MEMÓRIA | Mulheres que não tiveram tempo para sentir medo: A comandante anarquista Maria Nikiforova

femmeA história do anarquismo é repleta de lutadoras e lutadores dos quais suas vidas dariam centenas de filmes recheados de paixão e ação. A vida de Nikiforova não foge disso e, apesar de ter sido curta, daria um belo longa-metragem cheio de efeitos especiais e muita ação. Porém a história que hoje resgatamos é de uma mulher de carne e osso, que como qualquer outro ser humano teve erros e acertos em sua jornada, sendo assim não pintaremos aqui a Nikiforova heroína dos camponeses ou muito menos a Nikiforova assassina cruel e impiedosa pintada por seus adversários, iremos nos restringir em resgatar o legado da mulher, anarquista e comandante militar Maria Grigovena Nikiforova, a qual foi mais conhecida pelo codinome Mariucha.

Maria Nikiforava nasceu em Alexandrovsk, atual  Zaporizhia, Ucrânia em 1885. Saiu de casa aos 16 anos de idade e para se sustentar trabalhou de babá, balconista e operária em uma fábrica de bebidas. Ao se tornar operária em uma região que passava por uma crescente industrialização ela passou a vivenciar os conflitos sociais que surgiam cotidianamente, foi nesse período de agitações políticas que Nikiforova se aproximou e ingressou em um grupo anarco-comunista de matriz kropotikiniana que pregava, assim como diversos outros grupos que lutavam contra o império russo, a necessidade de expropriações e atentados contra governantes e patrões como o caminho para uma ruptura revolucionária. Nikiforova então começou a participar de várias ações do grupo e acabou sendo presa em um ataque contra o escritório de uma fábrica de máquinas agrícolas em Aleksandrovsk que resultou na expropriação de 17.000 rublos e na morte de um guarda.

Em 1908 ela vai a juízo acusada de homicídio e de assalto a mão armada sendo condenada a pena de morte.  No entanto, a sentença teve de ser alterada para vinte anos de trabalhos forçados devido a Mariucha na época ter apenas 20 anos e a maioridade penal no Império russo ser de 21 anos. Ela então foi mandada para cumprir sua pena na Sibéria de onde conseguiu fugir em 1910. Desse ponto em diante Mariucha roda o mundo passando pelo Japão, Estados Unidos, Espanha até que encontra seu paradeiro em Paris no ano de 1913. Na capital francesa ela passa a ter uma intensa vida intelectual e cultural, começando a ter aulas com o escultor Auguste Rodin. Também foi lá que construiu uma grande amizade com o futuro comandante bolchevique Vladimir Antonov-Ovseenko e é nesse mesmo período que ela se casou com o anarquista polonês Witold Brzostek.

A Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa

Porém, logo essa vida razoavelmente tranquila de Mariucha chegou ao fim com o início da Primeira Guerra Mundial, pois ela optou por seguir o posicionamento de Kropotkin e se colocou a favor dos Aliados, enquanto Witold Brzostek se posicionou coerentemente contra guerra, assim como a maioria dos anarquistas. Porém Mariucha não se contentou em somente apoiar em propaganda os Aliados, ela abandonou seu companheiro e se alistou para a Escola Francesa de Formação de Oficiais, onde se formou, e em seguida foi enviada para frente de Salônica (atual Tessalônica), na Grécia, onde ficou até eclodir a revolução social na Rússia.

Em abril de 1917, chegou a Petrogrado junto com sua amiga e futura ministra bolchevique Alexandra Kollontai. No inicio de julho participa da tentativa de invasão do Palácio de Inverno que acabou em fracasso e Kollontai foi presa. Em seguida devido a política anti-anarquista do governo provisório, ela foi forçada a retornar para sua terra natal onde construiu em alguns meses um destacamento armado pró-sovietes que executou oficiais e proprietários que faziam resistência contra a revolução em marcha.

Porém, logo a contrarrevolução ganha força com o apoio militar do Exército Branco e a agrupação de Nikiforova acabou encurralada em  Alexandrovsk  que encontrava-se sitiada. Nesse período o Exército Vermelho estava invadido a Ucrânia e contava com apoio dos camponeses do sudoeste da Ucrânia que foram às armas liderados pelo anarquista revolucionário Nestor Makhno, que logo constituíram um grande exército, batizado de Exército Negro fazendo simbolismo direto a cor da bandeira negra do anarquismo. E foi graças a união militar entre os Exércitos Vermelho e Negro que em 15 de janeiro de 1918 a reação foi varrida de  Alexandrovsk e Nikiforova se salva novamente junto com seu destacamento. É nesse episódio que  Nikiforova e Makhno se encontram pela primeira vez e logo se aproximam motivados pelo entendimento comum do anarquismo.

Com a chegada da agrupação de Makhno os anarquistas ficam em vantagem numéricas em relação aos bolcheviques e ganham representação dentro do comitê revolucionário na cidade. Makhno como titular e Mariucha como adjunta. Porém, logo Makhno percebe o aparelhamento burocrático que os bolcheviques impuseram para evitar o controle popular da região e resolve abandonar o cargo. Nikiforova decide continuar junto aos bolcheviques e fala ao camarada Makhno que ele com esta postura ignorava os ideais anarquistas.

A realidade foi que quando Makhno e Mariucha se encontraram os dois estavam caminhando em rumos opostos no campo do anarquismo, Nikiforova nadava a favor da corrente estando plenamente de acordo com a teoria anarco-comunista de Kropotkin, que propunha que o papel dos anarquistas não era de estar junto ao povo na sua libertação, mas sim o de propagandear e de conscientizá-lo de que deveria se libertar. Já Nestor Makhno nadava contra a corrente do revisionismo, mesmo que inconsciente, pois fazia a critica as debilidades práticas geradas pela teoria anarco-comunista fazendo o resgate do anarquismo revolucionário proposto por Mikhail Bakunin.  Afirmava que os anarquistas deveriam se colocar a frente do processo e disputar de igual pra igual os rumos da revolução. Enquanto Nikiforova afirmava que:

“Os anarquistas não estão prometendo nada a ninguém. Os anarquistas só desejam que as pessoas sejam conscientes de sua situação e de que são donos de si mesmos para aproveitar a liberdade.”

Makhno afirmava:

“Sem disciplina a vanguarda revolucionária não pode existir, porque então ela se encontrará em completa desunião prática e será incapaz de formular as tarefas do momento, de cumprir o papel de iniciadora que dela esperam as massas.”

O estranhamento inicial de Nikiforova ao posicionamento de Makhno e a confiança depositada nos bolcheviques reflete não só a desorientação pela qual passava o movimento anarquista na Rússia, mas também no mundo. No caso de Mariucha se justificava ainda mais pelo fato de em diversos momentos de sua vida ter atuado várias vezes em conjunto com os comunistas e por possuir relações fraternas com atuais lideranças do partido, como Alexandra Kollontai e Vladimir Antonov-Ovseenko. Essa experiência prática estabelecia um laço de confiança. Além de ter sido influenciada pela posição passiva de Kropotkin, ela também foi influenciada pelas ideias conciliadoras do anarquista polonês Apollon Karelin que incentivou a participação dos anarquistas em instituições do estado soviético com o plano de, a longo prazo, direcioná-lo para uma agenda anarquista.

As posições de Nikiforova e Makhno expressavam explicitamente duas posições antagônicas dentro do anarquismo: uma que dizia que os anarquistas deveriam atuar apenas como apoiadores de maneira a estimular a consciência popular rumo ao socialismo sem estado; e outra que dizia que os anarquistas deveriam atuar enquanto linha de frente do processo revolucionário disputando-o. A divergência dessas duas concepções esteve presente durante todo o processo da revolução russa e perdura até hoje.

Por um breve período Nikiforova comandou um destacamento armado operando sob a bandeira da autoridade soviética sendo abastecida militarmente pelo comando bolchevique. Por sua vez, Makhno se dedicou a expandir sua influência na região e aumentar o efetivo do exército negro que já contava com aproximadamente 20 mil combatentes nesse período. Ambos atuaram militarmente em conjunto na região no combate ao Exército Branco, pró-Czar e Ocidente, com a diferença de que o destacamento de Mariucha era subordinado ao alto comando dos Exército Vermelho.

Essa posição de subordinação começa a ser percebida e aos poucos a critica de  Makhno passar a ter cada vez mais sentido. Neste período Mariucha percebe como sua atuação fortalecida a centralização da política bolchevique centrada no exército vermelho. Em 26 de fevereiro de 1919 Mariúcha liderou uma ação conjunta com a guarda negra e um destacamento do Exército vermelho na tomada de Kamensk onde ela rendeu uma tropa alemã. Depois inesperadamente entregou todo armamento apreendido ao Exército Negro de Makhno como forma de reconciliação.

Por essa insubordinação ela acabou sendo presa por ordem do soviete local sendo transferida para Moscou sob a falsa acusação de motim e saques na cidade, ficando detida na prisão de Butyrki (onde Makhno tinha passado alguns anos). Logo ganhou o direito de responder em liberdade graças a intervenção do bolchevique Antonov Oyvseyenko e do anarco-comunista polonês Apollon Karelin (na época membro governo soviético) que se comprometeram em garantir o seu bom comportamento na condicional. Nikiforova foi julgada pelo governo soviético sob a acusação de insubordinação e motim, sendo absolvida no primeiro julgamento graças aos soldados vermelhos que testemunharam em sua defesa e também a intervenção de Antonov Oyvseyenko que telegrafou uma carta elogiando suas atividades revolucionárias a serviço do governo soviético. No entanto, foi imposto um novo julgamento sem dar direito de defesa legal e Mariucha foi proibida de ocupar um cargo político e militar durante um ano.

Então ela retorna para o sudoeste da Ucrânia que agora era uma região autônoma sob controle total do Exército Negro Makhnovista que a recebe de braços abertos. Makhno decide não desobedecer a sentença e não lhe nomeia para uma posição no Exército Negro para não pôr em risco a paz com os bolcheviques, e então ela passa a atuar sem “cargos formais”, fazendo atividades de ação e propaganda. Em seu livro de memórias Makhno lembra do episódio do julgamento:

“Devemos dizer a verdade: os bolcheviques são bons na fabricação de mentiras e de toda sorte de vilania contra os outros(…) É por isso que as autoridades bolcheviques ucranianas apressaram-se em agir contra a anarquista Nikiforova, a fim de encontrara-la juntamente com seus destacamento no Exército vermelho.”

Nesse período o clima já vinha tenso entre Makhnovistas e bolcheviques, pois em julho de 1918 houve uma deserção em massa de 40 mil soldados do Exército Vermelho na Crimeia, devido uma campanha de agitação anarquista. Alguns membros do alto comando bolchevique haviam começado uma campanha ideológica acusando os anarquistas de serem bandidos e contrarrevolucionários. No entanto, a perda do efetivo militar liderado por Nikiforova, a grande agitação anarquista desmascarando o seu julgamento e a execução de sete Makhnovistas ordenada pelos bolcheviques foram os reais motivos para o Exército Vermelho iniciar uma ação militar com objetivo de eliminar os anarquistas da Rússia e continuar a centralização do poder em Moscou sob controle dos bolcheviques.

A intenção de aniquilação dos adversários políticos pode ser visto no seguinte  telegrama emitido por Leon Trotsky:

“Presidente RVSR LD Trotsky Conselho Militar Revolucionário do segundo exército ucraniano

3 de junho de 1919

1. O objetivo primordial do 2º Exército ucraniano é a destruição da organização militar dos makhnovistas, sendo que este problema deverá ser resolvido no mais tardar até 15 de junho.

2. Para esse efeito, com a assistência do Conselho Militar 2º Exército ucraniano imediatamente abrimos ampla agitação contra a Makhnovshchina para preparar a opinião pública, do exército e das massas trabalhadoras para a eliminação completa do exército de Makhno.

3. Emissão de dinheiro, munições e de todo equipamento para Sede militar para Cessar Makhno imediatamente e completamente sob pena de responsabilidade direta da mesma.

4. Como força militar para eliminar a Makhnovshchina e consolidar a área de extrema-direita da frente sul, em primeiro lugar está prevista: regimentos de cavalaria, regimento de infantaria, um destacamento de cadetes em trem e um destacamento especial.

5. Para área de Makhno deve ser imediatamente enviados trabalhadores qualificados e experientes para exploração de um impacto correspondente na opinião dos soldados e camponeses, que hoje estão sujeitos à influência da Makhnovshchina.

6. A Eliminação da Makhnovshchina deve ser levada a cabo com determinação e firmeza e sem demora ou hesitação. “

A ordem de Trotsky deve-se ao fato de que boa parte dos soldados vermelhos e dirigentes bolcheviques da Ucrânia viam o território livre dos makhnovistas como exemplo de organização autônoma dos trabalhadores, do autogoverno das trabalhadoras e trabalhadores. Era, portanto, perigosa para intenções de centralização de poder a partir de Moscou por parte dos bolcheviques. Essa visão se confirma nos relatórios das fiscalizações realizadas por representantes do próprio governo soviético.

A ação de eliminação do exército negro ordenada pelo líder do Exército Vermelho foi colocada em prática traiçoeiramente. Os bolcheviques aproveitam uma nova ofensiva militar do Exército branco contra o território livre e forjaram falsas acusações contra os sovietes da região e lançam uma ofensiva militar com o objetivo de varrer o anarquismo da Ucrânia. Então os makhnoviastas são atacados de um lado pelos Brancos e do outro pelo Exército Vermelho. Para dar resposta ao cerco Mariucha recebeu 250 mil rubros para iniciar uma guerra clandestina nos territórios inimigos através de três células terroristas compostas por membros do setor de contraespionagem makhnovista e por anarquistas de Moscou trazidos por seu companheiro, Witold Bzhostek .

O primeiro grupo foi enviado à Sibéria para explodir o quartel-general dos Brancos e foram eliminados. O segundo grupo foi para o norte de Kharkov explodindo uma bomba na reunião do Comitê do Partido Bolchevique de Moscou matando 12 e ferindo 55 membros proeminentes do partido. O terceiro grupo (o qual pertencia Mariúcha e Bzhostek) foi para Crimeia com a intenção de explodir a sede do líder do exército nacionalista ucraniano do sul da Rússia.

Porém em 11 de agosto de 1919 Mariúcha e seu marido são capturados sendo fuzilados no dia 16 de setembro de 1919. De acordo com repórteres durante o julgamento Mariúcha teve uma atitude desafiadora e só se emocionou momentaneamente quando disse adeus a seu companheiro Witold Bzhostek. Enquanto Mariucha tombava junto com Bzhostek, na Ucrânia seus camaradas realizavam uma façanha histórica ao expulsarem Brancos e vermelhos de seu território.

A saga dessa grande lutadora prossegue viva. Uma lenda camponesa diz: Mariucha se levanta de sua tumba para matar os tiranos e impor a justiça na terra. Essa tal lenda de uma guerreira imortal se justifica pelo fato de que em diversos conflitos armados na região, várias mulheres resgataram sua memória utilizando o codinome Mariucha. Porém, o legado de Nikiforova permanece obscuro na história da revolução russa e do anarquismo até hoje. Mesmo ela tendo uma atuação singular sendo a única mulher no comando de um exército dos mais ativos naquele período de defesa da revolução. São poucos os regastes feitos sobre sua vida. E desses poucos, uma boa parte se limita a explorar especulações desnecessárias sobre sua sexualidade ou até mesmo sobre sua sanidade mental.

Maria Nikiforova foi uma mulher que em pleno início do século XX lutou ombro a ombro com companheiras e companheiros enfrentando de igual pra igual os inimigos no campo de batalha. Mariucha foi uma mulher que não precisou nem de aval de marido, de espaços segregados ou do Estado. Sua história é maior que as calúnias e as especulações oportunistas.

Não Esquecemos, Não Perdoamos!
Mariucha Vive!

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