A 5ª Marcha das Margaridas e os destinos do sindicalismo rural

A Marcha das Margaridas pretende dar visibilidade à luta das mulheres do campo e hoje mobiliza milhares. Mas este “mérito” possui fortes contradições: a política governista da Marcha encobre as medidas anti-povo do petismo no campo, incluindo mortes de camponeses e indígenas. Além disso, a Marcha é financiada pela burguesia. Todo potencial da luta das mulheres acaba sendo “domado”.


A 5ª Marcha das Margaridas e os destinos do sindicalismo rural

Encerramento da 5ª Marcha: presença ilustre de Dilma no Estádio Nacional, Brasília. A Presidente não foi sequer criticada por “barrar” reforma agrária.

Nos dias 11 e 12 de agosto, ocorreu em Brasília a 5ª Marcha das Margaridas, organizada pela CONTAG (Confederação Nacional das/os Trabalhadoras/es da Agricultura – dirigida pelo PCdoB e PT). Estima-se participação de mais de 30 mil mulheres de todo o Brasil. Apesar desta mobilização e do marketing de atores “globais”, de deputados e sindicalistas, ficou claro que a política governista da CONTAG acaba por desviar a luta das mulheres do campo para a conciliação com seus inimigos de classe: governo e latifúndio.

Um sindicalismo financiado pelo Estado e pela burguesia

A abertura e encerramento da Marcha das Margaridas foi marcada pela saudação de entidades e parlamentares governistas (CUT, PT, PCdoB), deputados do PSB, PMDB e outros partidos burgueses. Também houve falas oficiais do Ministério do Desenvolvimento Agrário e do Governo do Distrito Federal. O momento central foi o discurso do ex-presidente Lula na a bertura, e o da presidente Dilma no encerramento.

Porém, pouco ou nada se ouviu sobre a luta pela terra, o corte de verbas do MDA, a concentração fundiária, os assassinatos no campo ou da luta pelos direitos das mulheres camponesas. O palanque era para os políticos venderem suas ilusões, reforçando o mito do “golpe” e, logo depois, usar este medo para defender o governo Dilma e a “democracia”.

Além de deputados e artistas, a burguesia financeira e industrial apoiou a Marcha e a patrocinou: Banco do Brasil, BNDS, Caixa Econômica, SESI, Governo Federal. Além disso, contou com apoio da ONU, Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (UE) e outros organismos internacionais da burguesia. A Marcha demonstrou assim a integração da CONTAG no sistema estatal-capitalista.

Ninguém se atreve a falar a verdade sobre a luta de classes no campo

Pelas características da Marcha e posturas da CONTAG em outros momentos (apoio ao Novo Código Florestal, conciliação de classes no setor sucroalcooleiro, etc.) não era de se esperar sua honestidade frente a situação atual dos trabalhadores e povos do campo.

Está em curso no Brasil, especialmente na década de governos do PT, um novo projeto desenvolvimentista. Esse projeto é parte do capitalismo mundial e busca atender interesses de frações burguesas. Entra aí os grandes projetos de mineração, infraestrutura, megaeventos, usinas hidrelétricas, modernização e integração das forças repressivas. Além disso, um ponto central tem sido a “modernização do latifúndio”, ou seja, o agronegócio.

Tudo isso fez parte dos quatro mandatos do PT. Tudo isso tem significado o massacre, a perda de terra e território, a perda da autonomia, o aumento da exploração e submissão dos camponeses ao poder do agronegócio, enfim, tem significado a desesperança e o sofrimento dos povos do campo.

Para piorar, pouco ou nada tem sido falado dos efeitos do ajuste fiscal sobre os povos do campo. Podemos citar algumas medidas: impedir a expropriação da propriedades com trabalho escravo (em nome do “direito à propriedade”!), retirada de direitos dos pescadores (MP 665), desconsiderar o tempo de transporte como tempo de trabalho (MP 668), relativizar a exposição ao sol e o trabalho pesado para retirar benefícios dos assalariados rurais e aumentar as taxas de superexploração, corte de quase 50% das verbas do Ministério do Desenvolvimento Agrário, dentre outras. Enquanto isso, o governo repassará R$ 187,7 bilhões via Plano Safra 2015/2016 ao agronegócio. Outros ataques tem sido conduzidos pelas mãos sujas de sangue da ministra Kátia Abreu!

A Marcha foi a defesa velada desse projeto, encobrindo suas verdades, jogando corpos para debaixo do tapete, minimizando o sofrimento de indígenas, acampadas/os, mulheres, assalariadas rurais escravizadas. Para as burocracias do sindicalismo rural existe interesse em manter a governabilidade de Dilma, em manter essa mentira. Mas para cada mulher e homem do campo, defender esse projeto é suicídio! Lutar contra o governo, contra os exploradores é uma questão de sobrevivência!

O feminismo burguês: uma política da burocracia sindical-partidária

Um aspecto ideológico que tem ganhado importância na política governista é a defesa de um feminismo burguês. A intenção é neutralizar as críticas ao governo Dilma ao tentar transformar a vitória de uma mulher para a Presidência da República em uma vitória de “todas as mulheres”. O caráter burguês dessa “concepção feminista” é justamente não questionar as estruturas de poder e exploração do capital e do Estado brasileiro. Seja com a eleição de Dilma, com a eleição de deputadas, ou com mais empresária e policiais mulheres, o caráter explorador e opressor da sociedade capitalista não se modifica, apenas aumenta-se a ilusão de que essa democracia burguesa é “representativa”.

*Texto publicado no Causa do Povo nº73 – Set/Out/Nov de 2015

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