A crise política e a função dos anarquistas e revolucionários

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Comunicado nº 46 da União Popular Anarquista – UNIPA

Brasil, Março de 2016.

A crise política brasileira evoluiu para uma polarização social que exige uma resposta teórica e prática. As manifestações de massa dos dias 13 de março de 2016 (dirigida pelo bloco burguês-conservador ou a chamada “direita”) e do dia 18 de março (do bloco socialdemocrata-governista, dirigida por um setor de pequena burguesia e da aristocracia operária e sindical, a chamada “esquerda”) mostram que tal polarização social alcançou um nível significativo.

Uma correta teorização é precondição para uma correta linha de ação, especialmente quando a polarização social entre direita e esquerda induziu ao empobrecimento do debate político, a uma leitura maniqueísta e a soluções simplistas e contraditórias. Nós sabemos que a complexidade da situação e seu dinamismo não nos permite fazer afirmações categóricas, nem temos a pretensão de ter uma leitura completa. Mas assumimos com humildade a responsabilidade de fixar um ponto de vista anarquista e revolucionário e contribuir para aqueles que querem uma alternativa, que não seja nem burguesa e conservadora, nem governista. 

Essa tarefa se mostra mais necessária em razão do fato do bloco burguês-conservador e o bloco socialdemocrata estarem pautando a política e a luta de massas. Em 2013, a ação direta de classe e a extrema esquerda pautaram a política nacional. Mas a desorganização e fragmentação das massas, a imaturidade de suas formas organizativas, fez com que essa força criadora não pudesse se colocar como uma alternativa hoje. Essa autocrítica precisa ser realizada por todos os setores combativos e libertários.

Nós também subestimamos a ofensiva burguesa. Nos parecia que o caminho mais provável seria desgastar lentamente o PT sem tentar derrubar o governo, aguardando 2018. Hoje, tal ofensiva se mostra sob a forma de um golpe, não um golpe de Estado, mas de um golpe institucional dentro de um Estado de Exceção criado pelo bloco no poder do qual o PT faz parte e que agora quer tirar as funções dirigentes do PT por meio do impeachment (esse modelo de golpe institucional possui paralelos em Honduras em 2009/10 e no Paraguai mais recentemente). Nesse sentido, precisamos compreender essa crise no seu aspecto inovador e suas implicações, pois elas podem modificar bastante os cenários da luta de classes. A burguesia lançou uma ofensiva contra o PT e suas bases de classe e possivelmente irão derrubar o governo do PT com o impeachment.

Por isso fixamos aqui alguns elementos necessários à compreensão da crise. Ao contrário de ser uma luta entre “direita e esquerda”, ou entre os “defensores da democracia contra o golpe” ou da “democracia contra a corrupção”, essa luta expressa contradições de classes, geopolíticas e de nuances estratégicas de cada bloco. Podemos dizer que a atual situação, hoje, tem dimensões que exigem compreensão: 1) a geopolítica e concorrência imperialista; 2) a ruptura do bloco no poder; 3) a agudização da luta de classes pela apropriação da renda nacional. Continuar lendo

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8 de Março: As condições sociais do machismo e os desafios das mulheres trabalhadoras

mujer O Brasil está entre os países que cometem mais violência contra mulher. Segundo dados do Mapa da Violência 2015 (Cebela/Flacso) o país ocupa a quinta posição em um ranking de 83 nações com maior índice de homicídios femininos. Entre 1980 e 2013, 106.093 brasileiras foram vítimas de assassinato. Somente em 2013, foram 4.762 assassinatos de mulheres registrados no Brasil. Os dados também mostram a taxa de assassinatos entre as mulheres negras aumentou 54% em dez anos, passando de 1.864, em 2003, para 2.875, em 2013, caindo o número de homicídios de mulheres brancas.

Além da violência, as mulheres trabalhadoras têm duplas e triplas jornadas de trabalho. Realizam atividades para prover e complementar o sustento da família, o trabalho doméstico não remunerado e o cuidado com os filhos, tarefas impostas como de realização exclusiva das mulheres, o que é propício para a continuação da exploração e reprodução do machismo. Ainda sofrem com a sexualização e objetivação de seus corpos, sendo vítimas de assédios e culpabilizadas por isso. No Brasil as mulheres trabalhadoras ainda morrem em clínicas clandestinas de aborto.

As trabalhadoras negras ocupam os piores postos de trabalho, tendo os salários mais baixos. Grande parte dessas mulheres está emprega no setor de serviço, na limpeza, e geralmente terceirizada. Além disso, as mulheres trabalhadoras sofrem ainda mais com as péssimas condições do transporte coletivo, assédio e tarifas abusivas, dificultando o acesso ao trabalho, saúde e estudo. As mulheres ficam assim dedicadas aos trabalhos ditos domésticos enquanto continua a falta de investimento em creches públicas, restaurantes e lavanderias populares. Dados do IBGE mostram que as mulheres ocupam cerca de 27 horas semanais com trabalho doméstico, enquanto os homens apenas 10 horas.

A ilusão da libertação feminina no sistema capitalista

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Protesto de operárias em 8 de Março na Rússia. Mobilizações corroborou para situação revolucionária naquele ano.

A opressão capitalista contra as mulheres se expressa pela violência dos patrões e governos e pela parcela de trabalhadores que brutalizados pelo sistema (resultado das condições desesperadoras de existência em ambientes precários, invadidos pelas drogas, pela violência e pela cultura patriarcal) reproduzem a opressão da classe dominante. O capitalismo é o responsável por todos os crimes que atingem a vida dos pobres.

A liberação burguesa da mulher em nada contribui para a construção de uma sociedade justa e igualitária. Não queremos a “liberdade” de competir e usufruir do poder exercido pelos homens.

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Milicianas na Guerra Civil Espanhola (1936-39). Mulheres estiveram na linha de frente das lutas, coletivizações e resistência ao fascismo.

Até emancipação integral dos trabalhadores, só possível no socialismo, tudo o que oprime os homens e mulheres, rouba ou gere violência contra a classe trabalhadora deve ser combatido! A revolução da qual todos devem participar é a revolução social capaz de destruir o Estado e o capital. As organizações e partidos que não possuem um projeto político revolucionário apenas tentam realizar no plano das lutas a liberdade concedia pela classe dominante às mulheres, inclusive, a liberdade de reafirmar e reproduzir o poder da burguesia sobre o conjunto dos trabalhadores. Os governos, a justiça burguesa, os patrões e a polícia são os principais realizadores da violência contra as mulheres trabalhadoras.

Combater o machismo e a exploração! Pela integral emancipação das mulheres! Pela Revolução Social!

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Rompimento das barragens da Vale: mais mortes e impactos socioambientais na conta da gerência petista

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No dia 5 de novembro de 2015, o rompimento das barragens de rejeitos de minério da VALE em Mariana (MG), se apresentou como mais uma expressão dos efeitos devastadores da lógica neodesenvolvimentista empreendida pelos governos do PT.

A mineração e os interesses da burguesia

No Brasil, os projetos extrativistas para a exploração de minérios, petróleo e gás estão entre as atividades que mais geram lucro para a burguesia, intermediados pelo Estado e pelo capital internacional. O PAC 1 (2007- 2010) e o Plano IIRSA, conduzidos pelo PT, visam criar corredores de exportação de minério, energia e produtos agrícolas por toda América Latina, e não por acaso, são esses os setores da economia que mais empregam e matam trabalhadores terceirizados, produzem impactos sócio-ambientais irreversíveis, dizimam camponeses, indígenas e quilombolas e aniquilam as comunidades onde se estabelecem empresas e obras extrativistas.

A revisão do Código de Mineração garantindo privilégios de grandes empresas e ocorrendo em sintonia com a paralisação de reconhecimento de direitos territoriais de comunidades tradicionais (PEC 215 e outros), aponta mais uma vez como Estado e capital orquestram interesses contra o povo. Continuar lendo

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VIA COMBATIVA | Entre a tutela estatal e a revolução: Algumas considerações sobre a história do sindicalismo rural e da luta camponesa

Para contribuir na formação política militante, estaremos relançando todas às sextas-feiras no site da Unipa os artigos de Via Combativa – uma revista de teoria política anarquista. Acompanhe!

vc3eUNIÃO POPULAR ANARQUISTA. Entre a tutela estatal e a revolução: Algumas considerações sobre a história do sindicalismo rural e da luta camponesa. Via Combativa, Brasil, Nº 03, p. 28-33, janeiro de 2011.


Entre a tutela estatal e a revolução: Algumas considerações sobre a história do sindicalismo rural e da luta camponesa

“A terra pertence a quem nela trabalha, à comuna rural. O capital e os instrumentos de trabalho pertencem aos operários, às associações operárias.” Mikhail Bakunin, 1868.

1 – Introdução

Os camponeses brasileiros possuem uma longa trajetória de lutas e enfrentamentos com o Estado, porém, é especialmente a partir da década de 1940 que a organização camponesa começa a tomar contornos organizativos nacionais. De fato, o surgimento do sindicalismo oficial é uma importante característica desse processo de luta dos camponeses, no entanto, surge muito mais como elemento negativo do que positivo para os interesses históricos da classe trabalhadora. Enquanto nas cidades e centros urbanos o proletariado teve um forte período sob a direção do sindicalismo revolucionário, modelo organizativo, programático e estratégico baseado na política anarquista na AIT (Associação Internacional dos Trabalhadores), no campo a independência de classe se deu de forma mais difusa, descontínua, e também esteve muito mais relacionada às organizações de tipo associações e ligas camponesas.

A pesar das lutas camponesas através das associações e ligas poderem também ser consideradas como lutas sindicais reivindicativas (em seu sentido amplo e histórico), o “sindicalismo rural” propriamente dito surge como tal no Brasil com três intencionalidades: 1) Como iniciativa dos setores mais ortodoxos do Partido Comunista, a sindicalização surge como necessidade de separar os assalariados rurais da influência do campesinato (visto erroneamente como pequena-burguesia e conservador). Além disso, alguns setores comunistas juntaram a isso a necessidade de esvaziar as associações e ligas camponesas (que de maneira difusa eram quem aplicavam a ação direta) e fortalecer a luta reivindicativa legal como base de apoio da disputa parlamentar; 2) O Estado primeiramente buscou a contensão e repressão da organização sindical camponesa, porém, a partir do governo João Goulart (1961-1964) e especialmente durante a ditadura civil-militar (1964-1985) o sindicalismo rural será o principal meio de controle do campesinato; 3) Além disso, não poderíamos deixar de considerar o fato de que existiram também muitos sindicatos rurais que surgiram autônomos da estrutura estatal e diversos dirigentes sindicais combativos que lutaram para manter essa autonomia (até hoje não podemos deixar de considerar essas realidades).

Não podemos tomar as realidades e a história de maneira unidimensional, devemos considerar os conflitos entre as organizações e a luta de classes como o motor de nossa compreensão. A história não é um cumulativo de modos de produção que se sucedem na história. A economia é um elemento determinante (se tomado em seu aspecto real, ou seja, relativo) na história, mas a política, as organizações sociais, as ideologias, são também partes da totalidade social. Portanto, a história do sindicalismo e da luta camponesa deve ser pensada como uma arena de disputas e conflitos: entre reformistas e revolucionários, entre a burguesia e a classe trabalhadora, entre as diversas organizações.

Atualmente vivemos dilemas fundamentais da organização dos trabalhadores e do socialismo. As jornadas de junho foram apenas uma demonstração de um novo período que se abre na luta de classe em nosso país, onde as contradições entre as burocracias sindicais e partidárias (atreladas ao governo e aos cargos burocráticos, ainda que como mera virtualidade) e as massas trabalhadoras se aprofundam. A crise de organização e direção dos trabalhadores finalmente parece apontar uma resolução, mas apenas como possibilidade. É para ajudar com essa tarefa que esse artigo se insere: contribuir para a compreensão das raízes da crise de organização dos camponeses, especialmente através do papel que cumpriu historicamente a política reformista do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e do sindicalismo de Estado no campo. Continuar lendo

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Novo e-mail de contato com a Unipa

A Unipa passou por problemas no antigo e-mail divulgado neste site e em documentos de propaganda o que resultou em não-respostas por este canal. Pedimos desculpas pelo contratempo. Em razão disso, pedimos que os novos contatos sejam refeitos por um novo e-mail:

unipa@hacari.org

Agradecemos a compreensão! E nos vemos nas barricadas!

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[TURQUIA] O ESTADO É ASSASSINO, NÓS VAMOS DESTRUI-LO!

* Mensagem da Turquia, tradução livre.

Hoje, no dia 6 de novembro, a polícia atacou a ação contra o Conselho de Educação Superior, na Universidade de Istambul. A polícia cercou os revolucionários, que foram atacados com balas de borracha e gás lacrimogêneo. Elas levaram 18 revolucionário em custódia dolorosamente. Durante esse ataque na Universidade de Istambul, seis dos nossos camaradas da Juventude Anarquista foram levados sob custódia pela força, todos eles foram arrastados e agredido. Agora, seus tratamentos são bloqueados pela polícia. O estado está realizando seus ataques em toda esta geografia. O estado quer nos desencorajar nos colocando sob custódia, torturas ou detenções. Mesmo assim, nós somos apenas como nossos camaradas na Universidade de Istambul hoje, vamos gritar, firmes, de cabeça erguida e destruir o Estado. Vamos organizar até que acabe todos as formas de poder sobre nossas vidas, nós vamos lutar e defender a liberdade! Viva a Revolução, Viva o Anarquismo!


STATE IS MURDERER, WE WILL DESTROY IT!

Today; on the 6th of November, the police attacked to the action against the Higher Education Board, in İstanbul University. The police surrounded the revolutionaries, and attacked with plastic bullets and tear gas. They took 18 revolutionary into custody excruciatingly. During this attack in İstanbul University, six of our comrades from Anarchist Youth were taken into custody by force, they were all dragged and assaulted. Now, their treatments are blocked by the police. The state is going on his attacks all around this geography. The state wants to discourage us by taking into custody, by tortures or arrests . Nevertheless; we are just like our comrades in the Istanbul University today, going to shout out, stand fast, hold our heads high and destroy the state. We are going to organise till we erase all kinds of power from our lives, we are going to fight and cerate freedom Long live revolution, Long live Anarchism!

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VIA COMBATIVA | Anarquismo e Questão Agrária

Para contribuir na formação política militante, estaremos relançando todas às sextas-feiras no site da Unipa os artigos de Via Combativa – uma revista de teoria política anarquista. Acompanhe!

vc3dUNIÃO POPULAR ANARQUISTA. Anarquismo e Questão Agrária. Via Combativa, Brasil, Nº 03, p. 22-27, janeiro de 2011.


Anarquismo e Questão Agrária

O debate sobre a questão agrária teve um lugar decisivo na história do socialismo e das revoluções. No campo do marxismo, este debate teve suas posições derivadas da posição de Marx, Engels, Kaustki e Bernstein na social-democracia e depois sendo reformulada por Lenin e Mao-Tse-Tung. Além dessas posições, um setor “nacionalista” e republicano também teorizou a questão agrária e o lugar dos camponeses na revolução (do qual o modelo foi o “populismo russo”). Seja para o marxismo, seja para o republicanismo nacionalista burguês, o campesinato sempre teve um lugar “instrumental” na política, como veremos.

Pouco se conhece sobre a contribuição decisiva do anarquismo e das teses coletivistas para a formação dos movimentos sociais camponeses e a luta dos trabalhadores rurais. E ao contrário do nacionalismo e da social-democracia, para o anarquismo o campesinato e os trabalhadores rurais cumprem um papel fundamental na revolução não somente como força de apoio, mas como sujeitos construtivos. Essa diferença na forma de entender a questão agrária e o lugar do campesinato na política revolucionária é um dos principais elementos a marcar a diferença entre bakuninismo e marxismo e entre a teoria anarquista da revolução e as concepções comunista e burguesa. Continuar lendo

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