1936 – 2016: Homenagem aos 80 anos da Guerra Civil Espanhola

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Buenaventura Durruti (1896-1936) discursa aos trabalhadores/as

*Texto do jornal Causa do Povo nº75 – Agosto/Setembro de 2016


Em homenagem aos combatentes da guerra civil espanhola, publicamos trecho deste texto de uma importante organização anarquista e revolucionária, Os Amigos de Durruti. Formado por combatentes da Coluna Durruti, Coluna de Hierro, dentre outras frentes de batalha, Os Amigos de Durruti surgiu no início de 1937 em plena guerra civil e atuou disputando uma posição revolucionária e proletária frente aos conciliadores e reformistas do PC e da direção da CNT/FAI.


OS AMIGOS DE DURRUTI ACUSAM

Los Amigos de Durruti, junho/julho de 1939

É necessário que os militantes, os revolucionários das organizações de trabalhadores, que sofreram a cruel experiência da derrota militar e a humilhação como refugiados, dediquem uma séria e concentrada atenção às lições da guerra e da revolução espanhola, pela qual pagaram tão caro com o seu sangue e o sangue de seus melhores camaradas.

Quebrando o silêncio que nos foi imposto pela tirania dos estalinistas e outros contra-revolucionários, continuaremos falando com a clareza que sempre utilizamos no órgão de nosso grupo “O Amigo do Povo”. Nosso grupo, que escolheu como símbolo Durruti, tem ocupado um lugar importante na revolução espanhola. Assim foi, nos dias sangrentos de maio de 1937, quando empunhamos a bandeira da revolta e combatemos os contra-revolucionários (o P.C., o governo republicano, etc) assim como o reformismo dos dirigentes da CNT-FAI.

Nós havíamos previsto que a linha traçada depois de julho de 1936, dissociando a guerra da revolução, conduziria inevitavelmente ao desastre. Nossas teses foram confirmadas pelos fatos. A revolução foi perdida em maio de 1937, E COM ELA A GUERRA. Gradualmente, as zonas de importância econômica foram perdidas, culminando com a queda de Aragón, uma grande derrota no Levante, terminando na debandada da Catalunha, na rendição incondicional de Madrid e do que ainda restava.

As causas da derrota foram evidentes. Quando o espírito revolucionário das milícias foi sepultado – em consequência de sua militarização, após terem sido subordinadas a um exército desprovido de entusiasmo e dinamismo – forjou-se o primeiro elo da cadeia que nos levaria à derrota.

(…)

DUAS CHANCES PERDIDAS

Durante a revolução espanhola, houve dois momentos decisivos: julho de 1936 e maio de 1937. Nessas duas ocasiões, o mesmo erro foi cometido. Os líderes da CNT-FAI não impuseram o poder de nossas organizações, que eram apoiadas pelas massas nas ruas, fábricas, campos e outros locais de trabalho. Esses líderes foram, portanto, os maiores responsáveis pelo desastre que aconteceu – a perda da revolução, a derrota militar na guerra e o sangrento exílio na França. Eles temiam a intervenção estrangeira. Não assumiram a direção econômica e política do país para não suscitar a hostilidade dos ‘ditadores’.

Mas, recusando-se a liderar a revolução, nem por isso a abandonaram: eles começaram a derrotá-la. Seu medo foi responsável pela contra-revolução, pelo fato de os estalinistas terem tomado a terra dos camponeses e trabalhadores. Esse foi o maior fator na quebra da unidade revolucionária das massas.

Além de não impor uma ditadura sobre os partidos antiproletários, os dirigentes da CNT-FAI se tornaram assistentes dos liberais burgueses, da pequena burguesia e do capitalismo internacional, os quais, sob a máscara da democracia, serviram ao fascismo. Portanto, os dirigentes da CNT-FAI derrotaram a revolução espanhola.

O final da guerra foi catastrófico. Tudo foi perdido, nada foi ganho. (…)

As pessoas trabalhavam e morriam de fome. Na fila do pão, as mulheres e a população em geral estavam cheias de ódio de Negrin e seu grupo de aduladores. Os trabalhadores e suas famílias não tinham pão, mas nos lares e residências do governo e dos chefes do PC comia-se pão branco. (…)

O POVO RESPONSÁVEL

O governo, além de não representar os trabalhadores, defendia interesses decididamente opostos aos deles. Aqueles que deveriam ter ouvido as reivindicações do proletariado e que foram por ele convocados para defender seus interesses de classe, ou seja: os líderes da CNT-FAI foram os primeiros a traí-lo. Isso nós temos afirmado claramente e sem subterfúgios. E continuaremos sempre a repetir nossas acusações.

‘Os Amigos de Durruti’ foram chamados de fascistas e provocadores. Duas vezes tentaram expulsar-nos da CNT-FAI. Mas os proletários rejeitaram essa ordem de exclusão, que veio da ala reformista. (…)

A lição foi dura. A imensa importância e o poder da revolução espanhola podem ser avaliados pelos problemas que acarretou para os negócios dos países europeus.

Se a revolução espanhola tivesse sido bem sucedida, o fascismo teria sido derrotado, com a importante consequência do início de uma ofensiva proletária internacional. Não há dúvida, o proletariado e o capitalismo têm mostrado estar permanentemente envolvidos numa luta de vida ou morte. O capitalismo tem triunfado, mas nós sabemos os motivos.

A democracia derrotou o povo espanhol, não o fascismo. Franco jamais teria vencido sem o PCE e Negrin. Mas o proletariado internacional também é responsável. Ou melhor, seus líderes, que se tornaram escudos para os capitalistas. Mas se nós tivéssemos sido claros e diretos, em vez de falar jargões e usar uma linguagem confusa, talvez tivéssemos alcançado os trabalhadores do mundo todo.

AS LIÇÕES

Da catástrofe, cabe-nos extrair lições valiosas. Como anarquistas, devemos corrigir uma série de pontos táticos e posições que impedem o sucesso da ação revolucionária. A revolução necessita da força e de saber usá-la contra seus inimigos. Quando se possui a força revolucionária do proletariado, é necessário saber como usá-la e como preservá-la.

Nós somos inimigos da colaboração com os capitalistas e a classe média. A administração dos trabalhadores exige o poder dos trabalhadores. A revolução requer a absoluta dominação das organizações dos trabalhadores, como foi o caso de julho de 1936, quando a CNT-FAI comandava. Há muitos aspectos da situação e seria necessário estudá-los em detalhe. Mas não devemos esquecer que o movimento dos trabalhadores deve ser reconstruído sobre uma nova base, com uma nova moral, após ter banido os líderes responsáveis pelo desastre. (…)

Desde o início dessa emigração, que começou após 30 meses de luta, os ‘Amigos de Durruti’ mantém a defesa dos interesses do proletariado com a mesma energia e honestidade que empregaram durante o curso da revolução espanhola.”


Texto completo em: http://goo.gl/0r1Y1r

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