VIA COMBATIVA | O Bakuninismo e a Teoria da Organização Política

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UNIÃO POPULAR ANARQUISTA. O Bakuninismo e a Teoria da Organização Política. Via Combativa, Brasil, Nº 01, p. 19-24, maio de 2009.


O Bakuninismo e a Teoria da Organização Política

 

“Trair a Aliança é trair a Revolução.”

Mikhail Bakunin

A historiografia sobre o bakuninismo é extremamente deficiente e precária. A maior parte das narrativas foi produzida a partir das perspectivas comunista (baseada na denúncia de Paul Lafargue e Frederick Engels nos anos 1870), liberal ou anarco-comunista, que, por razões diferentes, pecam pela falta de objetividade e reproduziram apenas impressões fragmentárias e “estigmas” acerca do pensamento e prática bakuninista.

Daniel Guérin, que foi ligado aos “comunistas libertários” franceses, por exemplo, reproduz a seguinte afirmação acerca de Bakunin: “Entretanto, parece que a organização projetada permaneceu por um longo período no papel. Como observou Arthur Lehning, estes programas e estatutos traduzem melhor a evolução das idéias de Bakunin que o funcionamento de uma organização [1]”. Ou então, como E. H. Carr, que indica o “surgimento da Aliança em 1867 e seu desaparecimento em 1869” (Carr, 1972, p.373). Estes são exemplos dos equívocos historiográficos cometidos. Além disso, existem algumas confusões acerca do “caráter” da organização bakuninista [2].

Eugene Varlin - membro da Aliança e um dos principais líderes da Comuna de Paris

Eugene Varlin – membro da Aliança e um dos principais líderes da Comuna de Paris

 É interessante que os estudos de Max Netlau, muito conhecidos por Guerin, versam exatamente sobre a “Aliança” na Itália, na Espanha e em outros países da Europa, nos quais, tomando por base uma vasta documentação, demonstra onde e como esta organização anarquista atuou [3]. A cisão na Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) e a documentação levantada por Paul Lafargue também comprovam a existência da organização anarquista denominada Aliança. O que fica obscuro, mas pretendemos esclarecer é que tipo de organização era a “Aliança”, que programa e que estratégia defendia.

A falta de fontes históricas e de pesquisas que não sejam comprometidas em seus métodos e resultados por motivações ideológicas, dificulta esta análise histórica. Faremos aqui o possível para contornar esta situação de acordo com as fontes disponíveis. Mas acrescente-se que a confusão e o desconhecimento são maiores em razão da falta de rigor histórico e sociológico no tratamento das fontes disponíveis do que pela simples escassez destas. Assim, tentaremos remontar a história da organização anarquista criada por iniciativa de Bakunin e determinar suas bases teóricas.

Para entendermos o tipo de organização política e a concepção de revolução defendida por Mikhail Bakunin, temos de levar em consideração sua teoria geral da realidade, sua filosofia política e sua visão da economia, assim como o contexto histórico dos anos 1860 [4].

O contexto histórico do surgimento do anarquismo e da sua teoria da organização política é o da consolidação dos Estados-Nacionais burgueses (unificação da Itália e Alemanha), do início da transição do capitalismo concorrencial para o capitalismo monopolista e das revoluções “republicano-democráticas” (1848-1870), nas quais se insere como desdobramento socialista, a Comuna de Paris (1871).

A “Gênese” da Aliança

A história da organização anarquista está associada à confluência de três fatores: 1) a existência de uma tendência teórica anarquista, inspirada nas idéias de Proudhon, no movimento operário francês, principal centro do movimento na Europa até 1860; 2) as dissidências “socialistas” nas tendências republicanas, especialmente na Itália, durante as guerras de unificação; 3) as guerras nacionais e regionais de unificação, contra as monarquias, que desestabilizavam a Europa [5] , o que permite dizer que existia em diversos países da Europa uma situação pré-revolucionária; 4) a ação política de Mikhail Bakunin depois de sua fuga da Sibéria em 1861, que, operando sobre estas condições objetivas, tentou traçar uma teoria, uma estratégia e um programa que deveriam ser realizados por uma organização revolucionária.

Bakunin e alguns dos “aliados”

Bakunin e alguns dos “aliados”

 Bakunin se instalou na Itália em 1864, na cidade de Florença, e, a partir dali, contatou Garibaldi e alguns revolucionários nacionalistas italianos (ver Carr, 1972, p. 329). Neste seu período na Itália, ele desenvolveu um profundo debate com Mazzini, um dos líderes do movimento nacionalista republicano (Unidade de Ação Radical), sendo que alguns dos militantes que se uniriam na organização secreta anarquista seriam dissidentes do republicanismo italiano, como GiusepeFanelli, que ficou conhecido como fundador da Internacional na Espanha. Bakunin visitaria a Inglaterra, França, Suécia, Polônia, Itália (onde se estabeleceria) – e deste trabalho de visitas e através das cartas e correspondências constituiria uma rede de militantes, operários socialistas e republicanos radicais dissidentes que seriam a base da formação da sua organização [6].

Esta organização seria fundada em 1864 com o nome de “Fraternidade Internacional” ou “Sociedade Internacional Revolucionária”, e atuaria em dois campos: o do republicanismo radical europeu, através da participação nos Congressos da “Liga da Paz e da Liberdade” (1867 e 1868), e no movimento proletário, que, por questões teóricas e ideológicas, se constituía no seu principal espaço de atuação (daí a adesão à AIT em 1867-68). As bases da Fraternidade são os textos “Programa da Fraternidade Internacional”, “Catecismo Nacional” e “Catecismo Revolucionário” (1866) [7], que formulam os princípios ideológicos, programáticos e estratégicos da organização anarquista.

Por ocasião do II Congresso da Liga da Paz e da Liberdade, Mikhail Bakunin apresentou o texto “Federalismo, Socialismo e Anti-teologismo”, que se apresenta como tese de aprofundamento teórico dos princípios organizativos, programáticos, etc, já elaborados de forma sumária, nos “Catecismos Revolucionários”. É o momento em que se funda então a “Aliança da Democracia Socialista”, organização pública, que pretendia aderir à Internacional, como sua seção [8]. Esta organização se dissolveria em 1869, depois que o Conselho Geral recusou a forma de sua adesão, e suas seções se transformariam em seções da AIT.

Marx e Engels - combateram a Aliança por diferenças de estratégia e teoria política

Marx e Engels – combateram a Aliança por diferenças de estratégia e teoria política

Max Netlau, ao analisar alguns manuscritos de Bakunin, afirma o seguinte: “… a Aliança é chamada de ‘Aliança dos Socialistas Revolucionários’ que existe desde 1864, é verdade, mas que começou a estabelecer-se na Internacional somente depois de 1868, uma passagem que nos dá a data autêntica da origem da sociedade secreta de Bakunin, o ano de 1864, quando se estabeleceu em Florença…” (Netlau, 1977, p. 114).

Ao que parece, podemos traçar a evolução da organização anarquista da seguinte maneira: em 1864, é fundada a Fraternidade Internacional na Itália, com socialistas e republicanos dissidentes, ex-seguidores de Mazzini; esta organização intervém em 1867 no II Congresso da Paz e da Liberdade e o grupo que rompe com o Congresso adere à AIT, fundando a “Aliança da Democracia Socialista” (organização pública, com caráter de fundação de estudos), que depois se ramifica na França e Espanha até 1869 (quando é dissolvida). A Fraternidade Internacional se mantém e em 1869 passa por um processo de depuração, surgindo logo depois a “Aliança dos Socialistas Revolucionários” (organização secreta), que, pelo que M. Netlau indica, foi o nome assumido pela Fraternidade Internacional depois de 1869.

Assim sendo, podemos dizer que ficam superados os equívocos acerca da organização anarquista em dois aspectos: 1º) não se pode questionar a existência de tal organização, pois a documentação e os fatos históricos permitem ver uma coordenação sistemática de uma rede de militantes na Europa; 2º) esta organização é mencionada nos documentos por diferentes nomes num período de 8-9 anos, o que explica em parte, a confusão quanto à sua origem e trajetória. Mas, na realidade, ela se forma em 1864 e em 1867 é formada a Aliança (pública), que não deve ser confundida com a organização política anarquista [9].

As bases da organização: teoria e programa.

Os três documentos mencionados acima (o Programa da Fraternidade Internacional, o Catecismo Nacional e o Catecismo Revolucionário) determinam com clareza as bases da organização anarquista e de como se desenvolveu sua experiência prática. Constituem uma totalidade em que se afirma uma teoria da organização política, abrangendo tanto os princípios organizativos, quanto os princípios teórico-ideológicos, assim como os princípios estratégicos e os princípios programáticos. Este conjunto, conformando uma totalidade, delineia uma concepção clara e determinada de Revolução e de seu processo.

Estes princípios seriam desenvolvidos numa base teórica no livro “Federalismo, Socialismo e Anti-teologismo” (1867), que se apresenta como sistematização teórica do programa da “Aliança” (dos Catecismos Nacionais, e que receberia seu complemento no desenvolvimento da filosofia-epistemologia e do método científico no texto “Considerações Filosóficas sobre o Fantasma Divino, sobre o Mundo Real e sobre o Homem”. Não podemos, então, esquecer estes desdobramentos teóricos e práticos: não apenas a Aliança realizaria um trabalho prático no movimento operário, como também um trabalho teórico.

Podemos indicar que tais documentos, em diversos tópicos, reúnem diferentes tipos de princípios: ideológicos; teóricos; organizativos, programáticos e estratégicos. Entendemos os princípios ideológicos como aqueles que expressam os interesses e aspirações do grupo e sua relação orgânica com a classe social com que se vinculam; os princípios teóricos como sendo as bases intelectuais e cognitivas que orientam as teses fundamentais acerca da sociedade e da realidade em geral (e que dão razão para a existência da organização e que subscrevem, do ponto de vista cientifico, os seus interesses gerais); os princípios programáticos como os objetivos gerais permanentes, os interesses que a organização pretende representar e atender, através da sua ação; os princípios estratégicos como os meios concretos postulados para realizar os objetivos; e os princípios organizativos como as regras que regulam a ação e a estrutura de funcionamento da organização política. Todos os princípios têm caráter permanente, ou seja, são bases fixas, que não devem ser alteradas para que a organização exista enquanto tal [10].

Princípios Ideológicos e Teóricos

O documento “Fraternidade Internacional” expressa os valores ou ideais básicos, em termos da afirmação dos princípios da liberdade e da igualdade (“a liberdade na igualdade econômica, social e política, é a justiça”). Os valores éticos da liberdade e da igualdade seriam traduzidos numa concepção teórica. A defesa da liberdade e igualdade marcaria, em termos ético-ideológicos, as bases da representação de interesses, quando o conceito de liberdade fosse aplicado à realidade e à práxis social.

No sentido político-teórico, tal tradução se expressa: 1) na defesa do federalismo e do anti-estatismo, como forma de organização política e de governo e como concepção de sociedade; 2) na defesa do direito de auto-determinação dos povos e direito à alteridade; 3) no internacionalismo; 4) na defesa do socialismo e; 5) na adoção da teoria do valor trabalho e da categoria “trabalho” como base dos direitos sociais e organização política.

Um dos itens, abordando as exigências para uma possível adesão à Fraternidade, afirma:

“É preciso que seja revolucionário. Ele deve compreender que uma transformação tão completa e radical da sociedade, devendo necessariamente determinar a ruína de todos os privilégios, de todos os monopólios, de todos os poderes constituídos, não poderá naturalmente efetuar-se por meios pacíficos; que, pela mesma razão, terá contra ela todos os poderosos, todos os ricos, e por ela, em todos os países, apenas o povo, assim como esta parte inteligente e nobre da juventude que, embora pertencendo por nascimento às classes privilegiadas, por suas convicções generosas e por suas ardentes inspirações, abrace a causa do povo”. (Bakunin, 1866, Programa da Fraternidade).

A análise da realidade social leva à afirmação do caráter revolucionário, da revolução, da luta de classes (pobres X ricos) e da organização, pois somente estas garantem a realização da justiça (ou da liberdade e da igualdade), que, na sociedade, consolidar-se-iam na formação de uma economia socialista e da federação e/ou do auto-governo. No texto Catecismo Nacional se afirmam os “pressupostos obrigatórios” que deveriam ser observados para todos os países: 1) a impossibilidade da vitória de uma revolução nacional isolada; 2) a necessidade de um programa comum, que satisfaça as necessidades de todas as nações. Assim, a organização política deveria se estabelecer, necessariamente, sobre um programa comum.

Devemos considerar que as fronteiras entre os princípios ideológicos e teóricos não são rígidas; a realização dos ideais da liberdade e igualdade, dependem da sua formulação teórica fundada no materialismo, na teoria do valor trabalho e na teoria do auto-governo ou federalismo. Desta maneira, o conceito de liberdade não é um conceito genérico, está definido pela teoria geral da sociedade na qual se desdobra.

Princípios Organizativos

A estrutura e as regras organizativas assumidas pelo Programa da Fraternidade indicam o seguinte: 1) a organização política deve ser composta por uma dupla estrutura, a organização internacional e a organização nacional, sendo que “a direção cabe à família internacional”; 2) define os elementos subjetivos necessários ou perfil do militante; 3) que a organização deve combinar dialeticamente a centralização [11] (construção da unidade da luta revolucionária, de baixo para cima) e a localização (descentralização, ou distribuição das forças revolucionárias por diferentes pontos da sociedade e território) [12]:

“Assim, centralizada pela idéia e pela identidade de um programa comum a todos os países; centralizada por uma organização secreta que unirá não apenas todas as partes de um país, mas muitos, senão todos os países, em um único plano de ação; centralizada ainda pela simultaneidade dos movimentos revolucionários no meio rural e urbano, a revolução deverá adquirir o caráter local no sentido de que não deverá começar por uma grande concentração de todas as forças revolucionárias de um país em um único ponto; nem adquirir jamais o caráter romanesco e burguês de uma expedição quase revolucionária, mas, surgindo ao mesmo tempo em todos os pontos de um país, terá o caráter de uma verdadeira revolução popular na qual tomarão igualmente parte mulheres, velhos, crianças e que, por isso mesmo, será invencível”. (Bakunin, 1866, Catecismo Nacional).

Além disso, em razão das características da atividade da organização: 1) os revolucionários devem se organizar de forma combinada, e não excludente, em “associações públicas e secretas” com o objetivo de ampliar o campo revolucionário e de preparar um movimento simultâneo; 2) em razão do caráter de suas atividades, devem adotar uma “forte disciplina revolucionária”.

Assim, a organização política deve ser estruturada sobre estas bases organizativas, tendo como papel a preparação (iniciação-direção) da revolução, e deve estar coordenada sobre uma organização internacional que dirige as organizações nacionais, estabelecida sobre uma disciplina revolucionária e um programa comum. É sobre estas bases que se colocam os objetivos programáticos e a estratégia para sua realização.

Princípios Programáticos e Estratégicos.

O programa e a estratégia bakuninista estão desenvolvidos, fundamentalmente, nos “Catecismos”, e são extremamente elaborados, no compreendidos: o programa delineado é um programa revolucionário, um “programa máximo”, que supõe a realização de uma revolução e que se apresenta, portanto, como uma série de medidas para a situação pós-revolucionária.

Sendo assim, podemos diferenciar as bases programáticas em três tipos: econômicas, políticas e sociais, profundamente inter-relacionadas. As medidas políticas são: 1) destruição do Estado (centralista, burocrático) e de suas instituições (universidades, bancos, igrejas); 2) abolição da Monarquia, estabelecimento da República e laicização das instituições políticas; 3) instituição da organização federalista, com funcionários eleitos pelo povo, na base do sufrágio universal. Depois do processo de descentralização, na primeira fase da situação revolucionária, a revolução deverá assumir um caráter federalista, tendo as comunas revolucionárias como unidades-base, “estabelecendo uma administração e tribunais revolucionários”, também baseados no sufrágio universal e na responsabilidade (imperatividade/revogabilidade dos mandatos); 4) federalização das comunas (ou sua centralização, de baixo para cima), pois isoladas as comunas serão derrotadas, formando um pacto federal, um governo e uma assembléia ou parlamento revolucionário. Segundo os termos do texto, “a ordem e a unidade renascerão como produtos da liberdade revolucionária”; 5) direito de secessão (estes pontos estão indicados no Catecismo Nacional; no Catecismo Revolucionário, estes pontos ganham uma elaboração mais detalhada, a organização política); 6) organização política com base na comuna, representada pela “maioria dos votos dos seus habitantes”. Ela tem o direito de criar sua carta ou constituição, mas esta deve estar ajustada à carta e organização política da federação e seu governo (assim como os departamentos ou províncias); 7) estabelecimento, pelo parlamento e pelo governo provincial e nacional (unicameral ou bicameral), dos pontos obrigatórios a serem seguidos por toda a organização política (comuna, província e nação); 8) deliberação, pelo parlamento e governo nacional, sobre a formação ou não de um exército, sempre por tempo determinado; 8) preparação de todo cidadão para que venha a ser um cidadão-soldado, formado para a guerra [13].

Um pressuposto dos Catecismos é o de que a organização política da sociedade exige uma organização econômica que lhe sirva de base. Neste sentido, colocam-se como as primeiras das medidas econômicas: 1) coletivização das terras, mas com a posse ou o produto destas pertencendo exclusivamente aos que nela trabalham; 2) instituição da base dos direitos políticos através do trabalho e sanção destes direitos aos possíveis segmentos sociais não-trabalhadores; 3) coletivização dos meios de produção, que pertencerão diretamente aos trabalhadores [14]; 4) sendo o trabalho a base dos direitos políticos, supressão da hierarquia entre “trabalho intelectual e trabalho manual”, através da exigência do revezamento entre as atividades produtivas e de direção-gestão (da economia), assim como da igualdade de rendimentos.

As principais medidas sociais dos “Catecismos” visam garantir: 1) liberdade religiosa; 2) abolição das classes; 3) direito à educação pública integral e à proteção social, financiada e garantida pela sociedade; 4) liberdade de ir e vir, liberdade de pensamento, liberdade de propaganda e de organização; 5) igualdade de direitos entre homens e mulheres; 6) abolição das penas degradantes e cruéis, das punições corporais e da pena de morte.

Os “Catecismos” estabelecem também a estratégia revolucionária, quer dizer, os meios práticos que definem o conceito de revolução que deve ser adotado. Em primeiro lugar, a afirmação da Revolução Social entendida enquanto um processo de guerra revolucionária. Neste sentido, o objetivo da revolução é: 1) resolver a questão social (contradição capital/trabalho); 2) ter o caráter de uma “Revolução Social” (que visa a imediata libertação econômica e social da classe trabalhadora, e não somente a mudança de regime político); 3) articular os trabalhadores do campo e da cidade; 4) “a internacionalização, numa guerra mundial de libertação”, como desdobramento necessário da guerra revolucionária na qual o “mundo se separará em dois campos opostos” e da qual deverá resultar uma “guerra de extermínio sem piedade e sem trégua, contrária à política hipócrita de não intervenção” [15] .

Conclusão

Uma apreciação crítica da história do anarquismo ou bakuninismo, enquanto experiência coletiva orientada por uma ideologia/teoria, deve indicar que, na realidade, constituiu-se num fenômeno associado a uma conjuntura histórica particular: a do surgimento do movimento proletário, das guerras de unificação nacionais, das lutas republicanas, do desenvolvimento do capitalismo monopolista, do surgimento da Primeira Internacional, e, finalmente, da contra-revolução internacional (depois da derrota da Comuna de Paris). Os documentos aqui analisados, assim como o pensamento de Bakunin e o conceito de anarquia, devem ser compreendidos em seu significado, dentro do seu devido contexto social e histórico.

Podemos dizer que, comparado com o “Manifesto Comunista” de Marx e Engels, os “Catecismos” apresentam duas características: 1º) apresentam uma formulação teórica menos direcionada para a análise crítica do capitalismo, e mais preocupada com a definição das bases programáticas da sociedade socialista. Por outro lado, a teoria de Marx e Engels estava muito mais elaborada que a de Bakunin, tendo um caráter mais complexo e mais aplicado, do que a deste último. Todavia, isto não impediu que Bakunin determinasse um plano nítido com orientações que a história comprovariam que seriam corretas. Neste sentido, a densidade teórica do Manifesto Comunista, é contrabalanceada pela maior precisão programática dos Catecismos, principalmente no que tange à organização política; o Manifesto Comunista é de 1848, ou seja, cerca de vinte anos antes, o que mostra que a estruturação dos grupos comunistas se deram muito antes da organização anarquista, o que explica, em parte, o êxito relativo da reprodução desta corrente. Mas a mesma instabilidade encontrada na organização anarquista se encontrou na Liga dos Comunistas, que teve também uma existência precária e veio a se dissolver.

Um outro aspecto fundamental é a compreensão da situação pré-revolucionária que caracterizava a Europa no início da década de 1860: as guerras civis e nacionais traziam as massas para a arena da ação política, governos eram derrubados, regimes políticos monárquicos ameaçados e o movimento de massas estava em ascensão. Sem levarmos em consideração esta situação, não entendemos as orientações práticas de organização anarquista, os “catecismos” e suas preocupações; nem o porquê da afirmação da necessidade da organização política que combinasse a ação secreta e pública, nem o papel da “Aliança” e da “Internacional”.

Neste sentido, demonstramos que a Aliança se desenvolveu e que ela teve uma influência importante na Internacional (especialmente na Espanha e na Itália). Mas como ela se dissolveu? As informações acerca desse processo são precárias. O que sabemos (ver Netlau, 1977) é que depois da morte de Bakunin as seções nacionais da Aliança foram atravessadas por conflitos internos, como foi o caso da Espanha, em que se dividiu a organização em pró-bakuninistas e anti-bakuninistas (estes liderados por Anselmo Lourenço). Depois daí, até a dissolução e a mudança de orientação desta organização, as fontes de que dispomos não nos permitem dizer muito.

Na realidade, as situações pré-revolucionárias, revolucionárias, e de maneira geral as guerras civis, colocam em evidência contextos em que as organizações políticas revolucionárias têm uma duração curta. Podemos comparar o contexto em que a “Aliança” atuou na Europa do século XIX, com o da guerra civil revolucionária no Brasil (1967-1973). Muitas organizações políticas surgiram e, devido ao seu caráter – guerrilheiro, numa guerra aberta contra a Ditadura –, enfrentaram uma luta de vida ou morte. Organizações como a ALN (Ação Libertadora Nacional) e a VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) tiveram uma curta existência (seis anos em média), o que não significa que não tenham influenciado o rumo da história brasileira. Mas o legado político e teórico destas organizações foi praticamente apagado, não tiveram continuidade, já que muitos dos seus ex-membros romperam com a linha política revolucionária e se tornaram ardorosos contra-revolucionários [16]. Um processo parecido se verificou com a organização anarquista e o bakuninismo. A situação histórica selou sua derrota político-militar; suas contradições internas decretaram o surgimento do revisionismo, liderado por ex-membros da organização.

A tarefa de hoje é resgatar a teoria da organização política de Bakunin, desenvolver seus princípios teóricos, ideológicos, programáticos e estratégicos e aplicá-los à transformação da realidade brasileira e à luta de classes internacional. Esta é a tarefa de todos aqueles que almejam uma Revolução Social.

______

Notas:

1 Extraído do original francês “NiDieuniMaítre (Anthologie de l’Anarchisme)”, de Daniel Guérin.

2 Ver “Socialismo e Liberdade”, Introdução, por Coletivo Editorial Luta Libertária, em que se afirma que Bakunin “defendia uma organização exclusivamente secreta” por princípio, o que dá a base de uma crítica equivocada de seu pensamento pelos autores do prefácio.

3 Ver “La Alianza e la Internacional enEspaña”, 1977.

4 Para analisar este contexto basta ver o texto “Anarquismo e Comunismo na Primeira Internacional”. Para compreender o pensamento teórico de Bakunin, ver “A Filosofia Bakuninista”.

5 Na Rússia em 1861-62, colocou-se o problema da “emancipação dos servos”, surgiram agitações estudantis e foi formada a organização Terra e Liberdade; na Itália, ocorreu uma importante insurreição camponesa em 1860 e diversos levantes insurrecionais locais (ver Carr 1972 e Efimov, 1986).

6 Além do italiano G. Fanelli, é importante mencionar o francês Eugene Varlin, que se tornaria uma importante liderança da Comuna de Paris e seu mártir. A correspondência de Bakunin revela que Varlin seria o principal bakuninista na França, e que seria ele o responsável por articular a adesão dos “proudhonistas de esquerda” com a Aliança, através da AIT.

7 Ver Max Netlau, “La Anarquía Através de Los Tiempos”: “Él, Bakunin, consideraba abortados hacia fines de 1863 losmovimientos nacionalistas, es decir, llegadosentonces bajo elcontrol de loshombres de Estado, de Francia, de Prusia, Rusia, elPiemonte, y pusosuesperanzaenlosucesivoenlosmovimientossociales que renacían. Viendoladesorientación de lasfuerzas democráticas y socialistas, creía obrar delmejor modo obrando sobre ellas por medio de militantes ocultos, que sabrían dirigir y coordinar tales fuerzas y que ellosmismosharíannacer e inspirarían grupos y movimientos más conscientes. Los años 1864 (cuandohacesu segundo viaje a Suecia y pasala última vez por Londres y París) y 1865 (cuandova desde Florencia a vivir a Nápoles y sus alrededores, hasta agosto de 1867), pasanenesosesfuerzosinevitablementepoco esclarecidos. Sabemos unpoco de suesfuerzoenFlorencia y conocemossu tentativa de proponer sus ideas a lamasoneríaenItalia, a la que pertenecía. Haytambién fragmentos de manuscritos, de 1865, lasprimerasredacciones conservadas de sus ideas, que podría publicar, si hubiese una posibilidad material seria para tal publicación. Estamos, enfin, puestosunpoco al corrientes de sus planes por su carta a Herzen, del 19 de julio de 1866, por suresumen histórico enun libro ruso de 1873 y por el programa y los estatutos mismos, in extenso, de lasociedad internacional revolucionaria, redactadosen 1866, enmarzo, aproximadamente, que hehechoconocer desde 1898 y entraducciónalemanacasi completa en 1924. EnlasWerke (Berlín, 1924, vol. III, págs. 8-61) , y en mi biografía de 1898, págs. 209-233, se encuentranesos textos – una exposición completa de supensamiento socialista y revolucionario de entonces, mientras que los fragmentos masónicos (es decir, destinados a ser propuestos a losfrancmasones) , contienen sobre todo supensamiento filosófico, la crítica religiosa. Tenemostambiénlaaplicación más restringida de sus ideas y proyectosenlasimpresionesclandestinadas para laorganización italiana de esasociedad internacional, el Programa dellaRivoluzionedemocratico-sociale italiana y los estatutos de laSocietá dei LegionaridellaRivoluzionesociale italiana (de 1866) y lashojas clandestinas de actualidad, La Situazione italiana, de octubre de 1866, y una segunda hoja, La Situazione, delotoño de 1868. Enfin, cartas y esbozos de cartas de 1866 y 1867 y otrosmaterialesrecogidosmuestranunpoco de la vida íntima de esasociedad internacional que se llama más frecuentementelaFraternidad internacional”.

8 “A minoria socialista da Liga da Paz e Liberdade tendo separado-se daquela Liga como resultado voto majoritário do Congresso de Berna, a maioria formalmente constituída oposta ao princípio fundamental de todas as associações de trabalhadores – o da igualitarização econômica e social de todas as classes e indivíduos – tem por essa razão aderido aos princípios proclamados pelos congressos dos trabalhadores realizados em Genebra, Lausana e Bruxelas. Vários membros desta minoria, pertencendo a várias nações, nos sugeriram formar uma nova Aliança Internacional da Democracia Socialista, estabelecida completamente dentro da grande Associação Internacional dos Trabalhadores, mas tendo uma missão especial de estudar questões políticas e filosóficas na base do grande princípio de igualdade universal e genuína de todos os seres humanos sobre a terra “. Ou seja, esta organização pretendia integrar os dissidentes do republicanismo, arrastados pela política de entrismo da Fraternidade na Liga da Paz e Liberdade, para a Internacional. E foi o que aconteceu.

9 O texto de Frederich Engels, “Os Bakuninistas em Ação” (1873), indica dois fatores: a “Aliança” secreta saiu vitoriosa na Espanha e levou a maioria dos operários da seção da Internacional; esta “Aliança”, em 1873, organizou uma greve geral como preparação de um levante revolucionário. No texto de Engels este processo ganha contornos de caricatura, mas é suficiente para indicar, exatamente por ser um texto de combate, a estrutura clandestina da “Aliança”.

10 A idéia de “catecismo” é, possivelmente, uma analogia empregada a partir da religião e da idéia de um catecismo positivista. Significa (katechismós) instrução, sob forma de “perguntas e respostas”; doutrina elementar que serve de base para uma religião ou ciência. Ou seja, o “catecismo revolucionário” são os princípios básicos e imutáveis da organização e do movimento revolucionário, segundo Bakunin.

11 Entendendo-se por isso a existência de uma organização revolucionária e um programa que centralize o processo e dispersão das forças revolucionárias pelo território, para abranger efetivamente as massas.

12 Estes elementos estão presentes especialmente no “catecismo nacional”.

13 Um documento, que não podemos determinar se é um manuscrito ou uma publicação, datado de 1868, é uma reformulação do Programa da Fraternidade, em que aparecem então alguns elementos: 1) é citada a expressão anarquia pela primeira vez, como conteúdo ideológico do programa; 2) a expropriação e eliminação da propriedade privada capitalista são incorporadas de maneira explícitas no programa; 3) no que tange à organização política, é indicado que o processo federativo exige um processo de delegação revolucionária baseada em mandatos imperativos e revogáveis; 4) é afirmado o caráter de “minoria” (ou organização de quadros) da organização política, indicando que esta deve ser o “estado-maior” da revolução enquanto que o “exército é povo”.

14 “… o capital e os instrumentos de trabalho se tornarão propriedade dos que os utilizarem para a produção de riquezas pelo seu próprio trabalho” (Catecismo Nacional).

15 Neste sentido, esta posição estratégica antecipa e responde a um debate central do movimento revolucionário do século XX acerca da “teoria da convivência pacífica” (com o capitalismo) e do “socialismo num só país” (tese de Stalin e política oficial da URSS). A política internacional da revolução social não comporta a convivência pacífica.

16 Aluisio Nunes Ferreira, José Dirceu, dentre outros, ilustram a juventude burguesa que passou pelas fileiras do movimento revolucionário, mas que explicitaram depois sua face de oportunistas democrata-burgueses e contra-revolucionários.

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