possui três filiações intelectuais e científicas: a filosofia alemã (Hegel, especialmente), o socialismo francês proudhonista e o positivismo científico.

No momento em que Bakunin escreve quase toda a Europa vivia ainda sob regimes monárquicos absolutistas, regimes estes que se fundamentavam e se legitimavam na “teoria do Direito Divino dos Reis”. Quando Bakunin escreve no livro acerca do “antiteologismo”, ele está, na verdade, rompendo com a teoria ideológica que legitimava o Estado. Portanto, o antiteologismo é um fundamento do “anti-estatismo”, e, conseqüentemente, do socialismo.

Ao desmontar a “teoria do Direito Divino dos Reis”, toda a concepção idealista teológica do mundo e da sociedade é destruída. Bakunin vai, então, recorrer ao positivismo de Augusto Comte e ao evolucionismo de Charles Darwin para negar a teoria criacionista [4]. Estendendo sua crítica às demais ideologias idealistas, afirma que as filosofias metafísicas que legitimam o Estado-burguês são atualizações do teologismo; segundo os pressupostos bakuninistas, o individualismo de Hobbes, Locke, Rousseau, que produziu ficções como o “estado de Natureza”, “o Contrato Social” e o “Leviatã”, baseadas em características supostamente essenciais e/ou inatas do homem (“bondade” ou “maldade”), são tão falsas quanto o “Direito Divino”.

A teoria hegeliana da evolução do “Espírito Humano” é igualmente metafísica para Bakunin, pois transfere a dinâmica do mundo social do homem para forças supra-materiais. Na verdade, segundo a tese materialista, o Estado é o resultado de relações político-sociais concretas, historicamente construídas. Utilizando-se da ciência política de Maquiavel, Bakunin afirma que o Estado é o crime, é a conquista pela guerra e não a “Divina Providência”, ou o “livre acordo entre os indivíduos”, menos ainda a “evolução do Espírito Humano”.

Se é verdade que Bakunin respalda sua teoria em Comte e em Darwin, também é verdade que seu materialismo apresenta novos elementos, pois considera que a matéria é constituída da unidade dialética entre o mundo natural e social.

“Tudo o que existe, os seres que constituem o conjunto indefinido do Universo, todas as coisas existentes no mundo, qualquer que seja sua natureza, sob o aspecto da qualidade como da quantidade, (…), exercem, sem o querer e sem mesmo poder pensar nisso, umas sobre as outras e cada uma sobre todas, seja imediatamente, seja por transição, uma ação e uma reação perpétuas que, combinando-se num único movimento, constituem o que chamamos de solidariedade, vida e causalidade universais”. (Id, p. 57).

De acordo com a perspectiva bakuninista, a variação, dada pela possibilidade permanente de combinações novas e diferentes entre os seres já existentes, possibilita exatamente a formação de novos “seres reais”. Sendo assim, a determinação é seguida pela indeterminação relativa, pela possibilidade de combinação de fatos, de ações e reações, engendrando novos produtos. A determinação é a base da realidade material, mas ela se aplica a elementos bem específicos. O que é determinado são as condições de surgimento e reprodução do mundo social (que são sempre as mesmas – os seres vivos sempre terão a necessidade de se nutrir de alguma fonte de energia e, uma vez que estão em vida, estão destinados a seguir seu ciclo de criação-destruição); os desenvolvimentos não são determinados. O desenvolvimento histórico real, porém, tanto no mundo natural quanto social, é indeterminado, aberto às novas combinações, resultando de multi-causalidades. Assim, não existem pré-determinações, causas unilaterais, características inatas que determinem a sociedade ou o homem, pois o determinante do ser é a ação; o que constrói os sistemas são as relações concretas; em suma, a vida social é o resultado de múltiplas interações. Nas palavras de Bakunin:

“as diferenças das raças, dos povos, e mesmo das classes e das famílias, são determinadas por causas geográficas, etnográficas, fisiológicas, econômicas (…), assim como por causas históricas, religiosas, filosóficas, jurídicas, políticas e sociais; e todas estas causas, combinando-se de uma maneira diferente para cada raça, nação e, freqüentemente, para cada província e comuna, para cada classe e família, dão, a cada uma, uma fisionomia à parte, isto é, um tipo fisiológico diferente, uma soma de predisposições e de capacidades particulares – independente da vontade dos indivíduos que as compõem e que são completamente seus produtos”. (Id, pp. 117-118).

Fica explícito que ao contrário do materialismo marxista, que tem por base a determinação em última instância da infra-estrutura econômica sobre a superestrutura jurídico-político-ideológica, o materialismo bakuninista pressupõe múltiplas determinações, multi-causalidades que se combinam numa interação dialética de ações e reações ininterruptas. Portanto, enquanto para o marxismo “o modo de produção da vida material determina o processo geral de vida social, política e espiritual” [5], o bakuninismo considera que “a ação e a reação incessantemente do todo sobre cada ponto e de cada ponto sobre o todo constituem a vida” (Id, p. 62). Trata-se de uma percepção de totalidade. Outro exemplo permite elucidar as diferenças entre o materialismo sociológico bakuninista do materialismo histórico marxista: a noção de classe social. O marxismo identifica as seguintes classes do “modo de produção” capitalista: “os proprietários de simples força de trabalho, os de capital e os de terra, cujas respectivas fontes de receita são o salário, o lucro e a renda fundiária (…)” (Marx, O capital, capítulo LII, tomo III). Portanto, a identificação e a definição das classes é econômica. Em Bakunin, a identificação e definição das classes sociais não se limita à economia, pois a classe burguesa constitui um “corpo político e social, economicamente separado da classe operária” (Bakunin, O socialismo libertário, p. 16). Fica nítido na perspectiva bakuninista a presença da visão de totalidade na diferenciação das classes e a multi-determinação das mesmas, no caso específico, de três aspectos determinantes: político, social e econômico.

Confrontando sua teoria social com seu projeto político, entende-se melhor a defesa incondicional da igualdade política e econômica nos textos políticos de Mikhail Bakunin: “Impossibilidade da liberdade política sem igualdade política. Impossibilidade desta, sem igualdade econômica e social” (Bakunin, O Programa da Fraternidade). É fácil a conclusão de que a teoria científica bakuninista, a visão da totalidade e a percepção da multi-determinação, encontra-se indissociável do projeto político da revolução social capaz de destruir o Estado e o Capital, e de construir uma sociedade socialista, isto é, um sociedade que garanta a igualdade política e econômica.

Resumidamente, o materialismo sociológico possui as seguintes características: 1) opõe-se a todas as formas de idealismo/teologismo; 2) tem por base o naturalismo como refutação do criacionismo; 3) entende a ação, a prática concreta, como determinante do ser; 4) pressupõe a multi-causalidade dos fenômenos; 5) compreende a diversidade da vida como resultado de um processo dialético e ininterrupto de ação e reação. Feitas tais considerações, resta caracteriza o materialismo sociológico de Bakunin enquanto um método de análise científica.

  1. O método científico: o materialismo Sociológico

Diante da incompetência da religião e da metafísica em compreender a complexidade desse movimento de multi-causalidade que determina a vida social, Bakunin propõe a construção de uma ciência racional para investigar e descobrir as leis que regem o desenvolvimento da sociedade, uma sociologia. Na verdade, como pretendemos demonstrar, Bakunin desenvolveu um método de investigação científica que estamos denominando materialismo sociológico.

Cabe ressaltar que seu projeto científico está diretamente relacionado com sua prática política, pois ao definir a ciência racional afirma: “A filosofia racional ou ciência universal não procede aristocraticamente, nem autoritariamente como a falecida metafísica. (…) A filosofia racional é uma ciência democrática. Organiza-se de baixo para cima livremente, e tem por fundamento único a experiência”. (Bakunin, Federalismo, socialismo e anti-teologismo, p. 44). Portanto, Bakunin defende a ciência, mas condena o cientificismo positivista, pois este transforma a ciência num instrumento autoritário. O bakuninismo não considera a ciência como portadora de “dogmas absolutos”, pois isso seria re-editar o teologismo. Bakunin enxerga com muita propriedade os limites da ciência:

“A idéia é sempre uma abstração e por isso mesmo, de alguma forma, uma negação da vida real. A ciência só pode compreender e dominar os fatos reais em seu sentido geral, em suas relações, em suas leis; numa palavra, o que é permanente em suas informações contínuas, mas jamais seu lado material, individual, por assim dizer, palpitante de realidade e de vida, e por isso mesmo, fugitivo e inapreensível. A ciência compreende o pensamento da realidade, não a realidade em si mesma; o pensamento da vida e não a vida”. (Bakunin, Manuscrito “Deus e o Estado”).

E não se trata apenas de uma crítica puramente acadêmica, pois Bakunin condena a perspectiva política do positivismo que transforma a ciência em ideologia, ou seja, os positivistas que entendem que a ciência tem um fim em si mesmo como se fosse uma divindade. Portanto, Mikhail Bakunin estabelece uma separação rígida entre a teoria anarquista e o positivismo:

“Nós, revolucionários-anarquistas, defensores da instrução geral do povo, de sua emancipação e do mais amplo desenvolvimento da vida social e, por isso mesmo, inimigos do Estado e de toda gestão estatista, afirmamos, ao contrário dos metafísicos, positivistas, eruditos ou não, prostrados aos pés da deusa ciência, que a vida natural e social sempre precede o pensamento, que é apenas uma função, mas nunca o resultado (…)”. (Bakunin, Estatismo e Anarquia, p. 167).

É munido dessa crítica ao cientificismo que Bakunin, nas páginas de sua obra Considerações filosóficas sobre o fantasma divino, sobre e mundo real e sobre o homem, explicita o método de sua sociologia.

O método bakuninista tem por base o materialismo sociológico e a dialética, tal qual expostos anteriormente, isto é, a concepção de que a ação determina o ser, da mesma forma que a vida é um processo de ação-reação permanente do todo sobre cada parte e de cada parte sobre o todo, possuindo multi-causalidades. Portanto, é sobre esse processo dinâmico e complexo que a investigação científica deve se debruçar, objetivando “descubrir, coordinar y comprender las propiedades, o los modos de acción o las leyes de todas las cosas existentes en el mundo real” (Bakunin, Considerações filosóficas).

Os elementos principais que compõem o método bakuninista podem ser resumidos em cinco características: 1) experimental – procede pela observação e verificação direta; 2) multifocal – procura a pluralidade de perspectivas acerca de um determinado tema; 3) comparativo – contrapõe, pela análise e síntese, os diferentes focos de análise; 4) crítico – nega as teses ou hipóteses pelo contraste destas com novas experiências; 5) compreensivo – estabelece as relações, direta e indiretas, entre efeitos e causas que compõem os modos de ação/transformação/reprodução, as regras pelas quais um fenômeno acontece e se repete.

Bakunin entende que o processo de investigação científica é baseado na noção de experiência coletiva,

“Pero el hombre no tiene outro medio para asegurarse de la realidade cierta de una cosa, de un fenómeno o de un hecho, que el de haberlos realmente encontrado, constatado, reconocido en su integridad propia, sin ninguna mezcla de fantasías, de supuestos y de adjudicaciones del espíritu humano. La experiencia se convierte, pues, en la base de la ciencia. No se trata aquí de la experiencia de un solo hombre. Ningún hombre, por inteligente, por curioso que sea, por felizmente dotado que esté, desde todos los puntos de vista, puede haberlo visto todo, encontrado todo, experimentado todo por sí propio. Si la ciencia de cada uno debiera l imi tarse a sus propias experiencias personales, habría tantas ciencias como hombres y toda ciencia moriría con cada hombre. No habría ciencia. La ciencia tiene, pues, por base la experiencia colectiva, no sólo de todos los hombres contemporáneos, sino también de todas las generaciones pasadas. Pero no admite ningún testimonio sin crítica. Antes de aceptar el testimonio, sea de un contemporáneo, sea de um hombre que no existe ya, por poco que me atenga a no equivocarme, debo inquirir, primeramente, sobre el carácter y la naturaleza, tanto como sobre el estado de espíritu de esse hombre, de su método”. (Id).

Diante da pluralidade de combinações, do movimento contínuo das ações e reações e da multi-causalidade dos fenômenos sociais, somente o acúmulo histórico e coletivo da investigação científica é capaz de traçar as respostas de nossas inquietações. Sendo assim o método bakuninista é pautado no pressuposto de que a realidade é uma totalidade material (compreendida aqui como o conjunto das ações e reações de todos os fatores reais, físico-químicos, biológicos e sociais), o que faz com que a sociedade seja o centro do processo de ação e reação incessante sobre a natureza, sobre os indivíduos que a compõem e sobre si mesma, dito de outra maneira, a sociedade é o motor da transformação do mundo material. O pressuposto de toda análise é a experiência concreta, sendo que a ação, a consciência, as idéias são, simultaneamente, produto e produtoras de novas experiências.

Este método é composto também por seus princípios ou elementos internos, que assumidos ou reconhecidos como base, podem e devem ser empregados para a análise da realidade social e histórica, para a confrontação com a “massa de experiências e acontecimentos” passados e presentes que constituem a própria sociedade. Desse modo, a sociedade e os homens são o resultado da interação da totalidade dos fatores sociais e históricos, em diferentes combinações numa perpétua série de ações e reações, por isso, pode-se afirmar que

“o homem não criou a sociedade, nasceu nela. Não nasceu livre, mas acorrentado, produto de um meio social particular criado por uma longa série de influências passadas, por desenvolvimentos e fatos históricos. Está marcado pela região, o clima, o tipo étnico, a classe a que pertence, às condições econômicas e políticas da vida social, e finalmente, pelo local, cidade ou aldeia, pela casa, pela família e vizinhança em que nasceu.” (Bakunin, 1976, p. 13).

A discussão aqui realizada nos permite concluir que o bakuninismo constitui uma teoria revolucionária, que compreende uma prática política, uma filosofia política e um método de investigação científica. Portanto, sendo a teoria dialeticamente ligada à ideologia/práxis revolucionária, uma das tarefas fundamentais dos revolucionários ao assumirem o bakuninismo como teoria, é a sua instrumentalização na interpretação e transformação revolucionária da sociedade.

___________

Notas:

1 – Os hegelianos de esquerda ou jovens hegelianos eram intérpretes de Hegel que defendiam uma nova sociedade que superasse aquela em que viviam. Entre eles estavam Marx, Bauer, Ruge, Feuerbach e Stirner.

2 – Os povos eslavos são originários da Rússia ocidental e a partir do século VII ocuparam regiões da Germânia e se estenderam pelos Balcãs. Dividem-se em três grandes grupos tribais: os orientais (russos, brancos e ucranianos), os ocidentais (poloneses, pomerânios, sorabos, tchecos e eslovacos) e os meridionais (eslovênios, croatas, sérvios e búlgaros). Seu posicionamento político significava inserção num movimento republicano anti-colonialista.

3– Sobre sua militância na AIT e sobre sua interpretação da Comuna de Paris veja os artigos “Uma Teoria do Anti-Estado: A Comuna de Paris e a Organização Política Socialista” e “Bakuninismo na Primeira Internacional dos Trabalhadores”, ambos nesta mesma edição.

4– É importante lembrar que Bakunin não defende o “darwinismo social”, mesmo porque essa teoria burguesa só foi criada no final do século XIX.

5– Marx, Karl. Prefácio – Para a crítica da economia política. in: Marx, Os pensadores, São Paulo, Nova Cultural, 1996, p. 52.

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