VIA COMBATIVA | Plataformismo X Sintetismo: Da crise do anarco-comunismo ao resgate do bakuninismo

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UNIÃO POPULAR ANARQUISTA. Plataformismo X Sintetismo: Da crise do anarco-comunismo ao resgate do bakuninismo. Via Combativa, Brasil, Nº 02, p. 4-11, novembro de 2011.


Plataformismo X Sintetismo:

Da crise do anarco-comunismo ao resgate do bakuninismo

 

“Com mais de vinte anos de experiência e atividade revolucionária, vinte anos de esforços nas fileiras anarquistas, e de esforços que encontraram-se com nada além das falhas do anarquismo como movimento organizado; tudo isto tem nos convencido da necessidade de um partido anarquista originado numa teoria, política e tática homogêneas”.

Arshinov, 1927

 

O Anarquismo e o “Grande Abalo”: a crítica “plataformista” e seu significado histórico.

Em junho de 1926, a publicação na França de um documento intitulado “A Plataforma de Organização dos Comunistas Libertários” (assinado pelo grupo de exilados russos Dielo Trouda), causou um profundo impacto e mal estar entre anarco-comunistas, anarco-sindicalistas e individualistas, especialmente na Europa. Entre os que assinavam o documento estavam Nestor Makhno, principal liderança do Exército Insurgente da Ucrânia, e Piotr Arshinov, um operário e guerrilheiro, ambos veteranos da revolução e da guerra civil russa (1917-1921).

Errico Malatesta, um dos principais anarco-comunistas da época, se pronunciou de maneira clara e categórica, contra os pressupostos estabelecidos pela Plataforma: “Ora, sendo a organização proposta tipicamente autoritária, não só não facilitará a vitória do comunismo anarquista, como falsificará o espírito anarquista e resultará no contrário do que esperam seus organizadores” [1]. Vóline, um anarco-comunista russo exilado na França escreveu o seguinte: “Concluindo, o único ponto original na Plataforma é seu revisionismo em direção ao Bolchevismo, escondido pelos autores…” [2].

Os “plataformistas”[3] foram acusados de “desviarem-se do anarquismo”, de trilharem uma perigosa fronteira com o “bolchevismo” e com as ideologias “autoritárias”. Mas na realidade, os Plataformistas, ao contrário do que seus críticos afirmavam, não estavam “rompendo” com o “anarquismo em geral”, mas sim com o revisionismo anarco-comunista. A análise da polêmica “plataformistas X sintetistas”, se torna assim central para a compreensão da história do anarquismo enquanto categoria/conceito, teoria política e movimento, assim como a luta de classificações em torno da categoria e a diferença do anarquismo enquanto fenômeno histórico, de outras ideologias e teorias – como o anarco-comunismo.

Com este texto, iremos demonstrar que: 1º) a cisão provocada pela Plataforma expressa uma cisão em relação à concepção anarco-comunista em suas teses fundamentais; 2º) os plataformistas, ao romperem com a concepção anarco-comunista, irão se aproximar da concepção bakuninista em uma série de aspectos (concepção de organização, conceito de revolução), concepção esta criticada e abandonada em favor do anarco-comunismo em 1876-1880. Assim, a crise dos anos 1920 que diversos “anarquistas” indicavam no movimento, foi a crise do “anarco-comunismo”, do revisionismo e do ecletismo, do seu referencial teórico e prático [4].

A análise da luta teórica entre “plataformistas e sintetistas” permite a compreensão da história do anarquismo [da formação (1848-1871), da ascensão (1878-1900) e queda relativa (1914-1930) do revisionismo anarco-comunista], assim como da teoria da revolução e da organização política no anarquismo e no anarco-comunismo. Neste sentido, esta análise permitirá a apresentação da teoria da organização política bakuninista dentro do quadro geral da teoria anarquista da revolução, e a compreensão da oposição anarquismo X anarco-comunismo em perspectiva histórica.

“Síntese Anarquista” X “Plataforma de Organização”: raízes teórico-ideológicas da cisão.

Uma rápida cronologia e contextualização histórica se fazem necessárias para compreendermos as teses da Plataforma. O contexto histórico em que surge o documento da Plataforma de Organização é marcado por duas características fundamentais: 1) a experiência de uma “onda” revolucionária na Europa no período 1917-1922 (Rússia, Alemanha, Hungria, Itália) com um grande ascenso do movimento de massas, com greves  gerais e insurreições; 2) o início de uma crise e refluxo deste mesmo movimento, com o avanço da contrarrevolução estatista (nazifascista e stalinista); a Marcha de Mussolini sobre Roma, em 1922; a vitória da Ditadura do Partido Comunista sobre as oposições externas e depois de Stalin sobre as “oposições internas” que culminaram com a expulsão de Trotsky, em 1927, por exemplo [5].

Assim, a contradição entre a possibilidade concreta de uma revolução social e a realidade das derrotas insurrecionais e a vitória das contrarrevoluções, estava dada. A Plataforma realiza um diagnóstico da situação do “anarquismo” e seu papel dentro desta conjuntura histórica e perante estes principais acontecimentos.

Nestor Makhno e Piotr Arshinov fundaram o Grupo Dielo Trouda, no exílio na França em 1925 e começaram então a publicar a revista “Dielo Trouda”. Esta revista foi utilizada como instrumento de propaganda e organização, de onde foi realizada a luta teórico-ideológica. No ano de 1927 o Grupo Dielo Trouda promoveu uma série de iniciativas no sentido de criar a união geral dos anarquistas como uma organização internacional. Em 5 de fevereiro deste ano realizaram um convite a uma “conferencia internacional”; que se realizou em 20 de abril de 1927, em Hay-les-Roses[6]. A elaboração da Plataforma faz parte deste esforço de tentar criar uma organização internacional e retomar a luta revolucionária.

Os debates sobre a organização anarquista na realidade se iniciaram antes, já que alguns anarco-comunistas começaram a publicar documentos em seus jornais em favor de uma proposta de “síntese anarquista”. Em março de 1926 a revista Dielo Trouda publicou um texto intitulado “O Problema da Organização e a Noção de Síntese”, que se apresentava já como uma crítica do tipo de organização e teses teóricas sustentadas pelos sintetistas e esboçava aquilo que seria a posição política plataformista. O quadro abaixo (p.6) permite a visualização da evolução dos debates, a nível internacional.

Mas quais as questões teóricas e práticas implicadas no debate entre “plataformistas” e “sintetistas” [7] ? Podemos dizer que são dois conjuntos de questões: 1) a questão do tipo de “organização política”; 2) e através desta questão, chegou-se inevitavelmente a discussão e luta de classificação acerca do conceito de “anarquismo” (e do seu substrato teórico-ideológico).

Identificamos então 16 textos que dialogam entre si, num período de pelo menos cinco anos, entre 1925 e 1930. Este debate, que se inicia entre exilados russos na França, irá se internacionalizar, envolvendo especialmente os anarco-comunistas italianos, como Errico Malatesta e Luigi Fabri. É importante indicar que especialmente na França, tal debate teria uma repercussão importante, e alguns grupos iriam se alinhar com os Plataformistas [8].

O debate plataformistas X sintetistas está inserindo assim no processo histórico, e deve ser compreendido em relação aos conflitos de classe e ao movimento operário. Nos anos 1930 não temos elementos que permitam monitorar o debate na Europa; sabemos que em 1933 Piotr Arshinov retorna a URSS, e é assassinado em 1937 sob acusação de tentar “reinstaurar o anarquismo” [9]; Nestor Makhno morre em 1934. Ou seja, os principais articuladores da Plataforma morrem muito pouco tempo depois de iniciado o debate.

“A Plataforma de Organização”

A principal característica da Plataforma é identificar um problema: a crise do anarco-comunismo, a sua real situação e lugar nas lutas da classe trabalhadora. E também identifica causas que explicam esta situação, como abaixo:

“É muito significativo o fato de que, apesar da força e o caráter incontestavelmente positivo das ideias libertárias (…) o movimento anarquista permanece fraco a despeito de tudo, e tem aparecido, frequentemente, na história de lutas da classe trabalhadora como um pequeno acontecimento, um episódio, e não um fator importante. (…)”.

“No entanto, sem sombra de dúvidas, esta desorganização se origina de alguns defeitos de teoria: notavelmente de uma falsa interpretação do princípio de individualidade no anarquismo: sendo esta teoria frequentemente confundida com a total falta de responsabilidade, Os amantes da asserção ‘eu’, com o interesse voltado unicamente para o prazer particular, agarram-se obstinadamente ao estado caótico do movimento anarquista e citam em sua defesa os princípios imutáveis do anarquismo e seus professores. (…) Mas os princípios imutáveis e os professores têm mostrado exatamente o contrário”. (Arshinov & Makhno, 2002, p.35).

A Plataforma indica o problema da “desorganização como a principal característica do “anarquismo”. Mas devemos notar duas características fundamentais no diagnóstico realizado pela Plataforma: 1º) a desorganização era consequência não da inexistência de “grupos e organizações”, mas sim do seu caráter (localista e empirista, sem base teórica); 2º) era consequência do predomínio das teses individualistas, assimiladas e desenvolvidas dentro destes grupos e organizações. Além disso, a Plataforma irá invocar os teóricos do anarquismo – inclusive Bakunin, para legitimar suas posições.

Soldados do Exército Makhnovista empunham estandarte com os dizeres: “Morte aos que roubam o povo trabalhador”.

Soldados do Exército Makhnovista empunham estandarte com os dizeres: “Morte aos que roubam o povo trabalhador”.

Ou seja, o tipo de organização (e a consequente desorganização) deriva diretamente da teoria (teses) assumidas como pressupostos. A Plataforma não somente indica a necessidade da teoria, mas indica, dentro de uma situação histórica e um problema particular, o lugar de centralidade da teoria. A falta de importância do anarquismo na luta de classes, seu “fracasso” na revolução russa, poderia ser explicada em parte, pela “desorganização” que era o produto dos desvios teóricos.

Entretanto, a Plataforma avança e indica outro elemento. Não somente afirma a necessidade de uma organização política, mas defende um tipo particular de organização política, com princípios determinados:

“No entanto, não é o bastante reconhecer a necessidade vital de tal organização: é também necessário estabelecer o método para sua criação. Nós rejeitamos como teoricamente e praticamente inapta a ideia de criar uma organização baseada na receita da ‘síntese’, que está reunindo os representantes de diferentes tendências anarquistas. Tal organização tendo incorporado elementos teóricos e práticos heterogêneos, seria apenas uma reunião mecânica de indivíduos, cada qual possuindo um conceito diferente das questões do movimento anarquista, uma reunião que eventualmente se desintegraria ao entrar em contato com a realidade.” (LL, P.37).

Desta maneira, a Plataforma se contrapõe a proposta de “Síntese Anarquista”, que havia sido desenvolvida desde os anos de 1923-25, onde vários dos seus tópicos só podem ser compreendidos plenamente pelo debate que realiza com as teses acerca da síntese. A Plataforma se contrapõe também ao anarcosindicalismo, indicando que esta visão recusa o problema da “organização anarquista”, e que logo, não poderia resolvê-lo. A Plataforma defende que a organização anarquista deveria cumprir um papel dirigente, teórico e prático, e não somente propagandista e educacionista [10], na revolução social:

 “O papel dos anarquistas no período revolucionário não pode ser restrito somente à propagação das palavras de ordem e das ideias libertárias. A vida não é só uma arena para a propagação desta ou daquela concepção, mas também, e da mesma forma, uma arena de luta, de estratégia, e de aspirações destas concepções na direção da vida social e econômica”.

“Mais do que qualquer outro conceito, o anarquismo deveria se tornar o conceito dirigente de revolução, pois é somente dentro da base teórica anarquista que a revolução social pode ser bem sucedida na total emancipação dos trabalhadores” (LL, P.45).

Ou seja, o que estava em discussão no debate “Síntese X Plataforma”, não era a necessidade ou não de uma organização anarquista (plataformistas e sintetistas defendiam tal necessidade), mas sim o tipo de organização política, seu papel na luta de classes e suas bases teóricas. A síntese defendia o ecletismo teórico, a plataforma a unidade teórica (entendendo-se por isso, a defesa de uma “teoria”, e não a tolerância para com diferentes teorias contraditórias). Esta discussão exigiu a definição do conceito de anarquismo, uma luta de classificações em torno deste conceito.

Os principais elementos teórico-ideológicos da Plataforma que se opõe ao Sintetismo são: 1º) o princípio da luta de classes e o defesa do caráter de classe do anarquismo, sendo a relação do anarquismo com a luta sindical (em sentido amplo), um pressuposto da ideologia anarquista e não “uma escolha”; 2º) a defesa da revolução como a guerra revolucionária; 3) a defesa da teoria do valor trabalho, como princípio da organização social e política; 4º) a critica da democracia burguesa, anti-colaboracionismo; 5º) a negação do Estado, a afirmação da capacidade criativa da classe trabalhadora; 6º) a defesa da aliança operário-camponesa -“inteligentsia proletária”, como sujeitos da revolução social; 7º) a afirmação do papel de direção da teoria e organização política; 8º) a crítica do programa “comunista” e “socialdemocrata”, apontando-se para a recusa da “fase de transição”. Todos estes elementos visam criar uma diferença, tanto em relação aos grupos anarco-comunistas então existentes, quanto em relação à socialdemocracia (2º Internacional) e comunismo internacional (3º Internacional). Por isso, a formulação de um esboço de programa e a crítica da “fase de transição” (lembremos que na URSS, em 1927, se vivia exatamente o que se considerava ser esta “fase”).

É importante notar então que primeiramente a Plataforma recusa a proposta de “síntese anarquista” e que depois disso, o debate e luta entre sintetistas e plataformistas alcança outra dimensão. Os defensores da síntese apresentarão a crítica a Plataforma.

A “Síntese Anarquista”

Dois textos declaram nitidamente a proposta de uma organização baseada no princípio e na teoria da síntese, o de Sebastian Faure “A Noção de Síntese” e o de Volin “A Síntese Anarquista”. O texto de Faure inicia por um diagnóstico:

“Na França, como na maior parte dos países, se distinguem três grandes correntes anarquistas, que se pode designar do seguinte modo: o anarcosindicalismo; o comunismo libertário; o individualismo anarquista” (…) “As três correntes são distintas, mas não opostas.” (p.1).

“Daí a necessidade urgente de organizações propriamente anarquistas que, tanto de dentro como de fora dos sindicatos, lutem pela realização total do anarquismo e tratem de esterilizar todos os gérmenes de corrupção e de reação.” (p. 2).

O diagnóstico estabelece três afirmações fundamentais: 1) a existência de três correntes dentro do “anarquismo”, 2) que a política e forma das relações entre estas correntes estavam causando uma crise no anarquismo em geral; 3) que estas correntes são diferentes teoricamente, mas não opostas [11]. O ponto em comum com a Plataforma é a indicação de uma crise no anarquismo; a diferença radical é a identificação das causas e as soluções políticas encontradas.

O tExto de Vóline retoma este ponto:

“Se entiende por “síntesis anarquista” una tendencia desarrollada actualmente en el seno del movimiento libertario, que trata de conciliar y “sintetizar” las diferentes corrientes de ideas que dividen a estos movimientos en diversas fracciones más o menos hostiles entre sí. Se trata, en el fondo, de unificar en cierta medida tanto la teoría como el movimiento anarquistas en un conjunto armonioso, ordenado, acabado.”(Vóline, p. 1)

Uma questão que é decisiva é a política dos sintetistas (e dos anarco-comunistas em geral acerca da categoria “anarquismo”). Voline reconhece a necessidade de uma base teórica, mas ao mesmo tempo não quer incorrer nas operações de exclusão que toda teoria exige [12].  Há uma contradição: ao mesmo tempo se busca dar uma definição teórica (o que implica a exclusão de outras definições) e estabelecer um relativismo absoluto em relação à categoria, ou seja, reintroduzir a indefinição teórica do conceito anarquismo.

“Por lo tanto, ningún anarquista podría pretender que “su” corriente fuera la verdad única y constante, y que todas las demás tendencias en el anarquismo fueran absurdas. Es, por el contrario, absurdo que un anarquista se deje atrapar en la limitación de una sola pequeña “verdad”, la suya, y que olvide así la gran verdad real de la vida: la perpetua creación de formas nuevas, de combinaciones nuevas, de una síntesis constantemente renovada. (Voline, p. 4)

Veremos que no debate com os plataformistas, a relação com a “verdade” será modificada: o conjunto dos grupos anarco-comunistas, alinhados na defesa da síntese, irão definir que o anarquismo não comporta certas teses, como a dos plataformistas.

Mas os pontos fundamentais da oposição sintetistas X plataformistas está na teoria da organização política, na concepção geral de revolução e no próprio conceito de anarquismo. O papel da “organização política” segundo os sintetistas é:

“1. No hay que olvidar nunca la realización de la revolución, que la creación de las formas nuevas de la vida no nos incumbirán a nosotros, anarquistas aislados o ideológicamente agrupados, sino a las amplias masas populares, que cumplirá nesa inmensas tarea destructora y creadora. Nuestro papel en esta realización se limitará al de fermento, de elemento de consejo, de ejemplo” (Voline, p. 4)

Ou seja, o papel da organização política é, segundo os sintetistas, “educacionista”, de “educar” (pelo conselho e pelo exemplo) as massas, não de dar um direcionamento político-teórico e cumprir um papel de liderança no processo real da luta de classes, como defendem os plataformistas. Neste sentido, a diferença fundamental da organização sintetista para a organização plataformista é o papel político (educacionista X dirigente) que cada teoria irá sustentar.

Quando Voline e outros russos escreveriam a “Réplica a Plataforma” em abril de 1927, os principais pontos de divergência serão explicitados.

“Nos não concordamos com a Plataforma que “a mais importante razão para a fraqueza do movimento anarquista é a ausência de princípios organizacionais”. Nós acreditamos que este tema é muito importante porque a Plataforma procura estabelecer uma organização centralizada (um partido): que criaria uma linha política e tática para o movimento anarquista; ela sobre-enfatiza a importância e o papel da organização”. (Voline at all, 1927 p.1).

Assim o papel da organização política, de servir de guia teórico-ideológico para o movimento de massas, é recusado, da mesma maneira que a política de dar definições teóricas claras, assumida pela Plataforma [13]. A organização anarquista tem uma importância secundária, pelo menos em relação ao movimento sindical-proletário.

Outra tese fundamental que os sintetistas negam é o caráter de classe da ideologia anarquista: na “Réplica a Plataforma” é afirmado com clareza:

“Nós não podemos afirmar que o anarquismo é uma teoria de classes e rejeitar aqueles que tentam dar um caráter humano. E nós não podemos declarar que o anarquismo é ideal humanitário para todas as pessoas e acusar aqueles que defendem uma base de classe de desvio marxista. (…) Sustentar que o anarquismo é uma teoria de classes é limitá-lo a um único ponto de vista. O Anarquismo é mais complexo e pluralístico, como a própria vida.Seu caráter de classe é sobretudo um meio de lutar pela liberação; seu caráter humanitário é aspecto ético, a fundação da sociedade; seu individualismo é o objetivo da humanidade”. (Voline at all, 1927 p.1).

Precisamos entender o real significado deste debate: os plataformistas defendem o anarquismo como uma teoria da classe trabalhadora, e aceitam o “humanitarismo” como uma dimensão do caráter de classe [14]. Ao afirmar o contrário, que o anarquismo é uma ideologia humana, se afirma que ela abrange tanto a burguesia quanto o proletariado, e estas eram teses defendidas (como plataformistas e sintetistas indicam) por alguns “anarquistas”.

Seria um equívoco também considerar que a “síntese” comporta somente uma formula organizativa; ela é senão uma teoria, pelo menos um conjunto de teses políticas, das quais as principais são: 1) o anarquismo é um movimento composto de três correntes igualmente legítimas; 2) a síntese implica a “harmonia” entre estas correntes, acompanhando uma tendência geral da vida ao “equilíbrio e a harmonia”, a ausência de conflito; 3) as teorias políticas são estanques em relação à realidade social e material, de maneira que não importa a procedência de classe das ideias e nem seus objetivos; o objetivo principal da organização não é a revolução, mas sim realizar a harmonia entre as diferentes correntes do anarquismo.

Os Anarco-comunistas diante do debate sintetistas X plataformistas

O debate Plataformistas X Sintetistas acabou trazendo para o seu interior, uma parte importante dos anarco-comunistas da época, especialmente Malatesta e Fabbri. Neste sentido, para compreender as ideias e práticas do anarco-comunismo na história, com relação aos problemas concretos da revolução, precisamos compreender a posição dos anarco-comunistas italianos diante do debate entre sintetistas e plataformistas e dos acontecimentos históricos.

Errico Malatesta, anarco-comunista italiano

Errico Malatesta, anarco-comunista italiano

Podemos dizer que os textos de E. Malatesta “Sobre um Projeto de Organização Anarquista” (outubro de 1927), de Camilo Berneri, “A Plataforma” (dezembro de 1927), e o texto de L.Fabri (todos os membros do grupo “Pensamento e Vontade”) “Su un progetto di organizzazione anarchica” (setembro de 1927) marcam uma reação em bloco e sistemática dos anarco-comunistas italianos contra os plataformistas e em favor, em certos textos, dos sintetistas. Esta posição ganha uma dimensão prática com a recusa do Grupo “Pensiero e Volontà” em aderir a “Federazione Comunista Anarchica Internazionale”, através de uma carta intitulada “Lettera del Gruppo “Pensiero e Volontà” al la Segreteria Provvisoria del la Federazione Comunista Anarchica Internazionale” (1927), em que o Grupo “Pensamento e Vontade” recusa o convite a aderir a organização internacional articulada pelos plataformistas.

Em termos de conteúdo, Malatesta formula exatamente sua concepção anarco-comunista, em que defende um tipo de organização política, profundamente diferente da concebida pelos plataformistas. A base da critica de Malatesta é a recusa da “responsabilidade coletiva”, e então ele explicita sua concepção do papel da organização anarquista:

“Isto é anarquismo? Em minha opinião é um governo e uma igreja. (…) O espírito e a tendência sendo autoritários, o efeito educativo será anti-anarquista. (…).

“Uma organização anarquista, penso eu, deve ser fundada em bases muito diferentes das propostas pelos companheiros russos. Total autonomia, total independência e total responsabilidade de indivíduos e grupos; livre-acordo entre os que acreditam ser útil unirem-se para cooperar na obra comum; dever moral de manter os compromissos assumidos e nada fazer em contradição com o programa aceito. (…) Assim, os congressos numa organização anarquista, mesmo sofrendo enquanto corpos representativos de toda as imperfeições, já mencionadas, estão isentos de todo autoritarismo, porque eles não fazem a lei; não impõe suas resoluções aos outros. Servem para manter as relações pessoais entre os companheiros mais ativos, para resumir e incentivar o estudo de programas e meios de ação; para formular as diversas opiniões correntes entre os anarquistas e fazer uma espécie de estatística delas, e suas decisões não são regras obrigatórias, mas sugestões, recomendações, propostas que serão submetidas a todos os interessados, não devem ser obrigatórias exceto para aqueles que as aceitarem enquanto as aceitarem. (…) Numa organização anarquista os membros individuais podem expressar qualquer opinião e usar qualquer tática que não esteja em contradição com os princípios aceitos e não impeça a atividade dos outros. (grifo nosso) (Malatesta, p. 71-72).

Assim, para Malatesta o conteúdo da Plataforma não era anarquista. Isto porque Malatesta se mantém nos quadros da teoria individualista, um tipo de individualismo que se expressa no localismo – a defesa de organizações locais, que não se submetem à decisão coletiva com outras organizações. O centro da justificação da política anarco-comunista de Malatesta, e sua condenação da Plataforma, é a defesa de um conceito individualista de liberdade. Ele recusa também o papel iniciador-dirigente – teórico e prático, da organização anarquista defendido pelos plataformistas. O papel da organização é, assim como para Voline, o papel de “educador”, expresso pela ideia de “libertação moral” [15]. Ou seja, o tipo de organização defendida pelos anarco-comunistas italianos, era em sua estrutura interna, similar àquela defendida pelos sintetistas.

Mais do que isso. As duas experiências que serviam de base para a teoria e organização sintetista, era a experiência do anarco-comunismo, do anarcosindicalismo e do individualismo nos anos 1920. Ou seja, eram as práticas já realizadas, das quais a “síntese” se apresentava como formulação e sistematização teórica.

“No he descubierto ni propongo nada nuevo: Luigi Fabbri y otros compañeros rusos (Volin, Flechin, Mollie Steimer) con los que hechar lado mucho estos días, me han confirmado que este intento de realización se ha llevado a cabo en Italia, enel seno de la Unión Anarquista Italiana, y en Ucrania, enel seno de Nabat, y que esas dos tentativas han dado los mejores resultados, que solas han roto el triunfo del fascismo en Italia y la victoria del bolchevismo en Ucrania.” (Faure, p. 4)

Podemos dizer que a proposta de “síntese” expressa também uma parte da experiência do anarco-comunismo no início do século XX, seja na sua vertente kropotkiniana (russa) ou malatestiana (italiana). E acontecerá uma confluência das duas vertentes do anarco-comunismo, na defesa do individualismo (ou da conciliação com o individualismo), das bases do anarco-comunismo e na crítica da concepção de organização política plataformista. Os anarco-comunistas, apesar de não defenderem expressamente a “síntese” irão manifestar sua simpatia por ela, e a própria proposta da síntese, se fundamentava na experiência do Nabat (Ucrânia) e da UAI (União Anarquista Italiana) que teriam fornecido o modelo prático para a organização “sintetista”.

Neste sentido, as palavras de Luigi Fabri são bem conclusivas a respeito da aproximação dos anarco-comunistas italiano, de seu posicionamento a favor do fenômeno geral do sintetismo (enquanto experiência realizada na Rússia e na Itália), posteriormente sistematizada pro Voline e Faure.

“Eu não conheço realmente o programa daquele grupo de camaradas anarquistas russos que falaram conosco sobre uma ´síntese anarquista´. Contudo, se eles concebem que o anarquismo irá  também de algum modo, ser individualista e sindicalista, não num sentido exclusivamente doutrinário, porém no sentido prático que os anarquistas creem na ação sindicalista ser útil e na defesa da liberdade do indivíduo será necessária na ordem de alcançar o máximo de autonomia na harmonia com a liberdade de todos os indivíduos, então uma tal concepção me parece inteiramente correta muito próxima a minha própria concepção, a despeito de sua formulação incompleta”. (Fabri, 1927, p.3) [16].

A Resposta Plataformista

Os plataformistas reagiram às críticas de Malatesta e outros anarco-comunistas. Na realidade, eles esperavam que as críticas viessem dos individualistas (ver A Plataforma de Organização, Introdução). Makhno afirma que a resposta de Malatesta o deixou surpreso e confuso “Minha impressão é que você não compreendeu o projeto da Plataforma. Ou então, sua recusa em reconhecer a responsabilidade coletiva na ação revolucionária e a função dirigente que os anarquistas devem assumir decorre de uma profunda convicção sobre o anarquismo…” (ver Resposta a um Projeto de Organização Anarquista, 1928).

Piotr Arshinov, plataformista, veterano da revolução e guerra-civil russa (1917-1921)

Piotr Arshinov, plataformista, veterano da revolução e guerra-civil russa (1917-1921)

Neste sentido, Makhno identificou o ponto central da questão: o conceito de anarquismo contido na plataforma era radicalmente distinto e oposto daquele defendido pelos anarco-comunistas italianos. E a reação dos plataformistas foi precisa: identificaram e denunciaram a conciliação postulada pelos defensores da síntese anarquista e anarco-comunistas com o individualismo liberal [17], tanto teórica quanto praticamente (ver Arshinov, Réplica aos Confusionistas do Anarquismo).

A partir de então, coloca-se um problema político e histórico fundamental: a luta pelo uso legítimo da categoria “anarquismo”, que é negado (pelo conjunto dos grupos anarco-comunistas, anarco-sindicalistas e individualistas) aos plataformistas. Ou seja, o debate teórico entre plataformistas e sintetistas conduziu-os a um limiar, obrigou a estabelecer uma luta de classificações em torno do que é o anarquismo. É por isso que a “convergência sintetista” (estamos denominando os grupos que se alinharam com os sintetistas nos anos 1920, incluindo os anarco-comunistas italianos, na campanha contra os plataformistas) considerou os plataformistas como “bolcheviques”.

Os próprios plataformistas acreditavam estar criando uma nova base teórica, ajustada as exigências impostas pela luta de classes e pela experiência das revoluções do século XX (os textos “Elementos Velhos e Novos no Anarquismo” e o “Velho e o Novo no Anarquismo”, de Arshinov, expressam esta percepção). Mas na realidade, o plataformismo não estava inventando uma nova teoria [18]. A “deslegitimação” dos plataformistas e os ataques – de individualistas e anarco-comunistas – devem ser compreendidos em relação à história e a experiência prática. Aqueles que acusavam os plataformistas de se desviarem do anarquismo eram os adeptos de uma linha revisionista, como o próprio Malatesta admite:

“Fui bakuninista como todos os camaradas de minha geração, infelizmente já distante no tempo. Hoje, depois de longos anos, não me considero mais como tal. Minhas ideias se desenvolveram e evoluíram. Hoje, penso que Bakunin foi muito marxista (sic.) na economia política e na interpretação histórica.” [19] (Malatesta, 1926).

Outro ponto fundamental é o posicionamento relativo ao individualismo. O anarco-comunismo assimilaria a prática e a teoria individualista. Os sintetistas tentavam dar a esta assimilação um sentido orgânico. Os plataformistas romperam com esta política da convivência pacífica com a burguesia no anarquismo, como vemos pelas palavras de Arshinov:

“Entonces, ¿ qué nos queda del individualismo anarquista? La negación de la lucha de clases, la negación del principio de una organización anarquista cuya finalidad sea la sociedad libre de los trabajadores iguales: y más aún, la charlatanería vacía, estimulando a los trabajadores infelices con su existencia, a tomar su parte, recurriendo a las soluciones personales, supuestamente abiertas a el los encuanto individuos liberados.

“Pero ¿qué hayen todo esto que pueda ser definido como anarquista? ¿Dónde están los elementos necesarios para una síntesis con el comunismo? Toda esa filosofía no tiene nada que ver con la teoría o la práctica anarquista: y es improbable que un obrero anarquista se sienta inclinado conforme a esta “filosofía”. (…) (O Problema da Organização e a Noção de Sintesis, Dielo Trouda N°. 10, março, 1926)

Os pontos da ruptura dos plataformistas com os anarco-comunistas e o sintetismo, que amalgamou os seguidores de Kropotkin com os de Malatesta, ficam ainda mais explícitos nas respostas que eles elaboraram contra as criticas vindas do anarco-comunistas russos (Voline e etc.) e italianos (Malatesta, Fabri). O texto Réplica aos Confusionistas do Anarquismo e o Suplemento a Plataforma (1926), tem especial importância.

Mas o plataformismo, representando uma ruptura com o anarco-comunismo, não expressava a introdução de “elementos novos” no anarquismo, mas sim uma mudança radical de linha política e ideológica: em direção as teses coletivistas, ao bakuninismo [20]. A aproximação se dá em três aspectos: 1) o tipo e o papel da organização política, papel de iniciador-dirigente das lutas sindical-proletárias, no sentido teórico e prático; 2) a adoção de conceito de liberdade coletivista e não individualista; 3) a adoção da categoria trabalho (e da teoria do valor trabalho), como base do programa revolucionário permanente, relativo ao problema da direção econômica e política da sociedade.


Notas:

 [1]“Sobre um Projeto de Organização Anarquista”, (Errico Malatesta, [Outubro de 1927], 2002, p. 71).

[2] “Reply to the Plataform”, (Voline, Abril de 1927). “In conclusion, the only original points in the Platform are its revisionism toward Bolshevism hidden by the authors, and acceptance of the transition period.”

[3] Estamos nos referindo aqui ao grupo que produziu e defendeu a plataforma, não confundir com os grupos que se designam “plataformistas”, e que surgiram no final do século XX na Europa.

[4] A nossa tese é que o anarco-comunismo não constitui, enquanto fenômeno histórico e teoria, uma “corrente” dentro de um “movimento anarquista”. Por questões de método histórico o mais correto é entender que a categoria “anarquismo” esteve associada a uma teoria política e movimento social em um contexto histórico específico, o do movimento operário e popular e socialista da época das revoluções de 1848 e da “Primeira Internacional.”  O marco do declínio deste movimento, é a destruição da Comuna de Paris, e a desarticulação das seções da Internacional e da “Aliança” – organização anarquista. O anarco-comunismo surge como outra teoria política neste momento de refluxo, é uma ruptura com a teoria e prática anarquista, tão drástica que deve ser considerada – apesar de evocar a categoria discursiva “anarquia”, e o radical “anarco”, como um fenômeno histórico e movimento político distinto. Assim, empregamos a categoria “anarquismo” para designar o movimento e teoria anarquista da época da Primeira Internacional, como um fenômeno total, específico e distinto; categoria anarco-comunismo para designar um outro movimento e teoria política, que se origina na crise do movimento operário pós-Comuna de Paris.

[5] Outros acontecimentos fundamentais estavam se processando: 1) ascensão do fascismo, como vitória da contrarrevolução, na Itália; 2) ascensão do nazismo na Alemanha, e a preparação das condições objetivas e subjetivas de uma Guerra na Europa; 3) Ditadura na Espanha, que levava o movimento operário espanhol a duras lutas na clandestinidade; 4) crise econômica do capitalismo internacional, no imediato pós I Guerra Mundial; 5) vitória da contrarrevolução stalinista na Rússia, com a construção de um Estado ultra-centralizado.

[6] “Além dos que participaram do primeiro encontro havia um delegado italiano que apoiava a ‘Plataforma’, Bifolchi, e outra delegação italiana, da revista ‘Pensiero e Volontá’, Luigi Fabbri, Camillo Berneri e Ugo Fedeli. Havia dois delegados franceses, um do Odeon, favorável à ‘Plataforma’, e outro com Severin Ferandel”. INTRODUÇÃO HISTÓRICA à 1a edição irlandesa, pelo Movimento da Solidariedade Operária.

[7] Denominamos aqui plataformistas o campo dos indivíduos e grupos que se alinharam em torno do Dielo Trouda e suas propostas políticas nos anos 1920, e sintetistas os que se manifestaram favoráveis à proposta de síntese.

[8] “A “Plataforma” não se estabeleceu internacionalmente, mas influenciou vários movimentos. Na França, ocorreram inúmeras cisões e fusões; os plataformistas às vezes controlavam a principal organização anarquista, outras vezes eram forçados a deixá-la e criar seus próprios grupos.” Introdução História – MSO-Irlanda.

[9] Introdução Histórica a edição Irlandesa. MSO. http://www.reocities.com/autonomiabvr/plataf2.html

[10] Corrente pequeno-burguesa que se desenvolve como parte do revisionismo no anarquismo. Sua principal figura é Kropotkin que renega a centralidade do Trabalho e a Ação direta revolucionária das massas  postulando a educação como principal alavanca para a transformação da realidade. O propagandismo é desdobramento da mesma corrente que defende que apenas através da propaganda as massas se levantariam em um desenlace revolucionário, desconsiderando o papel do partido revolucionário e da construção das organizações de massas, tarefas que devem ser realizadas necessariamente em período anterior a revolução pelos anarquistas.

[11] É interessante notar que Faure indica que o “movimento anarquista” de então passava por uma crise: “Yo digo que no es laexistencia de esostres elementos -anarcosindicalismo, comunismo libertario y anarquismo individualista- la que ha causado ladebilidad o, más exactamente, eldebilitamiento relativo delpensamiento y de laacción anarquistas, sino únicamentelaposición que han tomado unos y otrosenrelación a losdemás: posición de guerra abierta, encarnizada, implacable”. (Faure,3).

[12]“Fue sobre todo enRusia, durante laRevolución de 1917, cuandolanecesidad de tal unificación, de tal síntesis, se hizo sentir. Muy débil ya materialmente (pocos militantes, escasosmedios de propaganda, etc.) enrelación a otrascorrientes políticas y sociales, el anarquismo se vioaun más debilitado durante laRevoluciónRusa como consecuencia de las luchas intestinas que lodesgarraban. Los anarcosindicalistas no queríanentenderseconlos anarquistas comunistas y, al mismotiempo, unos y otros se enfrentabanconlos individualistas (sinhablar de otrastendencias). Ese estado de cosas impresionó dolorosamente a varioscompañeros de tendencias diversas. Perseguidos y finalmente expulsados de lagranRusia por elgobierno bolchevique, algunos de estoscompañerosfueron a militar a Ucrania, donde el ambiente político era más favorable y donde, de acuerdoconotroscompañeros ucranianos, decidieroncrearunmovimiento anarquista unificado, reclutando militantes serios y activos por todas partes, sindistinción de tendencia. El movimientoadquirióenseguida una amplitud y un vigor excepcionales. Para consolidarse e imponerse definitivamente, sólolefaltaba una cosa: una cierta base teórica.” (Voline p. 1)

[13]“Os autores proclamam que o anarco-comunismo é a única teoria válida, e eles tomam uma posição crítica, mais ou menos negativa, para com anarco-individualistas e anarco-comunistas” (Volineatall, 1927 p.1).

[14] Ver a “A Plataforma de Organização”, Seção Geral, item 1 – A Luta de Classes.

[15]“Acredito que o mais importante não é a vitória de nossos planos, nossos projetos, nossas utopias, que em qualquer caso precisam de confirmação e podem ser modificados pela experiência, desenvolvidos e adaptados para as reais condições, morais e materiais, da época e do lugar. O mais importante é que as pessoas, homens e mulheres, percam os instintos e hábitos de rebanho, que lhes foram inculcados em milhares de anos de escravidão, e aprendam a pensar e atuar livremente. Este é o grande trabalho de libertação moral a que os anarquistas devem especialmente se dedicar.” (Malatesta, 1929)

[16] L. Fabri e C. Berneri irão também recusar o caráter de classe do anarquismo defendido pela Plataforma, em seus respectivos textos irão se pronunciar a favor do anarquismo como uma ideologia de todas as classes, “humanitária”.

[17] Arshinov comenta no seu texto “O Velho e o Novo no Anarquismo – resposta a Malatesta”, “Esse artigo nos provocou perplexidade e pesar. (…) Pesar, pois para ser fiel ao dogma inerente ao culto da individualidade, ele se pôs contra (desejamos que apenas temporariamente) o trabalho que aparece como um estágio indispensável na extensão e no desenvolvimento do movimento anarquista.” (p. Arshinov, p.81).

[18] Na realidade Arshinov, indica a postura dos sintetistas de quererem fazer “tabula rasa” a teoria anarquista, afirmando que não existia uma base teórica mínima (conceitos de revolução, fase de transição, violência revolucionária), defendendo na verdade a posição que estas questões já haviam sido resolvidas pelos teóricos do anarquismo, e que era preciso buscar tais definições (ver Respostas aos Confusionistas do Anarquismo). Esta postura de tabula rasa é fundamental para a construção do monopólio do uso legitimo da categoria “anarquismo” pelos revisionistas anarco-comunistas, pois uma perspectiva historicista necessariamente revela o processo de ruptura existente com o anarquismo da Primeira Internacional, e logo, quebra a legitimidade dos supostos “princípios” anarquistas.

[19] “Bakunin” in Escritos Revolucionários. O revisionismo dos anarco-comunistas é tão profundo que até Bakunin é visto como marxista. O importante a registrar é que historicamente, aconteceu este processo de ruptura, que o próprio Malatesta reconhece.

[20] Este aspecto fica visível na defesa da responsabilidade coletiva, na defesa do papel dirigente da organização, e na “teoria do valor trabalho”, na substituição do princípio (de cada de um acordo com suas possibilidades, a cada um de acordo com suas necessidades) pela fórmula “a cada um de acordo com seu trabalho”. Vejamos: “laregla general será que toda persona en sus plenas capacidades, que disfruta de derechos sobre los recursos materiales y morales de lasociedad, incurraenciertasobligacionesrespecto a laproducción de éstos. Bakunin, analizando este problema ensu época, escribía, en plena madurez de supensamiento y actividad anarquista: ‘Todos tendrán que trabajar, si es que quieren comer. Cualquier persona que se rehúse a trabajar, será libre de perecer de hambre, a menos que encuentrealgunaasociación o localidaddispuesta a alimentarle, por lástima. Pero entonces, seríaquizás justo no otorgarleningúnderecho político, ya que, siendo capaz de trabajar, suvergonzosasituación está establecida por opciónpropia y vive a costa deltrabajoajeno. Y no habrá más base para losderechospoliticos y sociales que eltrabajodesempeñado por cada individuo’” (Suplemento a Plataforma de Organização, 1926).

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Uma resposta para VIA COMBATIVA | Plataformismo X Sintetismo: Da crise do anarco-comunismo ao resgate do bakuninismo

  1. Bom, já avisamos antes de tudo que Ana é a Anarquia! Matriarca de Anatólia.
    Já avisamos também que a bandeira negra é dos SEMITAS e a Bandeira Vermelha é dos Romanos e do Arianismo. Assim a Bandeira vermelha e negra é a aliança entre estes dois grupos diferentes ALIANÇA ESTA QUE ACONTECEU SOMENTE POR GUERRAS. Porem os filhos desta guerra existem no mundo!
    A unica unidade para um partido anarquista é o DISCERNIMENTO ORGANICISTA, que sabe onde cada um se situa no enorme corpo social do anarquismo.
    Especificismo e Sintetismo não são as únicas expressões organizadas no anarquismo, principalmente quando se trata de partido anarquista e não de federação anarquista.
    A tradição anarquista de partido é o VANGUARDISMO Descentralizado, todas as outras são tendencias leninistas do organicismo politico, e por tal motivo o especificismo é chamado no hemisfério do partido anarquista de ANARCO BOLCHEVISMO.
    CONFUNDIR FEDERAÇÃO ANARQUISTA COM PARTIDO ANARQUISTA, É CONFUNDIR A ESPINHA DORSAL ANARQUISTA COM O CELEBRO ANARQUISTA.

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