VIA COMBATIVA | Anarquismo e Questão Agrária

Para contribuir na formação política militante, estaremos relançando todas às sextas-feiras no site da Unipa os artigos de Via Combativa – uma revista de teoria política anarquista. Acompanhe!

vc3dUNIÃO POPULAR ANARQUISTA. Anarquismo e Questão Agrária. Via Combativa, Brasil, Nº 03, p. 22-27, janeiro de 2011.


Anarquismo e Questão Agrária

O debate sobre a questão agrária teve um lugar decisivo na história do socialismo e das revoluções. No campo do marxismo, este debate teve suas posições derivadas da posição de Marx, Engels, Kaustki e Bernstein na social-democracia e depois sendo reformulada por Lenin e Mao-Tse-Tung. Além dessas posições, um setor “nacionalista” e republicano também teorizou a questão agrária e o lugar dos camponeses na revolução (do qual o modelo foi o “populismo russo”). Seja para o marxismo, seja para o republicanismo nacionalista burguês, o campesinato sempre teve um lugar “instrumental” na política, como veremos.

Pouco se conhece sobre a contribuição decisiva do anarquismo e das teses coletivistas para a formação dos movimentos sociais camponeses e a luta dos trabalhadores rurais. E ao contrário do nacionalismo e da social-democracia, para o anarquismo o campesinato e os trabalhadores rurais cumprem um papel fundamental na revolução não somente como força de apoio, mas como sujeitos construtivos. Essa diferença na forma de entender a questão agrária e o lugar do campesinato na política revolucionária é um dos principais elementos a marcar a diferença entre bakuninismo e marxismo e entre a teoria anarquista da revolução e as concepções comunista e burguesa.

1 – Marx e Bakunin: o camponês como modo de produção arcaico X o trabalhador explorado

As diferenças sobre o lugar do campesinato e a questão agrária estão ligadas a todas as principais diferenças da teoria de Proudhon e Bakunin, para quem o campesinato constitui parte da classe trabalhadora, e Engels e Marx, para os quais o campesinato ou é parte de um modo de produção arcaico ou, quando unidade de produção moderna (caso Francês), uma “classe pequeno burguesa”.

A posição de Marx e Engels se forma por uma dupla base. De um lado, sua concepção de evolução histórica em que a “comunidade primitiva” era uma unidade social indivisa. Essa comunidade primitiva se baseava no trabalho agrícola. O trabalho “simples” agrícola é rompido pelo desenvolvimento das forças produtivas. Esse desenvolvimento das forças produtivas implica em dois processos: de um lado, economicamente implica a divisão do trabalho e aperfeiçoamento das forças produtivas, por outro lado a individualização.

Dessa maneira, Marx e Engels entendem que a comuna primitiva passa por uma evolução e o campesinato quando retirado da condição de atraso econômico é levado a uma posição “individualista”, resultante da sua relação com a propriedade “parcelar” (individual) da terra. O camponês na visão de Marx teria assim uma propensão inata, determinada economicamente, ao conservadorismo político. É importante observar que esse juízo de Marx não deriva de uma análise de conjuntura. Na realidade ele leva para a análise da história da revolução de 1848, mas está amparada na sua concepção global:

“Os pequenos camponeses constituem uma imensa massa, cujos membros vivem em condições semelhantes, mas sem estabelecerem relações multiformes entre si. Seu modo de produção os isola uns dos outros, em vez de criar entre eles um intercâmbio mútuo. Esse isolamento é agravado pelo mau sistema de comunicações existente na França e pela pobreza dos camponeses. Seu campo de produção, a pequena propriedade, não permite qualquer divisão do trabalho para o cultivo, nenhuma aplicação de métodos científicos e, portanto, nenhuma diversidade de desenvolvimento, nenhuma variedade de talento, nenhuma riqueza de relações sociais. Cada família camponesa é quase autossuficiente; ela própria produz inteiramente a maior parte do que consome, adquirindo assim os meios de subsistência mais através de trocas com a natureza do que do intercâmbio com a sociedade. Uma pequena propriedade, um camponês e sua família; ao lado deles outra pequena propriedade, outro camponês e outra família”. (Marx, 1984 [1852]).

A síntese da visão marxista está na ideia de que o capitalismo tende, por estar fundado na propriedade privada dos meios de produção: 1) a concentração de capitais; 2) a separação e divisão da sociedade em duas classes, de capitalistas e proletários. Marx também aponta que a economia política toma a propriedade privada como fato e estabelece as leis supondo este fato como dado, não explicando as leis da propriedade privada. Podemos ver isso abaixo:

“Aceitamos como premissas a propriedade privada, a separação do trabalho, capital e terra, assim como também de salários, lucro e arrendamento, a divisão do trabalho, a competição, o conceito de valor de troca, etc. Com a própria economia política, usando suas próprias palavras, demonstramos que o trabalhador afunda até um nível de mercadoria, e uma mercadoria das mais deploráveis; que a miséria do trabalhador aumenta com o poder e o volume de sua produção; que o resultado forçoso da competição é o acumulo de capital em poucas mãos, e assim uma restauração do monopólio da forma mais terrível; e, por fim, que a distinção entre capitalista e proprietário de terras, e entre trabalhador agrícola e operário, tem de desaparecer, dividindo-se o conjunto da sociedade em duas classes de possuidores de propriedades e trabalhadores sem propriedades”. (Manuscritos Econômicos e Filosóficos)

Marx define a economia política como a ciência da propriedade dos processos de acumulação. Logo, o foco é como o trabalho é subordinado à propriedade ao capital e é alienado. Por isso o camponês ocupa um lugar no sistema teórico do marxismo difícil de ser modificado. O trabalho do camponês com a inevitável evolução do capitalismo, não sendo igual ao da comuna primitiva, não tem a “vantagem social” de ser “comunitário”, mas tem a desvantagem técnica de ser “agrícola” e “atrasado”. Assim, o campesinato surge como parte do processo de desenvolvimento da divisão do trabalho e a emergência do capitalismo coloca o campesinato numa condição de arcaísmo em face do capitalismo, de isolamento e submetido à pressão do desaparecimento em razão da lei de concentração de capital. Marx chega à ideia de que o camponês por ter uma relação jurídica de propriedade, esta determina sua relação de produção e logo sua condição de classe burguesa ou pequeno-burguesa e sua tendência individualista.

Proudhon e Bakunin definem a economia política como a ciência do trabalho. Ou seja, como o trabalho é fonte de liberação do homem frente à natureza e a exploração. Proudhon e Bakunin, ao considerarem que o fato do camponês trabalhar a terra e ser explorado (mesmo quando detentores de algum título de propriedade ou explorarem a terra individualmente), são trabalhadores por terem no trabalho o centro da sua existência material e manterem uma relação de antagonismo com os exploradores.

Na concepção anarquista de Proudhon e Bakunin não existe nem a visão do determinismo econômico, nem a ideia de que a comunidade primitiva indivisa era um modelo de “coletivismo”. Nessa visão, não são as forças produtivas que determinam sozinhas a evolução da sociedade. O trabalho e a luta pela existência guardam um papel fundamental na evolução histórica e por isso não se pode conceber uma história que é determinada exclusivamente pelo econômico e pelas forças produtivas. O Trabalho é sujeito da transformação e nesse sentido o capital (acúmulo técnico) não determina somente a transformação da “comuna primitiva em formas camponesas e industriais de exploração”. Ao mesmo tempo em que se reconhece a tendência do capital a concentração e centralização, não se atribui a isso um papel necessário e nem se assume que é dever das organizações apoiar esse desenvolvimento do capitalismo (no marxismo o capitalismo é algo desejado e defendido pois seria uma forma mais avançada de socialização e produção que as formas arcaicas de propriedade feudal e camponesa).

É nesse sentido que Bakunin irá afirmar também que os camponeses não podem ser considerados como uma pequena burguesia, porque na realidade o determinante da sua condição socioeconômica é o trabalho. Isso irá se expressar na sua visão da revolução mundial e como a aliança operário-camponesa seria o núcleo de toda sua teoria da revolução (Sociedade Secreta Internacional).

Marcha Nacional contra o ACE – Acordo Coletivo Especial, Brasília/DF, 24 de Abril de 2013. Diversas entidades sindicais, do campo e da cidade, se fizeram presentes. Na faixa lê-se “Viva a Aliança Operário-Camponesa!”, um elemento da Revolução Socialista conforme a teoria bakuninista.

2 – O “Mir” russo: anarquistas e comunistas ante a reforma e revolução no campo

O grande debate teórico que lançaria as bases da questão agrária se daria dentro da AIT (Associação Internacional dos Trabalhadores), especialmente no período 1872-1873, quando uma década depois da abolição da servidão na Rússia existia uma discussão nos meios intelectuais russos sobre os destinos econômicos e sociais do país. Os intelectuais radicais, a juventude e parte dos militares eram influenciados pelas ideias do Ocidente, tanto os ideais liberais franceses, quando a filosofia alemã e também pelo socialismo.

Devemos observar que o movimento revolucionário russo se aproximava da AIT já depois da cisão do congresso de Haia e do congresso de Saint-Imier, de forma que duas posições teóricas e políticas completamente distintas se ofereciam. O republicanismo e o liberalismo russo passariam a dividir espaço com as interpretações do marxismo e do bakuninismo.

E exatamente no debate sobre o destino do Mir russo que Bakunin e Marx delinearam suas posições de forma clara e categórica sobre a questão agrária e lugar do campesinato na revolução. Vejamos como isso se coloca.

“De que maneira as pessoas honestas podem modificar a vida material do povo? Elas não têm de forma alguma o poder, e o Estado, como tentaremos demonstrá-lo mais à frente, é incapaz de melhorar a condição material do povo; a única coisa que o Estado pode fazer em seu favor é dissolver-se, desaparecer, visto que sua existência é incompatível com a felicidade do povo, felicidade que só poderá ser criada pelo próprio povo. O que podem fazer seus amigos? Levá-lo a um movimento e a uma ação autónomos, antes de mais nada – afinal precisamente os defensores de boa fé da tendência da qual acabamos de falar -, indicar-lhe as vias e os meios que o conduzirão à emancipação.

“Vias e meios podem ser de dois tipos: uns, puramente revolucionários e visando direto a organização de uma insurreição geral do povo; outros, mais pacíficos, abordando sua emancipação por uma transformação de forma sistemática e lenta, mas ao mesmo tempo radical, de suas condições de existência.

“Ora, o que podem fazer as pessoas honestas para levar nosso povo ao caminho de uma lenta mas radical transformação de suas condições materiais? Criar cátedras de sociologia no campo? Em primeiro lugar, o governo vigilante e paternal não o tolerará; em segundo, os camponeses, infelizmente, não compreenderão em absoluto nada e trocarão dos professores. (…) Esta ação não pode ser outra coisa senão a formação de associações artesanais e de sociedades cooperativas de empréstimos, consumo e produção, sobretudo estas últimas, mais diretamente do que as outras indo no sentido do objetivo: a emancipação do Trabalho da dominação do Capital”. (Bakunin, Estatismo e Anarquia)

Desta maneira Bakunin estava colocando duas respostas simultâneas para a pergunta, que fazer?, que a juventude russa estava se colocando. Dessa maneira, ele questionava tanto a política liberal e individualista que queria melhorar a vida do povo através da “popança”, quanto o salvacionismo pela educação. E aqui é o elemento fundamental. Logo, tratava-se de levar outro tipo de organização aos camponeses, que possibilitasse sua ação autônoma e permitisse a sua entrada num processo de antagonismo com o Estado e o capital.

O debate de Marx e Bakunin explicita já como o marxismo foi recebido com profundas críticas na Rússia. Nós temos o primeiro movimento sistemático de questionamento a concepção de história de Marx, que é percebida como linear mesmo dentro de setores de oposição (democrático, socialista) e que não contemplava as alternativas políticas para a Rússia. No caso, temos o questionamento de Vera Zasulitch e a resposta de Marx que aponta a possibilidade de um desenvolvimento não-capitalista na Rússia a partir da “comuna rural”, que poderia ser o elemento econômico de regeneração da Rússia.

“Recuando-se bastante encontra-se por toda parte na Europa Ocidental a propriedade comum de um tipo mais ou menos arcaico e em toda parte ela desapareceu com o progresso social. Por que somente na Rússia ela haveria de escapar à mesma sorte? Eu respondo: porque na Rússia, graças a uma combinação de circunstancias a comuna rural ainda estabelecida em escala nacional pode desembaraçar-se gradualmente de seus caracteres primitivos e desenvolver-se diretamente como elemento da produção coletiva em escala nacional e justamente graças à contemporaneidade da produção capitalista que ela pode apropriar-se de todas as conquistas positivas desta última sem passar por suas peripécias terríveis. A Rússia não é isolada do mundo moderno. Nem é presa de um conquistador estrangeiro como as Índias Orientais”. (K. MARX – )

Ou seja, Marx considera a comuna e o campesinato apenas como forma de produção arcaica. Essa possibilidade se dava principalmente em razão da “simultaneidade” da existência da Comuna com o Capitalismo no Ocidente. Marx, entretanto desenvolve o argumento de que a Comuna Russa era distinta da Comuna Arcaica, e que poderia em tese se valer dos instrumentos do capitalismo como forma de seu desenvolvimento ulterior. Dessa maneira, ele aponta que a discussão sobre a “inevitabilidade” da desintegração da Comuna (ou seja, tema que se desenvolve muito antes de Lenin) era na realidade sem fundamento (no seu posicionamento oficial, ele simplesmente não afirma categoricamente nem uma via nem outra), mas teoricamente, coloca a caracterização do “dualismo da comuna russa” (propriedade coletiva e individual) que poderia assim se engendrar duas formas distintas de evolução (mas ainda assim, os critérios são a incorporação da técnica capitalista e a intensificação da socialização entendida como a propriedade “coletiva”) .

Esse debate de Marx apontava então para a singularidade da “Rússia”. No plano da política social-democrata, considerava-se que o campesinato estava em vias de desaparecimento ou como elemento hostil ao movimento operário. E na Rússia seria preciso modernizar a comuna arcaica e incentivar através do Estado a dimensão coletiva, isto é, comunista, da comuna rural.

Bakunin desenvolve uma análise distinta. Ele parte da discussão da ideia de existência de um ideal popular – uma aspiração formada pelas experiências históricas anteriores do povo russo que fazia com que ele tivesse alguns elementos fundamentais componentes desse ideal: a ideia de que a terra pertencia ao povo coletivamente; a antipatia ao Estado; a autonomia da comuna. Vejamos:

“Este ideal existe na concepção do povo russo? Existe, não há dúvida, e sequer há necessidade de analisar com profundidade a consciência histórica de nosso povo para definir seus aspectos fundamentais. O primeiro e o principal destes aspectos é a convicção, partilhada por todo o povo, de que a terra, esta terra regada de suor e fecundada com seu trabalho, pertence-lhe de modo integral. O segundo, não menos importante, é ainda a convicção de que o direito fruição do solo pertence, não ao indivíduo, mas a toda a comunidade rural, ao Mir, que reparte a terra, o título temporário, entre os membros da comunidade. O terceiro destes aspectos, de importância igual à dos dois precedentes, é a autonomia quase absoluta, ao mesmo tempo que a gestão comunitária do Mir e, em consequência, a hostilidade manifesta deste último para com o Estado”. (Bakunin, Estatismo e Anarquia)

Ele mostra que a “evolução econômica” cooperativa da Comuna Rural Russa seria um fator de estratificação e que alternativa para o campesinato seria a luta e a revolta contra o Estado. Ele identifica além do “ideal popular” (elementos de um projeto específico), elementos também que obstruíam que a Comuna Rural e o campesinato tivesse um papel revolucionário (essa é uma discussão que Marx não aborda, ele só visualiza a função econômica da comuna, não o papel político do campesinato).

“Entretanto, o ideal do povo russo é obscurecido por outros três aspectos, que desnaturam seu caráter e complicam ao extremo, retardando-a, sua realização; aspectos, que devemos, por conseguinte, combater com toda nossa energia, e que são bem possíveis de combater, visto que o próprio povo já se engajou no combate. Estes três aspectos são: 1) o estado patriarcal; 2) a absorção do indivíduo pelo Mir; 3) a confiança no Czar. Poder-se-ia acrescentar, como quarto aspecto característico, a religião cristã, quer esta diga respeito à Igreja Ortodoxa Oficial ou a uma seita; mas, de acordo com nossa opinião, na Rússia, esta questão está longe de assumir a mesma importância que nos países católicos, e mesmo nos países protestantes da Europa Ocidental” (Bakunin, Estatismo e Anarquia)

Ai ele identifica três elementos também: 1) o caráter patriarcal; 2) a absorção do indivíduo pelo MIR; 3) a adoração do Czar. Dessa maneira ele fala que a fragmentação da COMUNA era produzida pelo Estado e essa era uma das principais forças a desvirtuar a ação do campesinato. A cisão era representada pelos “salteadores camponeses” – ou seja, pelos camponeses que partiam para ações ilegais contra o sistema. Assim, Bakunin observa que não seria possível uma evolução “cooperativa” do Mir, mas sim que esse – rompendo com as características patriarcais, a fragmentação e a subordinação ao Estado – e com os privilégios econômicos que já começavam a se manifestar em camponeses ricos – poderia ser a base de um movimento revolucionário integrado, ao qual o proletariado “intelectual” – intelligentsia – deveria se integrar. Assim, o sujeito fundamental do processo era o povo, partindo de condições materiais. Assim temos duas visões completamente distintas que irão se manifestar no desenvolvimento do processo revolucionário russo.

Marx entende que o camponês e o Mir só seria uma relação de produção que poderia, através da introdução da modernização capitalista, ser preservada pela revolução. Bakunin entende que o camponês russo seria o sujeito da revolução, e observa as tensões dialéticas (sociais e econômicas) que poderiam realizar ou impedir sua constituição como ator sociopolítico.

O debate entre Marx e Bakunin marcam, então, as distintas posições ante reforma e revolução no campo, caracterizado pelas formas como foram recebidas as duas posições. Marx, e a social-democracia, entendia que a existência do o campesinato, em geral, estaria caminhando para desparecer ou como um fator hostil ao movimento operário, e particularmente na Rússia seria preciso modernizar a comuna arcaica e por via do Estado estimular a dimensão coletiva da comuna rural. Bakunin delineia um plano de ação para o campesinato, que deveria partir do incentivo à sua organização e associação de resistência e culminar com a ruptura com o patriarcalismo, o mito do chefe e a anulação da ação individual.

3 – Coletivização X estatização e mercantilização da terra: a política anarquista e os camponeses hoje

3Essas posições desenvolvidas dentro da AIT seriam ainda objeto da polarização entre o sindicalismo revolucionário e a social-democracia entre 1890 e 1920. De maneira geral as posições da social-democracia seriam defendidas por Engels e Kaustki.

“Nesse congresso [1894] se repetiu a tese da proletarização necessária do camponês. Ao mesmo tempo, o partido assumiu a defesa dos camponeses enquanto contribuintes. Engels (…) Distingue claramente o pequeno camponês do médio e do grande, expressando a opinião de que lhe parecia quase uma traição se o partido prometesse as duas últimas categorias a manutenção estável da Independência econômica: também elas devem sucumbir em consequência da formação da propriedade capitalista e da produção mais competitiva de capitais. O partido não deve, pois, apoiar-se nestes estratos mas sim nos trabalhadores assalariados. (…) Na formação do ponto de vista marxista sobre a questão agrária, um papel não negligencíável coube ao Congresso da Segunda Internacional realizado em 1896, que entrou na história como o congresso da ruptura total com o anarquismo (…).

A política da social-democracia internacional dessa maneira incorporou os camponeses de duas formas: como objetos necessários de uma política de proletarização, e nesse sentido, se celebrava e incentivava a destruição da propriedade camponesa. Por outro lado, uma política mais pragmática derivada de vários países da Europa, que consideravam a necessidade do apoio eleitoral do campesinato e que levavam a tese da “difusão da tecnologia” para a pequena propriedade e sua capitalização.

Logo, a política social-democrata ortodoxa e hegemônica não tinha uma política para a luta camponesa. Eles tinham uma política econômica e eleitoral para o campesinato. A política econômica favorecia a integração no mercado capitalista através do incentivo ao desenvolvimento tecnológico. O cooperativismo deveria corrigir os “desvios individualistas” inerentes do camponês.

A contraposição desta posição feita pelo sindicalismo revolucionário internacional se baseou nas posições bakuninistas e coletivistas da antiga Federação do Jura, que tem sua política delineada num texto importante de James Guillaume intitulado “Ideias sobre Organização Social”, além de textos do próprio Bakunin sobre a situação e guerra na França.

Essas posições estão amparadas na análise de Bakunin sobre a França e sobre a Rússia. Bakunin no livro “O Império Knuto-Germânico e a Revolução Social” afirma que “os camponeses, ao menos a imensa maioria dos camponeses, não esqueçamos nunca, ainda que como na França convertidos em proprietária seguem vivendo do trabalho de seus braços”. Ou seja, para Bakunin, a reforma agrária e a propriedade parcelar não mudou a relação e condição de trabalho. E no mesmo livro afirma “denomino, pois, burguês a todo que não é trabalhador das fábricas, das terras, e povo toda a massa de operários propriamente ditos, o mesmo que aos camponeses que cultivam com seus braços seja a sua própria terra, seja de outro”. Logo, para Bakunin a condição de classe do camponês não muda pelo fato de ser proprietário parcelar de pequenas extensões, e que explore a terra por seu trabalho.

Isso permitiu que Bakunin firmasse duas políticas fundamentais: 1) a distribuição das terras para quem nela trabalha; 2) a libertação das obrigações de pagamento de tributos e trabalho aos proprietários rurais. Assim, existia uma política para a luta dos camponeses, que foi sintetizada na palavra de ordem “Terra e Liberdade”

Manifestação de camponeses, Guerra Civil Espanhola, Barcelona, 1936.

Manifestação de camponeses, Guerra Civil Espanhola, Barcelona, 1936.

James Guillaume formula, entretanto, o que seria a política anarquista para a questão agrária e que iria influenciar a formação dos movimentos em países como México, Rússia, Argentina e Espanha. Esse texto apresenta as posições bakuninistas-coletivistas sobre a terra e questão agrária e seu lugar na teoria da revolução. Temos aqui também a junção da teoria bakuninista com um programa coletivista que se contrapunha a teoria marxista ao programa comunista de estatização.

“O caráter da revolução precisa ser, a principio, destrutivo. Ao invés de modificar certas instituições do passado, ou adaptá-las a nova ordem, ele vai acabar com elas totalmente. Por essa razão, o governo será extirpado, junto com a Igreja, o Exército, os tribunais, as escolas, os bancos e suas instituições subservientes. Ao mesmo tempo a revolução tem um objetivo positivo, que os trabalhadores tomem o controle de todo o capital e ferramentas da produção. Deixe-nos começar com os camponeses e os problemas relativos a terra. Em muitos países, particularmente na França, os padres e a burguesia tentam ameaçar os camponeses contando a eles que a Revolução tomará suas terras. Esta é uma mentira ultrajante inventada pelos inimigos do povo. A Revolução tomaria exatamente um sentido oposto. Ela tomaria a terra da burguesia, dos nobres e padres e daria aos camponeses sem-terra. Se um pedaço de terra pertence a um camponês que o cultiva ele próprio, a Revolução não tocaria nela. Ao contrário, ela garantiria a livre posse e liquidaria os débitos da terra. Esta terra que uma vez enriqueceu o tesouro e foi sobrecarregada com impostos e arruinadas por hipotecas, como o camponês seria emancipada. Não mais taxas, não mais hipotecas, a terra torna-se livre, apenas como o homem. Como a terra propriedade da burguesia, o clero, os nobres – terra cultivada até agora pelos trabalhadores sem-terra para beneficio dos seus senhores – a revolução retornará esta terra roubada a seus proprietários por direito, os trabalhadores agrícolas”. (James Guillaume, “Ideias sobre Organização Social”).

Dessa maneira, temos aqui a ideia de que é necessária uma política revolucionária, de ataque à propriedade fundiária da terra, nobiliárquica, clerical e burguesa. Longe de apoiar a expropriação dos camponeses (como previa a política social-democrata) porque isso favoreceria à revolução, visa-se distribuir terra, eliminar o peso das hipotecas e taxas (tributo e renda pagas) e da exploração do trabalho agrícola.

“Nós iremos considerar como os camponeses irão derivar o maior beneficio possível dos seus meios de produção, a terra. Imediatamente depois da revolução os camponeses serão confrontados com uma situação híbrida. Aqueles que já são pequenos proprietários manterão seus lotes de terra e continuarão a cultivá-lo com suas famílias. Os outros, a eles são de longe a grande maioria, que arrenda a terra dos grandes latifundiários ou foram simplesmente assalariados agrícolas empregados pelos proprietários, tomarão a posse coletiva de vastas terras e as trabalharão em comum. Qual desses é o melhor sistema? Em uma região que tem sido ocupada antes da Revolução pelos camponeses detentores de pequenos sítios, onde a natureza do solo não é desejável para cultivos extensivos de larga-escala, onde a agricultura tem sido conduzida da mesma maneira por décadas, onde a maquinaria é desconhecida ou raramente utilizada – em uma tal região os camponeses irão naturalmente conservar a forma de propriedade que eles estão acostumados. Cada camponês continuará a cultivar a terra como ele fazia no passado, com esta singular diferença; seus antigos trabalhadores assalariados, se ele tinha algum, tornariam seus parceiros e compartilhara com ele os produtos do seu trabalho comum extraídos da terra. (…) Por outro lado, em operações agrícolas de larga escala, onde um grande numero de trabalhadores agrícolas cultivam vastas áreas, onde a coordenação e cooperação são absolutamente essenciais, trabalho coletivo irá naturalmente conduzir a propriedade coletiva. Uma coletividade agrícola pode abarcar um comuna inteira (unidade autônoma regional) e, se economicamente necessário para eficiência e maior produção, muitas comunas.”

Logo, temos aqui o essencial da política coletivista. A política social-democrata promove a proletarização e estatização da terra, ou no máximo, uma política de capitalização da pequena agricultura que se torna um ramo da agricultura capitalista. Daí as contradições do marxismo e sua frequente capitulação na luta dos camponeses ou mesmo seus ataques ao campesinato. No campo do marxismo seria Lenin, que importando teses e política do anarquismo e do populismo russo, corrigiria essa linha do marxismo. Mas mesmo assim sua política pós-revolução de 1917 retornou ao modelo social-democrata.

O coletivismo prescreve que os trabalhadores tenham o controle coletivo sobre a terra, mesmo que em propriedades individuais eles não podem explorar o trabalho e logo gerar nem renda, nem lucro. Por outro lado a exploração coletiva da terra é associada a condições geográficas e técnicas. O coletivismo combate à propriedade da terra para combater a exploração. Dessa forma, o coletivismo do anarquismo implica 1) o reconhecimento do campesinato como sujeito coletivo; 2) a ação coletiva de luta por terra, liberdade e contra à exploração; 3) a coletivização da terra, que implica sua distribuição aos trabalhadores que podem explorar a mesma de forma coletiva ou individual.

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