VIA COMBATIVA | A Instrução Integral e a crítica bakuninista a pedagogia libertária

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vc3aUNIÃO POPULAR ANARQUISTA.A Instrução Integral e a crítica bakuninista a pedagogia libertária. Via Combativa, Brasil, Nº 03, p. 4-10, janeiro de 2011.


A Instrução Integral e a crítica bakuninista a pedagogia libertária

1. A Instrução Integral

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Chave de boca e lápis: união entre trabalho manual e intelectual

A Educação é uma peça-chave para a humanidade sair cada vez mais da sua condição de animalidade e rumar para sua liberdade. A educação enquanto sistematização do pensamento é um processo que concatenado com o trabalho conforma as bases da sociedade socialista futura para Mikhail Bakunin.

Esse modelo educacional, que conforma o conhecimento teórico e o saber prático do mundo do trabalho foi denominado pelo Revolucionário de instrução integral e visa à junção entre o trabalho e a educação. Pois para o pensador russo a escola deve abarcar a esfera das ciências propedêuticas e o contato com trabalho laboral. Só por meio dessa instrução integral a sociedade conseguirá formar homens integrais que possam desenvolver tanto a ciência como trabalhos braçais/industriais.

“A instrução deve ser igual em todos os graus para todos; por conseguinte, deve ser integral, quer dizer, deve preparar as crianças de ambos os sexos tanto para a vida intelectual como a vida do trabalho, visando a que todos possam chegar a ser pessoas completas.” (BAKUNIN, 2003, p. 78)

A instrução integral seria desta forma, a possibilidade proposta por Bakunin, da formação que abarcasse a instrução intelectual e manual. O modelo educacional que não aumentasse o fosso entre os que pensam e os que trabalham na humanidade. Um modelo educacional que possibilitasse a todos desde sua tenra infância o contato equitativo com o saber teórico, e o trabalho manual, que seria, para o autor, também um saber prático.

A instrução integral é o conceito central de Bakunin no que se refere à educação. Neste, o autor vai defender que a igualdade entre os homens só pode existir de fato quando todos tiverem acesso à mesma instrução. A instrução integral se constitui pela junção diária entre formação manual e formação intelectual.

Assim, para Bakunin, o trabalho é um princípio educativo e a escola deve tê-lo como guia curricular. O trabalho como elemento criador/ontológico deve ser a base dessa educação em consonância com as bases propedêuticas, ou seja, a base científica e o conhecimento historicamente sistematizado pela humanidade.

2. A impossibilidade de uma educação emancipadora em uma sociedade de classes

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Influenciada pelos desdobramentos políticos e organizativos da AIT, a primeira Revolução Proletária e Socialista da história, a Comuna de Paris, decreta a Intrução Integral como base da Igualdade Social. Afirmando e aplicando: “Considerando que é importante que a Revolução Comunal afirme seu caráter essencialmente socialista por uma reforma do ensino, assegurando a todos a verdadeira base da igualdade social, a instrução integral a que cada um tem direito e facilitando-lhe a aprendizagem e o exercício da profissão para a qual o dirigem seus gostos e aptidões. Considerando, por outro lado, que enquanto se espera que um plano completo de ensino integral possa ser formulado e executado, é preciso decretar as reformas imediatas que garantam, num futuro próximo, essa transformação radical do ensino; A delegação do ensino convida as municipalidades distritais a enviar (…) as indicações e as informações sobre os locais e estabelecimentos melhor apropriados à pronta instituição de escolas profissionais, onde os alunos, ao mesmo tempo que farão a aprendizagem de uma profissão, completarão sua instrução científica e literária.” (Decreto sobre o Ensino, Comuna de Paris, 17 de maio de 1871.)

Entretanto, no capitalismo, a partir da divisão social do trabalho imposta pela apropriação da força de trabalho da burguesia sobre o proletariado, ocorre uma fissura entre ação e pensamento, entre educação e trabalho. Fica impossibilitado no regime do capital a efetivação de uma sociedade que tenha acesso igualitário ao saber teórico e prático, ao que Bakunin denominou de Instrução Integral, pois no capitalismo não ocorre a concatenação entre trabalho e educação, dado que a minoria pequeno-burguesa/burguesa estuda e executa funções de controle na sociedade enquanto a massa proletária executa apenas funções laborais. Ao falar sobre o abismo entre as classes sociais e a ilusão de que a Educação formal poderia dar elementos para as massas superarem sua condição de exploração, Bakunin afirmara:

“É também em vão que alguém se esforçaria em se persuadir que este abismo poderia ser preenchido pela simples difusão das luzes nas massas populares. É muito interessante fundar escolas para o povo; mas é preciso se perguntar se o homem do povo, vivendo o dia-a-dia e alimentando sua família com o trabalho de seus braços, ele próprio privado de instrução e lazer, e forçado a se deixar abater e embrutecer pelo trabalho, para assegurar aos seus o pão do dia seguinte, é preciso se perguntar se existe pelo menos o pensamento, o desejo e mesmo a possibilidade de enviar suas crianças à escola e de sustentá-las durante todo o tempo de sua instrução” (BAKUNIN, 1988, p.16)

Assim, para Bakunin, a divisão entre a minoria burguesa que estuda e executa as funções de controle e poder sobre a grande massa proletária que executa apenas as funções laborais impede a efetivação da Instrução Integral, já que os burgueses não trabalham e até se apropriam indevidamente do trabalho do proletário, e o proletário não tem acesso ao conhecimento elaborado/sistematizado.

O capitalismo assim estabeleceu um fosso entre os que estudam e os que exercem funções laborais. No capitalismo, dessa forma, ocorre uma fissura que lhe é inerente, a divisão entre trabalho e educação, ação e pensamento, que invalida a uma possibilidade de uma igualização de funções na sociedade do capital.

Porém a condição prévia da instrução integral é a emancipação econômica das massas trabalhadoras, pois a atual divisão social do trabalho impede que os trabalhadores tenham tempo e condição para estudarem de modo qualitativo.

Para que a instrução integral vigorasse seria necessária, como condição, primeiramente, a emancipação econômica das massas trabalhadoras. Pois dentre outros motivos a atual divisão social do trabalho impede a instrução integral, já que os trabalhadores tem uma longa jornada de trabalho o que, por sua vez, impossibilita o contato pleno destes com universo científico, da mesma forma que desinteressa a burguesia que seus filhos executem funções laborativas na atual condição de exploração do trabalho.

“É evidente que a questão tão importante da instrução e da educação populares depende da solução desta outra questão, bem mais difícil, que é uma reforma radical nas condições atuais das classes operárias. Restabelecei as condições do trabalho, devolvei ao trabalho tudo aquilo que segundo a justiça cabe ao trabalho, e, em consequência, dai ao povo a segurança, a facilidade, o lazer, e, então, acreditai-me, ele se instruirá, ele criará uma civilização mais ampla, mais sã, mais elevada do que a vossa” (BAKUNIN, 1988, p.17).

Por isso, dentre outros motivos já expostos, a condição de aplicabilidade da instrução integral é a emancipação econômica, que nas palavras de Bakunin é a emancipação primeira no qual deriva todas as outras. Assim uma educação equitativa, a instrução integral, decorre em primeira instância da equidade das condições materiais de existência via emancipação econômica.

A educação na sociedade de classe, para Mikhail Bakunin, constituiu-se como forte elemento de dominação e manutenção da burguesia sobre o conjunto do proletariado. Ao passo que divide a sociedade entre aqueles que se apropriam do conhecimento e executam funções de direção na sociedade, e aqueles que, ou têm a educação negada ou aprendem o suficiente para venderem sua força de trabalho.

O pensador russo, defensor da emancipação do trabalho e da construção do socialismo, entende a relação com a educação de maneira contraditória. Sabendo diferenciar o papel de uma educação em uma sociedade de classes, do papel da Educação para além do mundo da exploração, procura salientar que a Educação escolar na sociedade de classes garante o poder da burguesia e não é uma saída para a emancipação do povo.

O conhecimento e a ciência concentrados nas mãos de poucos, no caso a burguesia, serve como instrumento de manutenção da divisão de classes e escravização do proletariado. Sendo assim, para Bakunin, não se poderia defender o desenvolvimento da ciência sem saber a que fim esta se destina.

“Aquele que sabe mais dominará naturalmente aquele que sabe menos; e se existir entre duas classes apenas esta diferença de educação e de instrução, esta diferença produzirá em pouco tempo todas as outras, o mundo humano voltará ao seu estado atual, isto é, será dividido de novo numa massa de escravos e num pequeno número de dominadores, os primeiros trabalhando, como hoje, para os segundos” (BAKUNIN apud SADDI, 2009, p.13).

O monopólio do conhecimento, das ciências e da Educação, é para Bakunin um instrumento de coerção da burguesia sobre o proletariado. Ao passo que a burguesia se instrui, mas ao proletariado é restrito o acesso ao conhecimento, assim maior ainda será a dominação de classe e o fosso entre os que pensam e os que trabalham.

Bakunin se opôs aos preceitos educacionistas de Lavrov, um contemporâneo seu que fazia parte de um setor do Populismo russo e que desenvolveu uma campanha educacionista que teve grande adesão da juventude, contrapondo a ideia de que a educação escolar no campo seria um meio de libertação e de emancipação do povo pobre e analfabeto rumo ao socialismo no interior da Rússia. Bakunin assim demonstra sua divergência ironizando Lavrov:

“É verdade, se a instrução do povo fosse a condição prévia de sua emancipação, todos os povos, sem exceção, estariam então condenados a uma servidão sem saída e sem fim: permaneceriam na ignorância, em razão de sua servidão, e nessa servidão, em razão dessa ignorância” (BAKUNIN, 2009, p.71).

A educação, para Bakunin, não estaria portanto distanciada de outras questões sociais, constituindo-se assim a parte dos problemas sociológicos que os rodeiam. Não bastava apenas, como acreditava esse setor do populismo russo, que fosse dada ao povo uma educação escolar e este se libertaria, pois o problema educacional estava inserido em uma totalidade social e era preciso resolver as demandas econômicas. Assim: “É evidente que a questão tão importante da instrução e da educação populares depende da solução desta outra questão bem mais difícil, que é uma reforma radical nas condições econômicas atuais das classes operárias.” (BAKUNIN, 1988, p.17).

Para Bakunin, o conhecimento livresco/literário não era condição prévia do povo para a sua emancipação. Pois se o fosse o povo nunca estaria em condições subjetivas de se elevar contra o capital mesmo sendo superexplorados, pois não teriam sequer tempo para terem acesso à ciência/Educação.

A grande massa, o povo, mesmo sendo, em sua maioria, no século XIX, na Rússia, semifeudal e no restante da Europa iletrados, tinha o conhecimento material/objetivo sobre sua própria condição de explorado/oprimido, possuía assim, um conhecimento que lhe era próprio por conta de sua condição material de existência e isso lhe forneceria uma solidariedade que poderia dar início para a empreitada pela sua libertação, como nos adverte Bakunin: “Há no povo bastante força espontânea; esta é incomparavelmente maior que a força do governo” (BAKUNIN, 2009, p.67).

Como podemos observar, para Bakunin o povo não necessita de instrução científica para se emancipar. Pois há no povo uma força espontânea, força essa ligada à solidariedade na esfera do mundo do trabalho e dos laços sociais construídos por vínculos comunitários. Essa solidariedade/força é um conhecimento adquirido pelos costumes em comum, pelas tradições dos povos e por relações culturais.

“Do ponto de vista dos conhecimentos livrescos, o homem do povo mais inteligente aparentará um simplório comparado ao primeiro jovem inexperiente e pretensioso recém-saído da universidade, comparado a qualquer imbecil diplomado. Por esse motivo, aqueles que tomam por critério da capacidade política do povo seu grau de instrução, devem acabar por se convencer que nenhum povo no mundo ainda está em condição de dirigir-se a si mesmo e que cabe às classes instruídas governá-lo” (BAKUNIN, 2009, p. 69).

A instrução e a Educação do povo estariam submetidas, dentre outros elementos, como o fim da divisão social do trabalho, a um problema muito mais geral como a necessidade de uma revolução social e/ou uma reforma econômica organizadas pelas massas populares.

Dessa forma, mesmo Bakunin sendo um estudioso dos métodos científicos, confere ao povo um conhecimento/sabedoria que lhe é próprio. E que o grau de instrução acadêmica não é um fator determinante para libertação desse povo, pois há no povo um conhecimento que lhe é próprio.

“A vida, a evolução, o progresso do povo, pertencem, de forma exclusiva, ao próprio povo. Este progresso não se realiza, é evidente, por meio de estudos livrescos, mas sim por um aumento natural da experiência e do pensamento; transmitido de geração a geração, o progresso evolui por necessidade, desenvolve sua própria substância.” (BAKUNIN, 2003, p.245).

O povo através de seus costumes em comum, de suas tradições de resistência, solidariedade e luta possuem um conhecimento que lhe é inerente por sua condição de vida, por suas condições materiais de existência. Uma espécie de sabedoria popular fruto de suas relações/experiências comunitárias e/ou das relações de trabalho. Um saber fruto da tradição e dos costumes que origina uma consciência histórica/comunitária e saberes específicos referentes a um determinado grupo.

Assim cada povo possui características próprias referentes aos seus traços fisiológicos/étnicos, político-sociais e culturais. Cada grupo, por suas características e costumes em comum e por sua consciência histórica coletiva são mais do que a soma de individualidades, são um povo, que por esta mesma consciência, a vontade popular, possui saberes específicos distintos, nem inferior/superior ao da ciência moderna. Mas saberes específicos próprios que atrelados a determinadas consciências históricas de resistência podem desencadear a negação do Estado/Capital.

“Cada povo é um ser coletivo, possuindo sem dúvida propriedades tanto fisiológico-psicológicas, quanto política-sociais, particulares que, distinguindo-o de todos os outros povos, o individualizam de uma certa maneira; mas não é jamais um indivíduo, um ser indivíduo, um ser único e indivisível, no sentido real desta palavra. Por mais desenvolvida que seja sua consciência coletiva e por mais concentrada que possa se achar, no momento de uma grande crise nacional, a paixão, ou o que se chama de vontade popular na direção de um único objetivo, nunca esta concentração alcançaria a de um indivíduo real” (BAKUNIN, 1988, p.50).

A vontade popular para Bakunin seria a objetivação da consciência coletiva de um determinado grupo, a objetivação da subjetividade de uma comunidade específica a fim de conquistar uma demanda comum. A vontade popular enquanto consciência histórica objetivada é a síntese dos saberes populares adquiridos pela tradição/costume em comum a fim de alcançar um objetivo específico.

Ao analisarmos a questão da educação escolar em Bakunin se apresenta a questão da divisão social do trabalho, que no capitalismo impede a universalização escolar. Pois a divisão social do trabalho no regime do capital impõe aos trabalhadores, longas e cansativas jornadas de trabalho que os impedem de ter o mesmo acesso/permanência à educação do que os setores burgueses. Ao criticar os socialistas burgueses que defendiam a instrução das massas como condição prévia para sua emancipação, Bakunin afirmava:

“Vocês deixam que o povo se esgote com o seu trabalho cotidiano e em sua pobreza e então dizem: ‘Instruam-se!’ Gostaríamos de ver como vocês instruem o povo e seus filhos depois de 13, 14 ou 16 horas de trabalho embrutecedor, com a miséria e a incerteza do amanhã como únicas recompensas. Não, senhores. Apesar de nosso grande respeito pela importante questão da educação integral, declaramos que não é isso o mais importante para os povos. Em primeiro lugar estão a sua emancipação política que engendra necessariamente sua emancipação econômica e mais tarde, sua emancipação intelectual e moral” (BAKUNIN, 2003, p.93).

A subordinação da emancipação econômica à instrução integral/formação humana não está vinculada a uma subordinação da esfera cultural à esfera econômica. Mas as próprias condições materiais de existência que determinariam a capacidade de estudo e cognição das massas trabalhadoras que possuem longas jornadas de trabalho. Até porque como já vimos, para Bakunin as massas possuem uma sabedoria própria fruto da existência/solidariedade dos seus laços comunitários e/ou das suas relações de trabalho.

As condições materiais de existência dos trabalhadores por conta da sua condição da longa jornada de trabalho e a condição de miséria a qual estava submetido a estes e à sua família seria um elemento fundamental na análise de Bakunin para se compreender a impossibilidade da universalização da educação na sociedade do capital. Dessa forma, a emancipação econômica seria um elemento que deveria anteceder à emancipação intelectual e moral.

“Sim, não há dúvida de que os operários farão todo o possível para obterem tanta instrução quanto possam nas condições materiais em que atualmente se encontram. Mas, sem se deixarem dissuadir pelos cantos de sereia de burgueses e socialistas burgueses, concentrarão seus esforços, antes de mais nada, nesta importante questão de sua emancipação econômica, que deve ser matriz de todas as demais emancipações” (BAKUNIN, 2003, p.94).

E o conhecimento livresco, por sua parte, distanciado de quaisquer necessidades que o povo precise, não é apenas desnecessário para que esse povo se emancipe, bem como lhe é nocivo quando o intuito lhes é governar, quando se origina das necessidades burguesas. A ciência, portanto, não deve estar acima do conhecimento e sabedoria criadora do povo. E a escola enquanto reprodutora da ciência burguesa não pode ser propulsora da revolução.

Bakunin faz uma analogia emblemática ao falar sobre a criação artística, que não esperou a ciência criar as leis da criação poética para existir, com o poder criativo do povo: “Mais os povos que criam sua história não são, provavelmente, menos ricos de instinto, nem menos poderosos criadores, nem mais dependentes dos Srs. Cientistas que os artistas!” (BAKUNIN, 1988). Pois há no povo um poder criador que não precisa da certificação da ciência para poder existir.

A emancipação do povo sob o jugo do capital não passa, portanto, pelo conhecimento acadêmico livresco/escola, pois o próprio povo pela sua experiência e saber coletivo podem desenvolver aptidão/vontade para negarem o capital. Ainda que a libertação/emancipação completa do povo seja necessária o domínio da ciência, essa não lhe é necessária para a destruição do Estado/Capital.

“Os instrutores, os professores, os pais, todos são membros desta sociedade e estão mais ou menos embrutecidos e desmoralizados por ela. Como é que iriam dar aos alunos aquilo que a eles mesmos falta?! Só se prega bem a moral com o exemplo, e sendo a moral socialista, completamente contrária à moral atual, os mestres, necessariamente dominados mais ou menos pela última, fariam diante de seus alunos o contrário do que pregariam. Portanto, a educação socialista é impossível nas atuais escolas e nas atuais famílias. Mas a educação integral nesta sociedade é igualmente impossível: os burgueses não compreendem que seus filhos se tornem trabalhadores, e os trabalhadores estão privados de todos os meios para dar a seus filhos uma instrução científica.” (BAKUNIN, 2003, p.92).

3. O Anarco-Comunismo e o revisionismo dos pressupostos materialistas do Anarquismo

3A morte de Bakunin em 1876, imposibilitado de plena militância devido problemas de saúde, ocorreu em um contexto de refluxo político com o fim da AIT (Associação Internacional dos Trabalhadores) e a hegemonia do Império Prussiano no continente Europeu. No qual o massacre pós-Comuna de Paris ainda amedrontava muitos militantes e muitos outros movimentos seriam sufocados. Esse contexto reacionário, que Bakunin já previra em sua grandiosa obra O Império Knuto-Germanico e a Revolução Social, desorganizara todos aqueles setores que até pouco tempo atrás se organizavam na maior experiência de organização dos trabalhadores na História: A Associação Internacional dos Trabalhadores.

A crise de organização política e de massas que abateu os revolucionários nesse período, atingiu em cheio o Anarquismo. Os pressupostos e as teses de Bakunin, que até então guiavam hegemonicamente os setores de massa principalmente dos países latinos europeus serão revistos e revisados. Ainda que se conheça como o primeiro folheto que explicita a corrente Anarco-comunista escrito em 1876 por Dumartheray (Luizetto, 1984), ano de morte de Bakunin, foram Reclus e Kropotkin os principais formuladores teóricos e propagandeadores do anarco-comunismo. São, portanto, os principais revisionistas do anarquismo materialismo Bakuninista.

A reformulação no termo Comunista em oposição ao Coletivismo de Bakunin, deve-se a critica sobre papel da categoria trabalho na sociedade. Conceito esse central para Bakunin e pelos os Coletivistas os quais acreditavam que os bens produzidos pela sociedade deveriam ser repartidos de acordo com o trabalho de cada um. O lema coletivista é: “A cada um conforme o seu trabalho”. Dessa forma, o trabalho dispendido seria uma categoria que permitiria medir/aferir os frutos de cada um sobre o processo produtivo, mas concebendo a todos os instrumentos e os meios do trabalho.

A crítica de Kropotkin ao Coletivismo de Bakunin, o qual desembocará em diversas outras, dar-se no seu principal livro “A Conquista do Pão” que até hoje é o livro mais conhecido na bibliografia anarquista. O centro dessa critica é a centralidade do trabalho no processo social que os coletivistas propunha e que Kropotkin propôs superar, vejamos:

“‘À cada um segundo suas obras’, dizem os coletivistas, ou seja, segundo sua parte de serviços prestados à sociedade. E tal princípio se recomenda para pôr-se em prática quando a revolução tenha posto em comum os instrumentos de trabalho e tudo o necessário para a produção! Pois bem; se a revolução social tivesse a desgraça de proclamar este princípio, seria impedir o desenvolvimento da humanidade; seria abandonar, sem resolvê-lo, o imenso problema social que nos legaram os séculos anteriores. Efetivamente, numa sociedade como a nossa, onde vemos que quanto mais trabalha o homem menos se lhe retribui, este princípio pode parecer ao cedo como uma aspiração para a justiça. Mas no fundo, nada mais é do que a consagração das injustiças do passado. Por esse princípio começou o assalariamento, para vir parar às odiosas desigualdades e abominações da sociedade atual.” (KROPOTKIN, 2012 p.68)

Kropotkin que tinha por base uma teoria darwinista social, no qual a humanidade chegaria naturalmente ao socialismo através do apoio mutuo, não conseguiu compreender a duplicidade da categoria trabalho que ao mesmo tempo no capitalismo domina e uma outra sociedade pode libertar. Essa limitação está relacionada na negação de Kropotkin também ao Materialismo e a Dialética (presentes em Bakunin).

O lema Anarco-Comunista de: “Cada um conforme suas possibilidades a cada um conforme suas necessidades” reformulou o principio central de aferimento social do coletivismo, o trabalho, substituindo pelo termo pressuposto “necessidade”. Como já vimos, o trabalho, para Bakunin, é uma categoria que funda o mundo do homem enquanto homem e permite sua formação em sociedade. Quebrar o estabelecimento do pressuposto da categoria trabalho no processo produtivo humano, pelo termo vazio de conteúdo e desconexo, como “necessidade”, foi o primeiro importante passo de levar o Anarquismo para o campo idealista e afastado da luta de classes.

O argumento anarco-comunista relatava que a centralidade do trabalho no processo produtivo iria supostamente criar, depois da revolução socialista, um regime de assalariamento. Os anarco-comunistas esquecem que a propriedade privada e a produção de mercadorias (inclusive o dinheiro) teriam sido destruídas. Mas a crítica a centralidade do trabalho é rebatida com o critério da “necessidade”, de forma que essa regulação da necessidade não é clara. Podemos, então, indagar como seria estabelecido o quantum “necessário” a cada um, da mesma forma como seria aferido essa “possibilidade”.

“E se apressam a atemperas seu princípio, dizendo: ‘Sim; a sociedade criará e educará a seus filhos! Sim!; assistirá aos velhos e inválidos! Se, as necessidades serão a medida dos gastos que a sociedade se imporá para atemperar o princípio das obras!’ De maneira que, depois de ter negado o comunismo e ter-se burlado a suas largas da fórmula: ‘A cada um segundo suas necessidades’, saímos também com que aos grandes economistas se lhes esqueceram – pouca coisa – as necessidades dos produtores. E se apressam a reconhecê-las. Só que ao Estado lhe incumbirá apreciá-las, comprovar se as necessidades são desproporcionadas com as obras. O Estado dará esmola” (KROPOTKIN, 2012, p. 69; p.70)

Esses pressupostos levaram o anarquismo a cair em um abstracionismo idealista que pode ser comprovado pelos grandes eventos Históricos. Na Revolução Russa de 1917, os anarco-comunistas limitavam-se a ocupar casarões burgueses e oferecer sopão ao povo em tempo de guerra, sem nenhuma perspectiva de tomar a produção burguesa e de gerir os meios de produção, mas apenas valendo do que era “necessário” a cada um.

A negação da centralidade do trabalho e da dialética que são, ao nosso ver, indissociáveis ao socialismo revolucionário anarquista, teve como consequência prática uma defesa de Kropotkin de que a humanidade poderia chegar “naturalmente” ao socialismo e de que a Educação (esclarecimento) seria peça-chave nesse processo.

É assim que em 1898 os principais nomes do Anarco-Comunismo (Kropotkin, Reclus dentre outros) criaram um comitê de iniciativa para a Instrução Integral no qual tinha por base a ideia de que a educação (inclusive a formal) seria a mola propulsora para a superação do capitalismo. Como podemos ver na carta de tal comitê:

“O ensino pode ser o mais importante motor do progresso pela diferença direta que ele exerce sobre a eclosão das ideias e sua direção ulterior. Pode tornar-se a alavanca que erguerá o mundo e destruirá para o sempre o erro, a mentira e a injustiça. Seu alcance pode ser imenso, sua missão é nobre e elevada, pois ela deve ter por fim a emancipação da humanidade” (Sáfon, 2003, p.52)

Como vimos, os revisionistas do Anarquismo utilizaram o conceito de Instrução Integral de Bakunin, no qual seria a base da construção socialista da sociedade futura, e se apropriaram do termo renovando e deturpando de suas bases originais, afim de perseguir seus interesses educacionistas-reformistas na sociedade do capital. Educacionismo esse, como demonstramos, Bakunin combateu com veemência como vimos em sua polêmica com Lavrov.

4. Conclusão

Bakunin, coerente com sua proposta, propõe os princípios de uma educação escolar na transição para a sociedade socialista. Com a instrução integral sendo o alicerce desse modelo educativo, e por sua vez a escola como um dos pilares da nova sociedade, ela cumpriria o papel de efetivar a sociedade socialista.

“A instrução gratuita e obrigatória (para todos), depois as escolas primárias até as mais altas instituições de aperfeiçoamento, teórico e prático, nas ciências, nas letras, nas artes e nas indústrias – Sem outra reserva que a incapacidade absoluta qualquer estudante, e sem que a necessidade (e o direito) para cada um de escolher, depois do ensinamento geral, uma especialidade qualquer” (BAKUNIN, 2000, Sociedade Internacional Secreta da Revolução, Oeuvres Complètes, tradução nossa).

Para Bakunin, a escola integral na construção da sociedade socialista deve comportar as bases propedêuticas com o ensino das letras, ciências e artes e também o saber prático com o conhecimento industrial. Essa parte prática configurando ainda como parte do ensino e não como parte do trabalho, para que só atingindo a maior idade o jovem possa escolher e dedicar-se a uma profissão específica.

Como já observamos, Bakunin defendia um modelo educacional para todo o povo que pudesse integrar o trabalho intelectual e o trabalho manual, conhecimento teórico e trabalhos prático-manuais e/ou fabris. O homem, enquanto ser genérico, só exerceria sua humanidade se tivesse uma formação integral que abarcasse essas duas áreas complementares da formação humana.

“Quando o homem de ciência trabalhar e o homem de trabalho pensar, o trabalho inteligente e livre será considerado como o mais belo título da glória para o homem, como a base de sua dignidade, de seu direito, como a manifestação de seu poder humano sobre a terra; – e a humanidade será constituída” (BAKUNIN, 2009, p.53).

Dessa forma, para Bakunin o caminho da humanização passa pela construção do trabalho livre e inteligente, fruto da Instrução Integral. A instrução integral do homem, com todos desenvolvendo trabalhos teóricos e práticos, seria a construção da humanidade e o fim da escravidão. Pressupõe, assim, que a humanidade tenha superado a divisão entre classes, um trabalho futuro a se realizar após a emancipação econômica das massas trabalhadoras e fim da divisão social do trabalho capitalista. Mas ao mesmo tempo, e contraditoriamente, a Instrução Integral é uma condição para a efetivação do socialismo.

Como a citação explicita, é justa a reivindicação dos trabalhadores em obterem mais instruções nas condições materiais que se encontram, de longas jornadas de trabalho e pobreza extrema. Mas para aplicar a instrução integral necessitam aprioristicamente se emanciparem economicamente. A emancipação econômica é assim a base da emancipação intelectual.

A instrução integral seria, portanto, um devir-ser da educação, uma meta a ser defendida dentro do capitalismo, uma bandeira a ser empunhada, ainda que não possa ser aplicada nessa sociedade, mas construída efetivamente na sociedade que já realizou sua emancipação econômica. Um modelo não apenas complementar a emancipação das massas, mas necessário para a emancipação completa de todo o povo, na garantia da equidade de condições materiais e de aprendizado a todos, após o processo revolucionário.

A instrução integral é condição sine qua non da liberdade humana, pois só com esta que findará a divisão entre os que pensam e ocupam postos de comando na sociedade e entre os que apenas executam funções laborais. Para Bakunin era necessário criar condições para que todos os homens pudessem executar essas duas funções na sociedade. Assim muda-se concretamente a divisão social do trabalho.

As extensas jornadas de trabalho impedem o trabalhador de ter condições plenas de estudo. O burguês por sua parte, não quer se sujeitar à ação laboral. Há de se obrigar, portanto, que o homem das ciências trabalhe e possibilitar que o trabalhador laboral estude. Essa dupla ação resultaria na própria dissolução do burguês enquanto sujeito/conceito como tal, ao passo que sua condição de burguês resulta no comando das atividades laborais e não em sua execução prática.

A superação da atual divisão social do trabalho capitalista, no qual uns poucos exercem apenas funções de comando intelectual e uma grande massa exerce funções laborais/braçais, só irá ser possível quando os trabalhadores braçais puderem ter acesso ao saber elaborado e os intelectuais realizarem atividades braçais, de modo tal que permita o fim desse grande fosso entre os que comandam e os que trabalham.

O proletariado também se dissolveria enquanto tal, posto que teria/obteria/trabalharia para ter consciência/reflexão do trabalho que executaria, e dos frutos que obtivera em sua produção, superando o trabalho que lhe é indiferente/estranhado. Obtendo, assim, consciência de todo o processo de produção, da elaboração, da execução e do resultado de seu produto, refletindo sobre esse. Seria o fim do trabalho estranhado e do estranhamento social. O encontro entre produto e produtor.

A condição de existência dessa educação que pressupõe o fim da divisão social do trabalho tal como se entende hoje é simultaneamente resultado/resultante da superação da divisão entre as classes. A emancipação econômica seria sua condição primeira de existência. Mas para oferecer as oportunidades equitativas, mesmo que mantendo o princípio da alteridade, para superar definitivamente o abismo entre as capacidades de acesso ao conhecimento que separa hoje a humanidade, faz-se necessário a instrução integral como resultado/resultante, fruto/árvore do socialismo e da liberdade entre os povos.

“Com tal educação, igual para todos, com o culto do trabalho como única fonte de direitos e dignidade pessoal, e com a ajuda da potência da opinião pública esclarecida e purificada, os crimes serão uma rara exceção, uma doença, e você não precisará mais de prisões, nem de policiais, nem de carrascos” (BAKUNIN, 2000, Oeuvres Complètes, tradução nossa).

A emancipação econômica aliada à emancipação intelectual decorrente do processo da instrução integral seria a base da construção de uma nova sociedade, o fim da divisão entre os que apenas comandam/pensam e aqueles que apenas executam/trabalham, do fim dessa divisão e o início da instrução das massas decorre, para Bakunin, uma série de questões como a diminuição do crime, a construção criativa da humanidade etc.

O socialismo assim, que tem como condição prévia a Revolução Social e a emancipação econômica que essa provocaria, teria que, para permanecer e para se desenvolver e se efetivar de fato, acabar com a separação não apenas material que divide as classes, mas moral e cultural, consolidando e construindo a instrução integral como condição de efetivação da sociedade socialista futura.

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Bibliografia:

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_________________. O Catecismo Revolucionário. 2009.

_________________. Consideraciones filosóficas sobre el fantasma divino, sobre el mundo real y sobre el hombre Disponível em: <> acesso: 03/06/12 http://miguelbakunin.files.wordpress.com/2008/09/consideracionesfilo.pdf

_________________. Estatismo e Anarquia. Editora Imaginário. 2003

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_________________. Socialismo, Federalismo e Anti-teologismo. Editora Cortez . 1988.

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LUIZETTO, Flâvio Venâncio. Presença do anarquismo no Brasil: um estudo dos episódios literário e educacional – 1900/1920. São Paulo: USP ,1984 (Tese de Doutorado)

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