Anarquismo e Ativismo, em geral e particularmente no Brasil: combater as influências burguesas nas lutas e resistências pós-J13

Anarquismo e Ativismo, em geral e particularmente no Brasil: combater as influências burguesas nas lutas e resistências pós-J13

 

Comunicado nº 56 da União Popular Anarquista – UNIPA, outubro de 2017.

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O “ativismo”, por sua composição ideológica e organizativa, e procedência de classe, tende, em determinado momento do seu desenvolvimento, a se converter num vendeiro obstáculo à luta revolucionária e a resistência da classe trabalhadora. Causando, por isso, graves prejuízos às lutas dos trabalhadores, tendo como seu destino final, na melhor das hipóteses, a formação de uma contracultura sectária fechada em si mesma, inútil para as lutas dos trabalhadores (grupos de propaganda, coletivos editoriais e artísticos, pequenos grupos de ação local) e, na pior das hipóteses, organizações capitalistas com retórica de esquerda (empresas individuais, grupos de interesse culturais ou étnicos, cooperativas e comunidades “alternativas” que vivem de uma espécie de empreendedorismo econômico).

O mundo vive uma crise global composta pela superposição de várias crises: i) da crise sistêmica do capitalismo pós-2008; ii) pela nova guerra fria e aprofundamento da guerra e agressões imperialistas contra os povos; iii) pela crise ambiental e climática; iv) por crises sociais (desemprego, pobreza, fome) geradas pelos processos de reestruturação produtiva e da divisão internacional do trabalho. Tal processo, iniciado ainda nos anos 1990, foi marcado por grandes insurreições urbanas e guerras indígenas e camponesas.

O chamado movimento antiglobalização é uma das maiores expressões de tal processo. Surgido nos países centrais, especialmente Europa e EUA em meados dos anos 1990, marcou a história das resistências, criando a figura do “Ativismo”, uma espécie de doutrina de ação que se mesclou a um vago conceito de anarquismo. Nos EUA e Canadá foram representados pela Direct Action Network (Rede Ação Direta), que teve seu declínio nos anos 2000, por diversas razões, e na Europa por dezenas de organizações em diferentes países.

O movimento antiglobalização, em grande medida, por operar com categorias do anarquismo e sindicalismo revolucionário (especialmente as ideias de liberdade e ação direta) ajudou a reacender o interesse pelo anarquismo pelo mundo.  Mas, um processo que poderia ser visto como positivo, na verdade não é, pelo menos não necessariamente.

O “ativismo”, por sua composição ideológica e organizativa, e procedência de classe, tende, em determinado momento do seu desenvolvimento, a se converter num vendeiro obstáculo à luta revolucionária e a resistência da classe trabalhadora. Causando, por isso, graves prejuízos às lutas dos trabalhadores, tendo como seu destino final, na melhor das hipóteses, a formação de uma contracultura sectária fechada em si mesma, inútil para as lutas dos trabalhadores (grupos de propaganda, coletivos editoriais e artísticos, pequenos grupos de ação local) e, na pior das hipóteses, organizações capitalistas com retórica de esquerda (empresas individuais, grupos de interesse culturais ou étnicos, cooperativas e comunidades “alternativas” que vivem de uma espécie de empreendedorismo econômico).

Por isso ao “ativismo” só restam dois destinos: negar a si próprio e assumir o ponto de vista geral de classe, se convertendo numa política sindicalista revolucionaria; ou afirmar a si próprio e negar a libertação da classe e dos grupos oprimidos como um todo, degenerando no individualismo liberal. Apresentamos aqui uma contribuição à luta ideológica e teórica contra o ativismo e a defesa da única solução sincera para as contradições do ativismo: os “ativistas” que desejam realmente o caminho da revolução só podem permanecer nele abraçando o anarquismo e o sindicalismo revolucionário.

 

1 – Ativismo e anarquismo: histórias, convergências e divergências

 

O ativismo assim poderia ser considerado como quase que uma reprodução do anarquismo? Não. Em primeiro lugar, essa doutrina “ativista” sempre foi um campo eclético, reuniu muito mais ideias do liberalismo radical da nova esquerda e de diferentes tipos de marxismo e pós-modernismo. Sua relação teórica com o anarquismo sempre foi superficial, apesar de vários grupos anarquistas terem confluído para o movimento antiglobalização, espaço no qual se formou o ativismo.

 

O “ativismo” é uma forma histórica surgida pela confluência de diferentes tradições organizativas e ideológicas. Enquanto doutrina e prática, se conformou ao longo dos anos 1990 e 2000 por uma crítica à sociedade capitalista na sua forma keynesiana, neoliberal e também ao stalinismo. Tinha algumas ideias-chave: uma profunda crítica da centralização e desconfiança das organizações sindicais e dos partidos políticos; a evocação da ideia de ação direta, mas entendida aqui como um apelo a violência de massas como forma de protesto; a assimilação de uma ideologia multicultural e simpatia pelas lutas no “Sul Global”, assimilando pautas de gênero, anticoloniais e anti-imperialistas.

O ativismo assim poderia ser considerado como quase que uma reprodução do anarquismo? Não. Em primeiro lugar, essa doutrina “ativista” sempre foi um campo eclético, reuniu muito mais ideias do liberalismo radical da nova esquerda e de diferentes tipos de marxismo e pós-modernismo. Sua relação teórica com o anarquismo sempre foi superficial, apesar de vários grupos anarquistas terem confluído para o movimento antiglobalização, espaço no qual se formou o ativismo.

Devemos explicar, então, as poucas convergências e as muitas divergências entre anarquismo e ativismo. O anarquismo, como fomos os primeiros a defender de forma sistemática nos anos 2000, é uma tradição organizativa surgida no século XIX que combinou duas grandes formas: a organização política revolucionaria insurrecionalista e as organizações sindicalistas-cooperativistas de resistência de massas. O anarquismo, tal como formulado por Proudhon e Bakunin, tinha uma teoria global da economia e da política; era uma crítica da concepção liberal jacobina (do estado centralizado e da revolução burguesa), do absolutismo religioso, do liberalismo econômico e constitucional e do comunismo marxista.

Não há tempo aqui para relembrar tudo, mas a denúncia do Estado centralizado e da organização burguesa e estatista nunca implicou a negação da necessidade da organização “em si”. Ao contrário, falando da dialética autoridade-liberdade, o anarquismo defendia que somente uma grande centralização organizacional da classe trabalhadora, combinada com a descentralização do poder, seria capaz de libertar a classe trabalhadora da opressão capitalista e estatal. Os operários e camponeses seriam os sujeitos da revolução socialista, o socialismo exigia um modelo de organização federativo e a coletivização dos meios de produção. Essa teoria foi resumida no projeto de um socialismo federalista.

Mas para chegar à revolução seria necessária uma longa evolução de lutas e resistências, que começariam com a resistência imediata contra a opressão, por meio de sindicatos, cooperativas e etc. e a organização revolucionaria anarquista deveria assumir o papel de iniciadora dessas lutas. A grande tradição anarquista (que englobava organizações revolucionarias anarquistas e diferentes tipos de sindicatos/cooperativas) se espalhou pelo mundo.

Dentro dessa tradição se formaram divergências e lutas internas. Uma concepção chamada de anarco-comunismo, elaborada por Errico Malatesta e por Piotr Kropotkin surgiu ainda no século XIX, negando alguns dos fundamentos fixados por Proudhon e Bakunin. O anarco-comunismo procurou negar dois fundamentos teóricos, programáticos e estratégicos do anarquismo: a concepção teórica global materialista e dialética, as teses sobre o socialismo e o federalismo; justamente por isso, assumiram o programa econômico “comunista”, que estava se espalhando na Europa especialmente.

Vejam, o anarquismo era por definição anti-comunista, ele tinha uma política econômica própria, que pode ser chamada de coletivismo descentralizador. A conciliação com o “comunismo” foi uma tática de unidade com o marxismo que nunca deu certo. Malatesta foi expulso em 1889 do congresso da II Internacional[1]. Mas Malatesta manteve a defesa na necessidade de uma organização sindicalista revolucionaria autônoma, e por isso consideramos ele como um eclético, ele tentou conciliar uma doutrina econômica anarco-comunista (influenciada pelo marxismo) com a linha de massas do anarquismo coletivista. Kropotkin, por sua vez, adotou uma outra política: ele advogava que as organizações anarquistas não deviam se dedicar às lutas sindicalistas de massas, mas sim apenas a pequenos grupos de educação e propaganda. Assim, a base social dos anarquistas deveria ser as elites intelectuais e artistas. Ao negar o sujeito revolucionário, Kropotkin se converteu num revisionista, e o revisionismo levou que o mesmo se tornasse um renegado da revolução. Para outras formulações sobre o tema vejam o Comunicado nº15 da Unipa, “Anarquismo e Ecletismo, em geral e particularmente no Brasil(https://uniaoanarquista.files.wordpress.com/2012/07/comunicado-15.pdf)

Mas o anarquismo e anarco-comunismo foram produtos históricos da grande tradição anarquista, ou seja, grupos e figuras que participaram das organizações revolucionarias e de massas com sua origem na AIT.

Mas ao lado grande tradição anarquista, formaram-se outras experiencias e doutrinas que não tinham relação com ela. Iremos destacar aqui duas: o ultra-individualismo e os renegados do marxismo. Alguns individualistas passaram a se definir como “anarquistas”. Essa tradição foi especialmente importante nos EUA, país em que Benjamin Tucker, um tradutor da obra de Proudhon, tentou atribuir a Proudhon a defesa de uma visão liberal ultra-individualista, como existente nas tradições americanas. Assim, graças as traduções realizadas por ele, nasceu o mito de que Proudhon era um individualista. As acusações de Marx na Europa também ajudaram a criar o mito do anarquismo individualista, que com o tempo ganhou vida própria. Essa doutrina era anti-organizadora: ela negava a organização dos trabalhadores, a luta de classes e realizava a defesa da propriedade privada como forma de proteção contra a “autoridade”. Justamente por isso ela tendeu a ser bem recebida pela anarco-comunismo kropotkiniano. Mais recentemente, essa doutrina assumiu a forma de anarco-capitalismo[2]. A contradição é óbvia, anarco-capitalismo é uma contradição em termos, assim como anarco-individualismo.

O anarquismo Bakuninista e Matalestiano compartilhavam a concepção organizadora de massas, o sindicalismo revolucionário. O anarco-comunismo de Kropotkin era anti-organizador. Ele tendeu a se fundir com outra expressão anti-organizadora, que foi o ultra-individualismo, corrente exterior à grande tradição anarquista. E isso levou a um complexo processo histórico de degeneração do anarco-comunismo.

Outro campo menos importante seriam os renegados do marxismo. Vários marxistas, depois de trajetórias de cisão com os partidos comunistas, passariam a se declarar como anarquistas. Mas muitos desses não buscaram uma aproximação da teoria e política e grande tradição anarquista. Ao contrário, assumindo os estereótipos do marxismo, eles entendiam que o anarquismo era uma vaga proclamação moral, apenas centrada na negação do Partido político ou então na defesa de formas de democracia direta. Um exemplo é o norte-americano Murray Bookchin, que rompeu com o Partido Comunista e tornou-se anarquista[3].

O ativismo, então, normalmente foi buscar em algumas poucas ideias e práticas do coletivismo e do anarco-comunismo suas bases. Podemos aqui então discriminar como o ativismo reúne em si tendências contraditórias e como ele se relaciona com a grande tradição anarquista.

o ativismo possui uma crítica da autoridade e da centralização, mas essa crítica é muito mais informada pelo individualismo liberal, e pelas noções anarco-comunistas de Kopotkin, que negam a organização de massas e o protagonismo dos trabalhadores. Ela tem assim uma tendência anti-organizadora e tendem a uma desconfiança da classe trabalhadora e buscam os artistas/intelectuais como sujeito;

o ativismo incorporou a noção de ação direta, mas de forma reducionista. O conceito de ação direta é a síntese do protagonismo popular e operário (“a emancipação dos trabalhadores é obra dos próprios trabalhadores”) o que exige uma teoria e política da organização. Como existe uma desconfiança da organização “em si”, e da necessidade de centralização organizacional de massas, a ação direta foi reduzida à exaltação da violência;

o ativismo criticou o socialismo de Estado, mas também o socialismo federalista, e isso levou a uma crítica do capitalismo que não apresentava uma alternativa programática clara. A solução foi apresentar o “multiculturalismo” como grande solução, como se bastasse denunciar as opressões contra minorias. Mas grande parte da opressão é econômica, e não apenas cultural, e com isso a luta contra as opressões passou a ser reduzida a negação do caráter de classe da luta, como se existisse contradição entre lutar contra opressões específicas e lutar contra a opressão global de classe. Isso reforçou a tendência a fragmentação das lutas e possibilitou uma política de integração na economia de mercado por meio de “ilhas de economia alternativa”.

Desse modo, uma tendência do ativismo foi a impulsionar as lutas anti-capitalistas, mas ao longo do processo manifestavam-se tendências individualistas, anti-organizadoras e mesmo capitalistas, que a anulavam o avanço das mesmas. Mas para entender o ativismo é preciso entender a história da sua formação. É o que falaremos agora.

 

2 – Da nova esquerda ao “neoliberalismo progressista”: contradições ideológicas e contaminação burguesa no movimento antiglobalização

 

o movimento antiglobalização e o ativismo que ele gerou tinha muitas das contradições da natureza ideológica. Ele ficou à mercê da ideologia pós-moderna e do neoliberalismo progressista. Sua crítica ao centralismo e ao socialismo “tradicional”, bem como a negação do “sindicalismo em si” abriram o flanco a sua convergência com o discurso neoliberal antissindical de direita, e enfraqueceu a própria capacidade de capilarização. É assim que o ativismo legou uma série de contradições aos novos movimentos de resistência que surgiram pós-2008, incluindo aí as Jornadas de Junho de 2013. 

 

O ativismo, muito mais do que uma evolução do “anarquismo”, é uma síntese de três diferentes experiências e tradições de organização: o liberalismo radical de tradição norte-americana (expresso pelos movimentos de direitos civis); o marxismo crítico ou heterodoxo, surgido das cisões dos PC´s nos anos 1950 (ambas as tendências confluíram para formação da “nova esquerda” nos anos 1960); do neoliberalismo “progressista”, uma forma de pensamento burguês de esquerda surgido especialmente nos EUA e Europa, mas profundamente inspirado na experiência do Partido Democrata dos EUA, nos anos 1980 e 1990.

É impossível entender o ativismo sem compreender o peso da política interna dos EUA para a formação dos movimentos sociais no mundo a partir dos anos 1960. A chamada “Nova esquerda” foi um fenômeno que englobou manifestações muito distintas de ação política nos países centrais, que pretendiam questionar os limites da “esquerda tradicional”. Todas elas estavam centradas na ideia de reivindicação de liberdades democráticas e direitos fundamentais, como no caso dos negros (movimento de direitos civis), luta das mulheres, movimento Gay, hippie e etc. e questionavam o “sindicalismo” tradicional e as lutas trabalhistas. Muitos desses movimentos sugiram de grupos religiosos, culturais e contraculturais. Esse amplo espectro de movimento, reformista em suas origens, que pretendia ampliar a democracia burguesa, estender os direitos civis a mulheres, homossexuais, minorias e etc., encontrou profundas barreiras no capitalismo e no Estado burguês.

Essas barreiras levaram a uma insatisfação e a tensões internas, produzindo uma radicalização crescente de tais movimentos. Tomando o exemplo dos EUA e de parte da Europa, esses movimentos evoluíram da luta pacifista pelos direitos civis para uma radicalização revolucionária e socialista, mesmo para formas de autodefesa de massas e luta armada. Eles deram uma grande contribuição ao colocar novas formas de luta anti-racista, anti-machista, ecológica, deram muitas contribuições práticas teóricas nesse campo. Caminharam em direção a uma renovação da teoria socialista pela experiência particular de resistência cultural e de classe de grupos oprimidos na estrutura social do capitalismo avançado. Mas foram derrotados. Foram derrotados socialmente, foram derrotados pela repressão. E para isso ajudou em muito a incapacidade em romper com sua origem liberal e os limites da ideologia da nova esquerda.

Nos EUA podemos dar alguns exemplos que ilustram essa história. O Partido dos Panteras Negras foi criado a partir da experiência do movimento de direitos civis. De uma luta democrática e pacifista o movimento negro caminhou para uma autodefesa de massas armada. Mas suas contradições levaram a um processo de degeneração. A traição e cooptação de seu principal dirigente, Huey Newton, pelo FBI, crime organizado e pela burguesia reacionária, ilustram tal processo. A resposta foi a formação do Black Liberation Army (Exército de Liberação Negra), grupo de luta armada de inspiração anti-autoritária, no qual muitos se reivindicariam anarquistas no final de suas vidas. Outro exemplo importante foi a criação da organização Weathermen Underground Organization – WUO (Organização “Metereologista” Clandestino[4]), uma organização paramilitar criada como uma cisão da organização de massas estudantil Students for a Democratic Society (Estudantes para uma Sociedade Democrática), que centrou sua atividade a dois principais tipos de ação: os Days of Rage (Dias de Fúria), manifestações de rua que tinham como centro a depredação de bancos e instalações governamentais; atentados a bomba contra instalações governamentais.

Mas o WUO nunca atacou as forças de repressão propriamente ditas, ao contrário do BLA. O WUO se autodissolveu depois do fim da guerra do Vietnã, seus membros não foram mortos ou assassinados, nem presos em sua maioria, porque eram brancos de classe média alta. Ao contrário do BLA que foi exterminado. Poderíamos dar exemplos de grupos autonomistas e de ação direta na Itália, Alemanha e França, mas não temos espaço aqui.

Tais grupos da nova esquerda cumpriram uma grande missão histórica. A repressão foi brutal e cruel. Sem fazer julgamento de valor, eles também cometeram graves erros. Em primeiro lugar, todos esses grupos caíram em desvios militaristas. No momento que a repressão visava afastar os mesmos das massas, tais grupos facilitaram o processo, sendo seduzidos pela prática armada que engoliu a quase totalidade de suas ações. Mas apesar do desvio militarista, a violência armada nunca alcançou o grau que organizações revolucionaria dos países periféricos do terceiro mundo conseguiam. Era uma violência armada de pequena escala, amadora, frequentemente performática, incapaz de destruir o Estado burguês. No caso dos WUO era uma violência meramente simbólica. Além disso, programaticamente, esses grupos não foram além de um liberalismo radical, ou de um programa de libertação nacional. Não tinham nem um programa imediato de massas sindicalista, nem um programa finalista socialista. Apenas combatiam com uma violência defensiva e reivindicavam uma “democracia” aperfeiçoada. Foram isolados e derrotados.

Paralelamente um processo decisivo se deu. Enquanto as alas radicais dos movimentos sociais (indígena, negro, de mulheres, hippie, de homossexuais) eram reprimidos, outros setores combatiam a radicalização revolucionária dos mesmos, mas se apropriando da agenda multicultural. Grandes milionários, artistas e empresários, influenciados por essa pauta, e vendo nas mesmas a possibilidade de expansão de mercados (incorporação dos negros na sociedade de consumo, por exemplo), impulsionaram versões capitalistas, de direita e anti-comunistas das formulações que anteriormente pertenciam à nova esquerda: feminismos de orientação burguesa que defendiam a libertação individual da mulher pelo mercado; movimento negro anti-socialista, que já tinha raízes nos grupos religiosos, mas que tinham como principal pauta a conquista de posições de poder no Estado e a formação de uma burguesia negra; o ecologismo dos ricos, representado pela preocupação do Clube de Roma com a questão ambiental.

Ao longo dos anos 1970 e 1980, contando com a derrota da nova esquerda, surge uma nova burguesia global multicultural, que irá assumir e deturpar a pauta e o legado da nova esquerda. Essa burguesia negava por todos os meios o protagonismo da classe trabalhadora, assumiu uma política multicultural de libertação das minorias pelo mercado (essencialmente anti-sindical e anti-comunista) e levou essa política para o Banco Mundial e a ONU. Com a crise do capitalismo dos anos 1970, a solução neoliberal adicionou outro componente: a posição anti-sindical tinha uma função econômica, auxiliar na reestruturação produtiva e no aumento da exploração. Essa nova burguesia, assim, era igual a “velha”, precisava intensificar a exploração.

A partir dos 1980 e 1990, com o advento da globalização, ela se tornaria portadora do “neoliberalismo progressista[5]”, um projeto que conciliava o anti-sindicalismo e anti-comunismo (que eram muito uteis nesse momento para facilitar as reformas neoliberais) com um discurso progressista multicultural e de inclusão das minorias, que foi definitivamente sistematizado sob a forma de ideologia pós-moderna e de uma sociedade do conhecimento[6].

O grande e paradoxal encontro se deu nos anos 1990 quando a globalização neoliberal engendrou o movimento antiglobalização[7], que em grande medida tentava retomar a pauta da “nova esquerda” dos anos 1960, só que pela necessidade objetiva de resistir às reformas neoliberais. Esse encontro foi contraditório justamente porque dos dois lados existia uma defesa das pautas multiculturais e de parte do legado da nova esquerda.

Assim como a nova esquerda, o Movimento Antiglobalização teve um papel fundamental nas resistências em diversos países; em Seattle (1999), em Genova (2001). A Ação Global dos Povos (APG), que surgiu do encontro do MAG com o zapatismo, é uma das melhores expressões desse processo. Mas esse movimento não conseguiu ter consistência suficiente para produzir uma nova alternativa. Nos países periféricos a AGP foi absorvida por projetos reformistas, como aconteceu no Brasil, em que essa iniciativa acabou sendo englobada pelo Fórum Social Mundial e pelo PT, na Bolívia com o MAS; nos EUA e Canadá tal movimento se dilui.

O ativismo foi justamente o filho desse encontro. O ativismo tinha uma crítica das formas autoritárias e centralizadas de organização, ao stalinismo; mas sua crítica ao “sindicalismo” convergia com a negação neoliberal dos sindicatos. Sua prática anti-organizadora ajudava na expansão nos locais de trabalho das reformas microeconômicas neoliberais; o ativismo fez uma crítica importante da “democracia representativa”; mas ao mesmo tempo convergiu para espaços globais comandados por projetos reformistas, como o Fórum Social Mundial. Ao entender democracia direta em abstrato, usualmente se integrava em experiências de governo locais no Estado burguês; o ativismo defendia a “ação direta”, mas essa ação direta passou a ser cada vez mais confundida como a ação de vanguardas que apenas faziam propaganda de seus temas particulares (gênero, raça, cultura e etc.); o ativismo defendia a luta de gênero e antirracista como centrais, mas essa luta era concebida apenas em termos culturais, que levou a uma política que excluía a massa das mulheres e pessoas negras dos países periféricos.

Desse modo, o movimento antiglobalização e o ativismo que ele gerou tinha muitas das contradições da natureza ideológica. Ele ficou à mercê da ideologia pós-moderna e do neoliberalismo progressista. Sua crítica ao centralismo e ao socialismo “tradicional”, bem como a negação do “sindicalismo em si” abriram o flanco a sua convergência com o discurso neoliberal antissindical de direita, e enfraqueceu a própria capacidade de capilarização. É assim que o ativismo legou uma série de contradições aos novos movimentos de resistência que surgiram pós-2008, incluindo aí as Jornadas de Junho de 2013.

 

3 – O limites dos grupos autonomistas-libertários pós-J13

 

 Mais uma vez dizemos: não se trata de juízo de valor. O ativismo, como uma primeira expressão da resistência, deu uma grande contribuição às Jornadas de Junho. Foi sua alma. Justamente por suas peculiaridades, tornou impossível ao Estado contê-lo. Mas só no primeiro momento. As lutas de 2014 e 2015 mostraram que o Estado soube se preparar para, com repressão, cooptação e campanhas ideológicas, desmobilizar a grande massa da rua. O reformismo também soube absorver esse espírito, e o crescimento de Partidos como o PSOL e PT não pode ser explicados sem isso. Justamente nesse momento o ativismo começou a mostrar suas contradições e debilidades.

 

Desse modo, as Jornadas de Junho de 2013 foram profundamente marcadas pelo impacto do ativismo, que chegou ao Brasil por meio da juventude, mas também pelo próprio legado de espaços como o Fórum Social Mundial e de outros movimentos sociais. As Jornadas de Junho deram ao ativismo um caráter de massas de larga escala.

O ativismo se manifestou no Brasil pós-J13 por três fenômenos: 1º) formação e difusão dos Black Bloc, não apenas como tática, mas como uma política. Vários grupos se formaram para agir apenas como black bloc em grandes manifestações; 2º) fortalecimento e multiplicação de grupos de ação multiculturais  (pautas anti-discriminatórias de gênero, raça e etc.), mas normalmente esses grupos assumiram a forma de grupos de propaganda e contraculturais, fechados em si mesmos; 3º) uma combinação contraditória entre a proclamação da ação direta com uma profunda prática anti-organizadora, especialmente no nível micro (dos locais de trabalho e estudo), o que impediu uma ligação de lutas específicas e do discurso revolucionário com os problemas cotidianos da massa da população. Isso fez com que o ativismo, proclamando a necessidade de resistência, fosse capaz apenas de pequenas ações de vanguarda (pequenas passeatas, panfletagens, atos de solidariedade e etc.).

Mais uma vez dizemos: não se trata de juízo de valor. O ativismo, como uma primeira expressão da resistência, deu uma grande contribuição às Jornadas de Junho. Foi sua alma. Justamente por suas peculiaridades, tornou impossível ao Estado contê-lo. Mas só no primeiro momento. As lutas de 2014 e 2015 mostraram que o Estado soube se preparar para, com repressão, cooptação e campanhas ideológicas, desmobilizar a grande massa da rua. O reformismo também soube absorver esse espírito, e o crescimento de Partidos como o PSOL e PT não pode ser explicados sem isso. Justamente nesse momento o ativismo começou a mostrar suas contradições e debilidades.

Um exemplo para demonstrar os limites e debilidades do ativismo pode ser dado pela FIP-RJ. A Frente Independente Popular foi criada em agosto de 2013 para tentar aglutinar inúmeros coletivos, organizações e militantes oriundos das Jornadas de Junho. A UNIPA tomou parte na FIP, abrindo mão da proposta de sua proposição inicial de um Fórum de Mobilização de Base, mas sempre com uma posição muito clara: a FIP deveria ser um espaço para produzir a unidade nas ações de rua, planejar e coordenar as mesmas. Mas a dinâmica majoritária da FIP foi a de tentar unificar as organizações se constituindo como uma organização “permanente” do ativismo. O foco de sua ação ficou reduzido a duas dinâmicas: convocação de atos de rua e ações espetaculares, como o 7º de Setembro de 2013 e os atos da Copa de 2014; uma dinâmica de disputa entre coletivos e organizações dentro das plenárias da FIP pela sua natureza programática, como se a mesma devesse ter algum grau de uniformidade ideológica. Dessa política derivou uma dinâmica interna de plenárias que se perderam na marcação de posições de grupos e indivíduos e de um espaço de disputa em si, e não de coordenação das ações.

A primeira característica criou um profundo isolamento da FIP das bases sociais e das categorias de trabalhadores e estudantes. A FIP nem conseguiu ser eficaz em ser uma “frente”, unificando taticamente ações de rua, e ainda se descolou completamente das lutas e processo organizativo de base. Esse impulso da FIP era resultado justamente do predomínio da orientação “ativista”, que confundia a crítica da burocratização sindical e estudantil com a crítica da organização reivindicativa “em si”, chegando mesmo a uma visão anti-sindical. Essa falta de enraizamento de base ficou completamente explicita quando, depois da Copa de 2014 entramos num refluxo generalizado e as tentativas de convocação de atos ficaram cada vez mais restritas a grupos pequenos de ativistas. A função da FIP foi dominada pelo propagandismo e pela ideia de “ação direta” restrita a um fetichização da ação “Black Blocs”.

A Unipa fez na prática na propaganda a crítica desse processo. Apontamos a necessidade de não cair no vanguardismo, no propagandismo e a necessidade do trabalho de base. Essa crítica teve eco, mas não reverteu a tendência geral. A evolução dos acontecimentos demonstra que estávamos corretos. A FIP foi progressivamente se decompondo por lutas internas e refluxo das lutas. Mas o mais importante é, a FIP não conseguiu deixar nenhum legado organizativo mais profundo, apesar da importância da experiência. Do ponto de vista da classe, e não dos grupos que participaram da FIP, não houve nenhum resultado mais efetivo. Vejamos, a UERJ era o espaço de organização por excelência da FIP. Porém apesar da crise já estar clara no ano de 2015, a FIP não teve nenhum trabalho de preparação e resistência para antecipar e organizar estudantes, terceirizados, professores e técnicos para a resistência local. Somente com a entrada do sindicalismo revolucionário, com presença mais significativa no movimento estudantil, na UERJ começou a se esboçar um projeto de resistência das categorias, mas, mesmo assim, de forma ainda embrionária.

Das contradições desse processo, o ativismo se dividiu em dois campos: de um lado, aqueles e aquelas que reconheceram a importância da organização e do trabalho de base, aumentando as fileiras do movimento combativo e se somando na construção do sindicalismo revolucionário e do coletivismo; do outro lado aqueles e aquelas que foram incapazes de fazer a autocrítica e de entender a realidade da luta de classes do Brasil de hoje. Assim, os últimos caíram num “ativismo individualista”, que, na forma de coletivos de afinidades e de militantes isolados, procuram converter em virtudes os seus equívocos: a desorganização, o individualismo, o vanguardismo, o coleguismo.

O resultado é o seu total desenraizamento das lutas reais. O ativismo coloca seus anseios de expressão de uma falsa individualidade acima das lutas e das necessidades históricas da classe trabalhadora. Por isso se recusam aceitar e a cumprir deliberações coletivas que não atendam seus anseios individuais ou dos seus coletivos de afinidade. E recorrem às táticas da calúnia e da difamação sempre que são confrontados e perdem suas posições.

Desse modo o domínio do ativismo no Rio de Janeiro nos permite tirar algumas lições. o ativismo foi uma expressão legítima das Jornadas de Junho de 2013, sua alma; essa expressão, entretanto, se demonstrou insuficiente para dar resposta as grandes lutas que se seguiram (greve dos professores, dos garis, ocupações estudantis), que mostraram que as lutas se desenrolavam em cenários que o ativismo negava e/ou desconhecia; a tendência de crítica à centralização e partidos políticos degenerou numa postura anti-organizadora, que deixou essas lutas à mercê dos partidos reformistas e burocracia sindical; o mesmo ativismo ficou então refém da necessidade de contar com a burocracia sindical para chamar novos atos, mas sem disputar sua orientação ideológica e organizativa, aparecendo como um setor cada vez mais vanguardista ao conjunto do movimento; paradoxalmente, um setor grande do ativismo flertou ou foi absorvido pelo PSOL e suas correntes, justamente pelo discurso “multicultural”, e mais recentemente, parte desse “ativismo” é absorvido pelo “neolulismo” conduzido pelo LPJ (Levante Popular da Juventude).

O ativismo então se mostra incapaz de conseguir rivalizar com o reformismo, e está cada vez mais em recuo. A ideologia anti-organizadora (e anti-sindical) desenraizada das massas reforça essa crítica. As lutas que se seguiram assumem cada vez mais a base de categorias (ocupações estudantis, greves), e como o ativismo não tem uma estratégia global fica a margem destas, cumprindo no máximo um papel defensivo. Como consequência, o reformismo tem um terreno livre e consegue se revitalizar nas lutas das categorias, mesmo com a crítica do ativismo.

 

4 – Superar o ativismo e construir o anarquismo e o sindicalismo revolucionário!

 

A luta de classes se agudiza nacionalmente e internacionalmente. Tal processo explicita as debilidades ideológicas, teóricas e práticas das diferentes concepções. O ativismo não entrou em crise apenas em razão da repressão, mas da sua incapacidade de dar respostas ideológicas e organizativas adequadas à conjuntura.

Compreender os limites do ativismo, especialmente sua tendência individualista e anti-organizadora, assim como os limites das diversas concepções de reformismo, é uma necessidade fundamental. Somente o anarquismo e o sindicalismo revolucionário podem superar os impasses do ativismo e do reformismo. Temos uma série de desafios a enfrentar, mas é preciso organizar coletivamente nas bases para a resistência.

Por isso conclamamos os anarquistas revolucionários a se somarem a construção da Unipa, de seus Pró-núcleos e Comitês de Apoio e Propaganda. Conclamamos a construção do sindicalismo revolucionário, das organizações de base de luta e resistência nas categorias. Essa é uma tarefa imediata. Fora dela tudo é ilusão.

 

Anarquismo é Luta! Ousar lutar, ousar vencer!

 


[1]                      É importante observar que os anarco-comunistas sempre tentaram, em vão, uma reunificação da antiga AIT. Sua adesão ao programa comunista era parte dessa tentativa de reunificação.

[2]                      O principal teórico do anarco-capitalismo é Robert Nozick (1938-2002) que segue a matriz da escola neoliberal, mais precisamente da “libertariana”. Retoma radicalmente as teses de John Locke e de Adam Smith fazendo uma crítica ao estado socialdemocrata e a apologia ao individualismo.

[3]                      Murray Bookchin (1921-2006). Foi marxista na sua juventude, rompeu com o comunismo e tornou-se anarquista no sentido mais genérico do termo. Foi um dos teóricos da ecologia social.

[4]                      O estranho nome era em alusão ao nome de uma música.

[5]                      “Na sua forma norte-americana, o neoliberalismo progressista é uma aliança da corrente principal dos novos movimentos sociais (feminismo, antirracismo, multiculturalismo e direitos LGBTQ), por um lado; e altos setores empresariais “simbólicos” e serviços (Wall Street, Vale do Silício e Hollywood), por outro. Nesta aliança, as forças progressistas estão efetivamente unidas às forças do capitalismo cognitivo, especialmente a financeirização. No entanto, involuntariamente, os primeiros emprestam seu carisma a este último. Ideais como a diversidade e o “empoderamento”, que, em princípio, poderiam servir para fins diferentes, agora lustram políticas que devastaram a indústria e o que antes eram vidas de classe média.O neoliberalismo progressista se desenvolveu nos EUA durante estas últimas três décadas e foi ratificado pela vitória eleitoral de Bill Clinton à presidência, em 1992. O ex-presidente estadunidense foi o engenheiro-chefe e padronizador dos “Novos Democratas”, o equivalente estadunidense do “Novo Trabalhismo” de Tony Blair. Em vez da coalizão do New Deal entre os operários industriais sindicalizados, afro-americanos e classe média urbana, Clinton forjou uma nova aliança de empresários, moradores de condomínios, novos movimentos sociais e jovens: todos proclamando orgulhosos sua autenticidade moderna e progressista, amante da diversidade, multiculturalismo e dos direitos das mulheres. Mesmo quando endossava tais noções progressistas, o governo de Clinton cortejou Wall Street”. Ver Nancy Fraser, “O Fim do neoliberalismo progressistahttps://www.brasildefato.com.br/2017/01/27/o-fim-do-neoliberalismo-progressista/.

[6]                      Um exemplo recente foi a posição de megacorporações como Google e Microsoft contra a política de Trump de restringir a migração para os EUA. Várias dessas empresas fizeram declarações contrárias e realizaram uma campanha de defesa dos imigrantes, ver https://uoltecnologia.blogosfera.uol.com.br/2017/01/30/gigantes-da-tecnologia-contra-trump-empresas-reagem-a-ato-anti-imigracao/.

[7]                      É importante observar que para o movimento antiglobalização confluíram também organizações sindicalistas revolucionarias remanescentes da grande tradição anarquista, bem como os remanescentes dos grupos autonomistas alemães dos anos 1980. Esses grupos sempre mantiveram uma identidade própria e foram, ao final dos anos 2010 e em razão das contradições das lutas nacionais, retomando seu caráter sindical e de base.

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