CAUSA DO POVO 76

CAUSA DO POVO 76 – PDF causa do povo

2017: Da Rebelião das Bases ao Controle da Burocracia (pág 2)
O Aumento da Violência de Estado contra o Povo( pag 3)
Na Luta contra a Burguesia e a Consolidação do Estado de Exceção: Uma Análise Anarquista da Conjuntura Brasileira.(pag 4 e 5)
A Revolução de Rojava vencerá! (pag 6)
Todo Poder aos Sovietes: Os 100 anos da Revolução Russa (pag 7)

1917 – 2017: 100 anos da Greve Geral no Brasil(pag 8)

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2017: DA REBELIÃO DAS BASES AO CONTROLE DA BUROCRACIA

O ano de 2017 prometia ser um ano de lutas radicais. Após um 2016 que foi marcado pelas lutas estudantis com ocupações nas escolas e universidades brasileiras e a luta contra PEC 241 (a pec do teto para os gastos públicos), que teve seu ápice no grande ato de 29 de novembro. Então,  2017 começou com a expectativa de greve geral contra as reformas neoliberais (trabalhista, previdência) do governo Temer (PMDB). Todo o cenário estava armado para que as lutas em 2017 contivessem um caráter altamente explosivo, ampliando a tensão entre base e burocracia.

O ano de lutas começou com os preparativos para as mobilizações do dia 15 de março convocado pelas Centrais Sindicais, pressionado pelas bases, que ocorreu em diversas capitais e cidades de todo o Brasil com números expressivos de manifestantes, 100 mil para o Rio e 200 mil para São Paulo. A pauta do momento foi a Reforma Trabalhista, aprovada em julho, que está atingindo em cheio os direitos trabalhistas e aprofundará a precarização das relações de trabalho no Brasil. Já altamente precarizadas.

Entretanto, nas ruas o que se viu foi o racha que existe hoje entre as Centrais Sindicais e a classe trabalhadora. Se a última estava ali, em seu conjunto, para defender os seus direitos e sua condição de vida, as Centrais lutavam pelos seus interesses próprios que são, como nós indicamos no comunicado nº 50: “garantir o imposto sindical e garantir que as lutas aconteçam apenas enquanto alimentem a campanha Lula 2018.” E para garantir seus objetivos, as Centrais colocaram seus famosos “bate-paus” para espancar militantes dissidentes, no Rio de Janeiro e no Ceará foram diversos os relatos de espancamento de homens e mulheres por militantes da CUT, Força Sindical e MTST.

A partir disso, ficou claro que a burocracia sindical tentaria controlar e impedir qualquer acirramento nas próximas mobilizações, já que o objetivo do momento era renovar a legitimidade do PT para construir uma base eleitoral para 2018, junto a isso buscava-se impedir que as bases lançassem mão de formas de resistência que colocassem em xeque o poder da burocracia sindical.

Isso ficou claro com a convocação para a Greve Geral de 28 de Abril (28A), com os diversos recuos na construção, como no caso do Rio de Janeiro, onde as Centrais marcaram um “Ato Show” com artistas e políticos. Entretanto, trabalhadores de diversas categorias demonstraram como se faz uma Greve Geral estabelecendo piquetes, barricadas e realizando um ato na ALERJ que foi reprimido pela polícia militar. Enquanto parcela significativa da classe trabalhadora clamava por uma nova greve geral, as centrais optaram por esfriar os ânimos. Por outro lado, ficou evidente a incapacidade de romper o cerco burocrático das centrais por parte das bases e dos pequenos grupos revolucionários.

Um mês depois, no dia 24 de maio, com o Ocupa Brasília ficou claro que o caminho das lutas de 2017 deveria ser a combatividade preconizada por setores revolucionários. O método da Ação Direta se espalhou e até setores do reformismo (Conlutas) saíram da passividade e passaram a atuar de maneira combativa, o que surpreendeu a própria burocracia sindical, que esperava uma situação mais tranquila em Brasília, como forma de pressão parlamentar.

Novamente a burocracia sindical arrefeceu as lutas e puxou uma mobilização para dia 30 de junho, que foi verdadeiro fracasso e aumentando o imobilismo de base diante do controle das centrais.

Enquanto isso, a burocracia sindical (CUT, CTB) continuou praticando seu sindicalismo propositivo recorrendo a negociações palacianas e a uma campanha eleitoral envergonhada (Caravana do Lula-PT), resposta ao ataque político do judiciário, do imperialismo e de parcela da classe dominante apoiada pela pequena burguesia. Seu último passo foi abandonar as mobilizações contra a Reforma da Previdência para o dia 5 de dezembro com a justificativa que a votação do texto da Reforma foi adiada. Como se o calendário da classe trabalhadora tivesse que ser pautado no calendário da burguesia e de suas instituições.

Para enfrentar a burocracia sindical e sua eterna política de desmobilização da classe trabalhadora é fundamental desenvolver uma luta política e ideológica: denunciar a função auxiliar da repressão policial da burocracia sindical; denunciar seu projeto de absorver as lutas dos trabalhadores nos seus próprios interesses de partido, desorganizando a resistência para construir seu projeto de “re” conquista do aparelho de Estado. Mas mais do que denunciar, é fundamental construir o sindicalismo revolucionário para romper o cerco do sindicalismo de estado e socialdemocrata.

As diversas mobilizações demonstraram que o reformismo é incapaz de agir fora da institucionalidade estatal, cumprindo diversas vezes o papel de repressão e apaziguador do antagonismo de classe. No entanto, o próprio reformismo tem procurado se renovar com um verniz “libertário” na medida em que os setores revolucionários não conseguem avançar. O Ano de 2017 demonstrou que a saída é a Greve Geral. Esta não é a reunião de presidente de centrais num escritório, mas sim a articulação das diversas greves pelas bases das categorias. É a unificação das lutas e de apoio política a cada categoria em luta ou a um luta especifica. Para a partir dessa solidariedade ocorrer diversos levantes nas cidades brasileiras que articule um duro golpe na reação burguesa e avançar na proposta organizativa de construção do Congresso do Povo.

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Todo Poder aos Sovietes! Do autogoverno das trabalhadoras e trabalhadores a sua destruição!

Em Outubro de 2017 se comemoram 100 anos da Revolução Russa. Talvez um dos processos históricos mais importantes já vivenciados pela humanidade, a Revolução Russa é um dos maiores exemplos de luta e vitória da classe trabalhadora mundial. É um exemplo de como os governados e governadas, exploradas e explorados e oprimidos e oprimidas passaram a dirigir suas vidas num verdadeiro ímpeto democrático de formação de autogoverno, já ensaiado em 1905, a partir de influências do anarquismo.
Em 1917,o Império Russo se encontrava em total decadência com a miséria dos trabalhadores, a fome dos camponeses e o extermínio dos soldados envolvidos na I Guerra Mundial, quando em fevereiro de 1917, um governo de coalização socialdemocrata assumiu as rédeas do país, mantendo a intenção de formação de uma governo provisório tipo democrático-burguês, posição também defendida pelos Mencheviques e Bolcheviques.

Na Rússia pré-revolucionária a composição do movimento de massas se dava da seguinte maneira. Existiam duas grandes organizações partidárias, o Partido Operário Social-Democrata(filia do a II Internacional) e o Partido Socialista Revolucionário. Os grupos anarcocomunistas eram representados por inúmeros pequenos grupos locais. Todos os grupos eram subdivididos em correntes de direita e esquerda (melhor exemplificada pela histórica divisão entre bolcheviques e mencheviques), mas os SR e anarquistas também.

Podemos dizer que o processo revolucionário russo se desenrolou em torno de duas questões fundamentais: a posição frente a derrubada da monarquia e a posição ante a Primeira Guerra Mundial imperialista.

Na dinâmica da revolução russa podemos encontrar a experiência de aplicação da teoria da revolução permanente ou etapista e do industrialismo do marxismo. E como ela foi sucessivamente mostrando suas contradições e permitindo a integração sistêmica do marxismo. Isso fica explícito pelo desenrolar da própria luta revolucionaria. O setor marxista que conseguiu se tornar dirigente da revolução foi exatamente o setor que rompeu com a Internacional Social Democrata em razão da sua posição diante da Guerra.

A Revolução Russa também nos ensina como as trabalhadoras e trabalhadores e camponesas e camponesas arrastaram as forças políticas para revolução e seu avanço em direção ao socialismo, se transformando em “vanguardas” da revolução enquanto as direções partidárias insistiam na política de transição e na assembleia constituinte. A greve de tecelãs, a insurreição, a tomada de terra nos campos e a reconstituição dos Sovietes é o exemplo disso.

Depois de formado o governo provisório, em fevereiro de 1917 as duas alas da social-democracia russa, Mencheviques e Bolcheviques, começavam a confluir para o apoio a uma revolução democrática-burguesa. Só quando Lênin retorna a Rússia defendendo uma outra linha programática, praticamente revisionando a linha política marxista, é que essa confluência começa a ser rompida. Seria necessário passar das tarefas democráticas (derrubada da monarquia) as tarefas socialistas. Em consonância com a pressão dos operários, soldados e camponeses passa a defender a supressão do Exército, da Polícia e da Burocracia, a formação de um “Estado Tipo-Comuna”. Defende a organização dos sovietes de operários e camponeses e o combate ao governo provisório, posição que sofreu ataque interno.

Mesmo rompendo com a política da II Internacional e aceitando a luta clandestina e negando a redução parlamentarista e nacionalista, não rompe com a perspectiva de uma revolução por etapas, com a instauração de um Estado de transição do capitalismo ao comunismo.

Em outubro de 1917, as trabalhadoras e trabalhadores definem fazer uma insurreição, que são primeiramente negadas pela direção Bolchevique, tendo a linha de Lenin e Trotky, de apoio a insurreição vencido depois da negação (duas vezes) da direção partidária.

A revolução de outubro foi então o assalto aos céus tendo camponeses e operários derrubado o Estado Burguês e formado inicialmente um autogoverno das trabalhadoras e trabalhadores com base na livre federação, sob liderança do partido Bolchevique e dos Socialistas Revolucionários.

Com a reação da nobreza, dos senhores de terra e da burguesia teve início uma guerra civil que se alastrou por todo território russo e pelos países do entorno. Durante a guerra civil temos a instauração de uma comunismo de guerra, tendo em vista também o cerco internacional. Também se iniciou o processo de constituição de uma autoridade central a partir de Moscou, e portanto, um processo de reação e ultracentralização do poder. Já em dezembro de 1917 é formada a polícia política Tcheka que será responsável pela perseguição de anarquistas e revolucionários contrário a centralização de poder.

Entre Julho e setembro de 1917 os anarco-comunistas da região de Goulai-Polé, Na Ucrânia, se mobilizaram organizando Uniões Operárias e Camponesas e rompem com os organismos de poder do governo provisório. São organizados Comitês agrários com os camponeses que se vinculam aos Sovietes de Deputados Camponeses, Operários, Soldados e Cossacos.

A formação do exército negro (makhnovtchina) pelos camponeses de Gulai Polé com a liderança destacada de Nestor Makhno demarca também a contraposição do anarco-comunismo internacional representado na Rússia pelo individualismo literário de Tolstoi e pelo educacionismo de Kropotkin.

O exército insurrecional submetido ao sovietes de Gulai Polé teve importância destacada nas batalhas ocorridas em território ucraniano. Combatendo contra os exércitos do imperialismo e se aliando ao Partido Bolchevique, os camponeses ucranianos deram provas reais da capacidade de organização e efetividade da teoria anarquista.

Após derrotar o Exército Insurrecional derrotar os exércitos inimigos, o Exército Vermelho, sob liderança de Trotsky, ordena o ataque ao Exército liderado por Nestor Makhno, obrigado a se exilar, onde se tornará um dos principais teóricos do anarquismo, lançando no exílio junto com camaradas combatentes a revista Dielo Truda (Causa Operária). Esse documento será responsável por estabelecer os debates acerca da Plataforma Organizacional dos Comunistas Libertários.

Conforme afirma Makhno, “O mês de Outubro de 1917 é uma grande etapa histórica da Revolução russa. Esta etapa consiste na tomada de consciência dos trabalhadores – das cidades e do campo – dos seus direitos de controlar as suas próprias vidas e o seu patrimônio social e econômico: o cultivo da terra, as habitações, as fábricas, as minas de carvão, os transportes e, enfim, a instrução, que servia outrora para destituir os nossos antepassados de todos esses bens.”

100 anos depois, devemos utilizar a Revolução Russa e a atuação da Makhnovtchina como exemplo para a organização do povo trabalhador e como aspiração para a libertação da classe trabalhadora. Seus caminhos e descaminhos devem ser mapa para guiar os revolucionários do século XXI, guardando os acertos e solucionando os erros.

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Um século da Greve Geral – 1917-2017

Texto Causa do Povo (Dez-Jan)

No mês de julho de 1917, na cidade de São Paulo, os trabalhadores deflagraram aquele que se tornaria o maior grevista do Brasil até visto. Aproximadamente 100 mil trabalhadores, homens, mulheres e crianças, paralisaram a capital paulista.

A deflagração da greve ocorreu no bairro industrial da Mooca, pelos operários e operárias da fábrica têxtil Cotonifício Crespi, que reivindicavam aumento salarial de 10 a 20% e eram contra a extensão do horário de trabalho noturno, imposto pelos donos da fábrica.

Os operários e operárias estavam organizados na Liga Operária da Mooca, cuja secretária era a operária Maria Angelina Soares. Assim, quando os donos da fábrica partiram para a repressão, ameaçando os grevistas de demissão, o movimento expandiu para outras fábricas.

Greve Geral em São Paulo, SP, 1917. Coleção História da Industrialização no Brasil, São Paulo, foto 208. Arquivo Edgard Leuenroth.

A polícia reprimia as manifestações, entretanto, mais e mais trabalhadores e trabalhadoras aderiram ao movimento. Além da solidariedade de classe, a luta contra ao custo de vida, a precariedade do trabalho, as desigualdades salariais, pois as mulheres recebiam a metade do salário dos homens, enquanto as crianças recebiam apenas 10%, moviam os trabalhadores na adesão à greve.

No dia 9 de julho o sapateiro Jose Ineguez Matinez, militante anarquista de origem espanhola, morreu em decorrência de um tiro disparado pela polícia. A revolta pelo assassinato do operário Jose Matinez se generalizou e o momento cresceu ainda mais.

Também no mês de julho foi criado o Comitê de Defesa Proletária, com o objetivo de garantir a organização e a continuidade do movimento grevista. A formação inicial do Comitê contava com as ligas operárias da Mooca e do Belenzinho, das ligas operárias das diversas categorias em greve, do Centro Libertário de São Paulo e do Centro Socialista de São Paulo. O operário tipógrafo, nascido no interior de São Paulo, o anarquista Edgard Leurenroth foi eleito secretário do Comitê de Defesa Proletária.

Com a atuação do Comitê, no dia 11 de julho 54 fábricas aderiram ao movimento de greve. No dia 12 foram os padeiros, leiteiros, trabalhadores das companhias de gás e de luz também paralisaram. A greve geral havia sido deflagrada. Sem luz, sem gás e, consequentemente, sem transporte, a cidade de São Paulo parou.

A organização da greve contou não só com o Comitê, mas também com as organizações locais dos trabalhadores e trabalhadoras reunidos nas ligas operários dos bairros. Assim, as adesões cresciam e as manifestações se radicalizavam. A repressão não conseguia conter o movimento, mesmo depois de dois outros assassinatos e da prisão de diversos grevistas, principalmente das lideranças anarquistas.

Diante da organização e da capacidade de resistência dos grevistas, os empresários e o governo começaram a ceder às reivindicações operárias. Os empresários se comprometeram com o aumento de 20% sobre os salários em geral, respeitar a liberdade de organização operária, não demitir ninguém por motivo de greve e pagar os salários da primeira quinzena de julho. Já os compromissos do governo foram: libertar todos os grevistas presos, reconhecer o direito de liberdade de organização operária, fiscalizar a alta dos preços, regulamentação do trabalho infantil e feminino e estudar restrições do trabalho noturno de mulheres e crianças. Com as reivindicações atendidas, a greve foi suspensa no dia 16 de julho.

            O movimento grevista também tinha de espalhado por outras cidades paulistas, Santos, Sorocaba, Jundiaí e Campinas. Em Campinas destaque-se a atuação da Liga Humanitária dos Homens de Cor, organização de operários negros. O movimento ainda atingiu o sul do país, com greves no Rio Grande do Sul e o nordeste, com greves em Pernambuco.

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RESOLUÇÕES VI CONUNIPA

“Insurgir-se: Combater o fascismo-imperialismo e o reformismo, duas faces da reação capitalista-racista-patriarcal”

Resoluções do VI Congresso da União Popular Anarquista, Realizado no mês de novembro de 2016

Série Documentos, Política & Teoria – Volume 6

VI CONUNIPA


Apresentação

O VI congresso da UNIPA, realizado em novembro de 2016, se deu num contexto particularmente complexo, o da dissolução do bloco no poder no Brasil (que levou ao golpe parlamentar que derrubou Dilma Rousseff) e da intensificação da luta de classes, intra-classes e interestatal. Se deu também num momento de acirramento da ofensiva burguesa, que tentando manter as altas taxas de acu-mulação de capital, rompeu múltiplos pactos de colaboração de classe (o pacto trabalhista-corporativista, criado nos anos 1940; o pacto nacional-desenvolvimentista, criado anos 1960; o pacto da redemocratização, dos anos 1980), pactos estes que asseguravam determinados direitos à classe trabalhado-ra, mas que também limitavam seu desenvolvimento enquanto sujeito autônomo.

Desse modo, as reformas neoliberais comandadas pelo PMDB têm uma profundidade histórica muito grande, acenam para novos cenários da luta de classes. Por um lado, a dissolução do bloco no poder e a intensificação das refor-mas tende, no curto prazo, a deteriorar as condições de vida do povo. Por outro lado, vários mecanismos de controle e domesticação social, que davam governa-bilidade ao conjunto do sistema, serão removidos, e no médio prazo aumentará a polarização de classes.

Nesse sentido, no médio prazo, novas forças da classe trabalhadora, des-trutivas e criativas, serão liberadas, e será travada a batalha histórica pela for-mação da consciência da nova classe trabalhadora em gestação. Contra estas novas expressões de luta da classe trabalhadora irão opor-se a velha burocracia reformista degenerada: o PT, o PCdoB e todas as suas forças acessórias. É para esta batalha que os anarquistas revolucionários devem estar preparados, para ajudar a classe trabalhadora a encontrar seu caminho rumo a autonomia.

A classe trabalhadora, em suas diversas expressões, tende a insurgir-se. Mas as formas insurrecionais precisam se consolidar, dando o salto qualitativo, de expressões temporárias de revolta para a organização permanente da in-surgência. Para isso, os anarquistas revolucionários precisarão dar uma profunda contribuição teórica e prática.

O VI Congresso apontou, então, a necessidade de aprofundar o trabalho organizativo por dentro das insurgências que se avizinham. Não nos contentare-mos apenas com a dimensão destrutiva e temporária dessas. Nosso trabalho é contribuir para que surja, de dentro das insurgências, uma confederação sindica-lista revolucionária, capaz de levar adiante a luta por uma sociedade socialista no Brasil. E este é o primeiro passo, mas essencial, da libertação da classe trabalha-dora brasileira.

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PELA FORMAÇÃO DE UM COMITÊ DE APOIO E PROPAGANDA DA UNIPA NO PIAUÍ

Os Bakuninistas piauienses

Este texto foi produzido pelos/as bakuninistas do Estado do Piauí. Tem por intenção analisar criticamente o desenvolvimento da organização política anarquista no Estado, e com este documento, formalizar nosso pedido de criação de um Comitê de Apoio e Propaganda da UNIPA.

Nossa análise começa nos anos de 1990, indo até a atualidade, dividindo-se em quatro grandes blocos: O contracultural, de 1990 a meados de 2000; o universitário-espontaneísta, de meados de 2000 a 2013; o educacionista, de 2013 a 2015; a bifurcação organizacional de 2015 à atualidade. Vejamos:

Chamamos de etapa contracultural o período entre os anos de 1990 a meados dos anos 2000, quando se articulou no Piauí o “Grupo de Estudos Anarquistas”. O GEA era formado hegemonicamente por anarcopunks, e tinham a contracultura como base de suas atividades.

O grupo realizou ações esporádicas, como campanhas contra as eleições e o militarismo, no dia da “Independência”. Com base social formada pela juventude precarizada e marginalizada, colaborou significativamente para a ocupação de onde hoje é o bairro Vila Irmã Dulce, em Teresina, no ano de 1998.

Por suas debilidades teóricas, como o ecletismo, o grupo não avançou na formação de bases sociais fora da esfera contracultural nem em organização política. Na medida em que seus membros cresciam, abandonavam o ambiente anarcopunk, e consequentemente o GEA. Incapaz de renovar seu corpo-ativo, deixa de existir em meados dos anos 2000.

Parte da juventude que fazia parte ativa no GEA, ou mesmo os que estavam sob a sua influência, adentraram a Universidade. E nelas, sem um corpo que organizasse federativamente as forças individuais, acabou por se tornar espontaneísta, ou seja, disposta a contribuir para as lutas universitárias interligando-a com a luta de classes, mas sem unidade teórica, aderindo também ao ecletismo, por vezes levados à reboque pelos programas políticos de outras organizações reformistas.

Apesar disso os anarquistas ganham um significativo campo de influência entre os estudantes “independentes” e elevam o nível estratégico da luta contra o desmonte da educação pública no governo Lula, como a Reforma Universitária. Colaboram veementemente para o rompimento do DCE e de outros cursos, como Serviço Social, com a degenerada UNE/PCdoB, mas eventualmente realizam alianças políticas com outros grupos reformistas, como a ANEL/PSTU e OE/PSOL. Do mesmo modo, ao criticar a estrutura do Movimento estudantil e sindical, não conseguiram dar uma resposta concreta aos problemas estruturais e organizativos que permeavam estes ambientes.

Suas características eram a ultracombatividade, disposição e sincera entrega na luta do povo, o que infelizmente não coincidia e nem foi suficiente para a formação de uma organização política que mantivesse unidade teórica, impedindo assim desvios liberais típicos do espontaneísmo.

Com o Levante dos Marginalizados de Junho de 2013 o anarquismo tornou a ser debatido em todos os âmbitos da luta do povo como no movimento estudantil, sindical e popular. É a partir desses debates, e de uma conjuntura favorável na situação piauiense, como a descrença popular diante da democracia burguesa (eleições, legislações, instituições e partidos) que o Grupo de Estudos Anarquistas do Piauí (GEAPI) surge, em Teresina e em Parnaíba.

Hegemonicamente sua estrutura de militantes era formada por estudantes universitários, com alguns trabalhadores e secundaristas.

Suas principais atividades giravam em torno de leitura de textos diversos e atividades esporádicas com base meramente histórica e saudosista, sem conseguir responder aos desafios que a atualidade da luta de classes exigia, nem avançar na crítica sobre as vacilações e degenerações do anarquismo no mundo. Apesar dos significativos esforços despendidos por seus membros, o GEAPI continuou na linha do ecletismo, reproduzindo os mesmos erros cometidos anteriormente.

Assim, o GEAPI corresponde a fase educacionista, que se esforçava para propagandear “o movimento anarquista”, como se este por si só pudesse resolver as contradições sociais pela “propaganda e educação”, ou mesmo como se existisse um “movimento anarquista” homogêneo e isento de contradições. Tal afirmação se materializa pela prática. Diversos “seminários” sobre o anarquismo foram realizados, sempre em torno de uma “História do Movimento Anarquista”.

Ao passo em que o GEAPI se consolidou, outras organizações passaram a interagir com o grupo, como os especifistas da Coordenação Anarquista Brasileira, em especial a Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ) e a Organização Resistência Libertária (ORL) de Fortaleza-CE, assim como os bakuninistas da União Popular Anarquista (UNIPA). Distantes dos debates nacionais, compreendíamos ainda dentro do GEAPI que a disputa entre as duas maiores organizações anarquistas do Brasil não passava de debates infrutíferos, desnecessários e sem consequências na realidade. Hoje, conscientes da profundidade e necessidade deste debate, avaliamos como equivocada a nossa análise, e caso tivéssemos atentado com mais cuidado a disputa, nosso rompimento para construir a UNIPA teria se dado muito antes.

Em 2014, o I Congresso Anarquista do Piauí (I CONAPI) foi decisivo para o amadurecimento do anarquismo no Estado. Foi onde, pela primeira vez, o confronto entre especifistas e bakuninistas ficou mais visível, e auxiliou nas discussões internas sobre os rumos do anarquismo piauiense.

Foi nesse período que um pequeno, porém coeso e disciplinado grupo dentro do GEAPI passou a investigar com mais energia a polêmica anarquista nacional e internacional, se convencendo que tanto o ecletismo quanto o especifismo não teriam capacidade política de participar e criar condições favoráveis à Revolução Brasileira.

A partir do I CONAPI, os debates de linha política ficaram cada vez mais claros dentro do GEAPI. A segunda edição do Congresso já não era sequer a sombra do primeiro. Sem uma política séria de ingresso, o grupo passou a arregimentar “simpatizantes”, quer das duas fases anteriores, quer novos contatos, que tinham se tornado em essência e em prática, liberais radicais e/ou social-democratas. O GEAPI também ensaiava participar dos debates de linhas políticas no Piauí. Assim lança uma tese ao Congresso de Estudantes da UFPI (CONEUFPI) e diversos textos sobre o sindicalismo, educação e o Movimento Estudantil no Piauí. Formava-se assim uma organização perigosamente híbrida: Por um lado, aglomerava indiscriminadamente “simpatizantes” do anarquismo em sua perspectiva educacionista meramente propagandística, e tentava articular lutas estudantis e sindicais, o que exigia um grupo coeso e com unidade teórica.

Devido a essas contradições, em 2015 o GEAPI deixa de operar. Diversos companheiros e companheiras rompem com essa organização, percebendo suas limitações e compreendendo a importância da unidade teórica para colaborar efetivamente com a agudização da luta de classes no Estado. A proposição dos camaradas da UNIPA, lançada ainda durante o CONAPI, então se mostravam claras: “A libertação da classe trabalhadora exige mais do que boas ‘intenções’, exige respostas concretas dos anarquistas para combater a burguesia, a repressão e as burocracias (…)”.

O amadurecimento de nossa posição política levou-nos a enxergar o especifismo da CAB como a repetição parcial dos erros organizacionais iniciados no Piauí com o Grupo de Estudos Anarquistas nos anos de 1990, e não era para nós uma opção viável para os fins que buscávamos. Isto já havia se manifestado diversas vezes pela prática de seus militantes, como nos boatos gerados dentro do CONAPI contra os militantes da UNIPA, apontada como “uma seita de marxistas ortodoxos travestidos de anarquistas”, assim como Bakunin, Makhno e os Amigos de Durruti foram chamados pelos confucionistas do anarquismo.

Internamente, e depois de participar de formações políticas com a ORL/CAB, em especial, os Seminários “Anarquismo e Organização Popular”, esta aparentava, pela prática, ser um grupo que esporadicamente se reunia para fazer trabalho de base, que não haviam superado o romantismo, e que por isso tinham pouca ou nenhuma base social, nem muito menos mantinham unidade teórica local, regional ou nacional, notadamente percebida pelo posicionamento de outros núcleos da CAB em outros Estados.

Apesar de nossas ponderações, explícitas em conversas individuais ou nas últimas reuniões internas realizadas pelo GEA, o bloco que não refletiu a realidade do anarquismo no Piauí como nós, optou por um alinhamento pró-CAB.

Como avaliamos internamente, o grupo da CAB no Piauí (“Organização Anarquista Zabelê” – OAZ) não avançaria pelas debilidades teóricas não resolvidas (e aprofundadas) com o ecletismo, reproduzidas na prática do especifismo, e se dissolveria por falta de unidade teórica. O tempo mostrou que nossa análise estava correta, e ao que sabemos, tal organização deixou de existir no início de 2017.

Nós, apesar de coesos e conscientes das tarefas que recaiam sob nossos ombros desde o rompimento com o GEAPI (por um lado, avançar na construção de um amplo campo de lutas que envolvesse trabalhadores e estudantes, e por outro, colaborar para a forja e propagação de nossa linha política no Piauí), acreditamos que não era a hora de iniciar um projeto de organização política via formação de um Comitê de Apoio e Propaganda (CAP) da UNIPA, por entendermos que nós mesmos possuíamos heranças ecletistas, que precisavam ser neutralizadas, e que essa depuração só ocorreria com um rigoroso trabalho de base, onde a prática nos daria oportunidade de refletir nossas próprias limitações e possibilidades.

Para resolver este impasse, realizamos formações internas, onde debatíamos os materiais publicados no site da UNIPA, assim como seus comunicados e as edições do jornal Causa do Povo. Fundamos uma articulação provisória, o Círculo de Debates Anarquistas – Piauí (CDA-PI), onde produzimos um documento intitulado “O Velho e o Novo Anarquismo no Piauí”, indicando nosso firme propósito de ação e a nível político, permitindo o ingresso na articulação nascida do rompimento com o GEAPI, e que hoje, avaliamos que a decisão nos deu bons resultados. Da mesma forma, dedicamos nossos esforços para erguer uma tendência capaz de tornar viva a alma da luta pela causa do povo, o que também avaliamos como positivo.

Entendendo que este problema foi parcialmente resolvido, concluímos que é chegada a hora de somarmos esforços ao bakuninismo nacional, e assim, solicitamos oficialmente à União Popular Anarquista a formação de um Comitê de Apoio e Propaganda no Piauí.

O nosso trabalho foi e é firme, sincero e constante. Avançamos consideravelmente em nossos planos. Combatemos com veemência a reação e a socialdemocracia. Foram as nossas mãos as primeiras que se erguiam na defesa de nossa classe, e as últimas que cessavam nos ataques contra os inimigos do povo. Vimos organizações surgirem e desaparecerem, mas, como sólidas árvores fincadas no chão por suas profundas raízes, passamos por diversas tempestades. E assim continuaremos a atuar no Piauí, para acelerar o rompimento das correntes que esmagam o povo, e construir, da periferia para o centro, a Revolução Brasileira que colocará um fim às contradições sociais existentes em nossa época.

BAKUNIN VIVE E VENCERÁ!

TODO PODER AO POVO!

ANARQUISMO É LUTA!

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Toda solidariedade às e aos companheiras(os) da Federação Anarquista Gaúcha e lutadores(as) do povo!

Na madrugada de 25 de outubro de 2017 a polícia civil do Rio Grande do Sul iniciou uma investigação, Operação Érebo, deflagrada com mandados de busca e apreensão nas cidades de Viamão, Novo Hamburgo e Porto Alegre. Os mandados levaram a invasão da antiga sede da FAG (onde funcionava o ateneu Batalha da Várzea), da Ocupação Pandorga, da sede do Coletivo Parrhesia e de várias casas de militantes. A polícia declara que são 30 investigados, sendo 15 deles estudantes da UFRGS.

A polícia civil roubou livros (que constavam no mandado como material perigoso), panfletos, computadores, pen drives, hds, celulares, material serigráfico para confecção de camiseta, faixas de manifestações, adesivos e garrafas pet com material de reciclagem – estes últimos foram absurdamente veiculados pela mídia e pela polícia como suposto material para confecção de coquetéis molotov.

A repressão contra a FAG não é inédita. Em 2009, por ocasião das mobilizações contra o governo Yeda Crusius/PSDB e de denúncia do assassinato do sem terra Elton Brum pela Brigada Militar, sua antiga sede já havia sido invadida pela polícia civil do Rio Grande do Sul. Em 2013, no contexto do levante popular, em duas ocasiões a sede da FAG foi invadida pela Polícia Civil do Governo Tarso Genro (PT) e pela Polícia Federal. O governador atribuiu à FAG crimes de ódio, chamando a organização de “anarco-fascistas”.

A criminalização contra o anarquismo em período recente foi realizada também por intelectuais vinculados ao PT, associando Black Bloc e anarquismo a fascismo, e por dirigentes políticos do PSTU. O reformismo contribui com a repressão e perseguição ao criminalizar as e os anarquistas. Ainda em 2013, a Polícia Militar do Rio de Janeiro, após a violenta desocupação da Aldeia Maracanã, procurou justificar seus atos afirmando que a existência de uma bandeira anarquista hasteada na Aldeia era a prova das intenções daqueles que lá estavam e que, por isso, o uso da força era necessário.

Pós levante de 2013 e as manifestações de 2014 tivemos a perseguição a militantes anarquistas, comunistas e independentes, que levou ao processo de 23 militantes no Rio de Janeiro. Foram presos na véspera da final da Copa do Mundo da FIFA em um processo que contou com a articulação dos governos federal e estadual. Esses 23 militantes sofrem com um processo fantasioso e sem evidências cuja sentença já parece dada de antemão.

Esse cenário conta ainda com a cobertura manipuladora da grande mídia que faz todo o esforço para punir todas aquelas e aqueles que lutam por um mundo verdadeiramente livre, justo e igualitário. A polícia e a mídia difundem a associação do anarquismo ao crime, numa técnica de propaganda de massas que, usando até de literatura como supostas provas, pretende uma condenação social sumária. A política da classe dominante é tentar sufocar as reinvindicações e revolta do povo por meio do discurso do terror, tentando criminalizar movimentos sociais e organizações que propõem a transformação radical da sociedade brasileira.

Diante de um cenário cada vez maior de abstenção/voto nulo eleitoral e da organização de forma autônoma de trabalhadoras e trabalhadores o Estado brasileiro responde com mais violência, como já o faz cotidianamente nas favelas, periferia e interior do Brasil. A repressão contra os anarquistas e novamente contra FAG não é um fato isolado. Já vivemos sobre um Estado de Exceção que se agudiza cada vez mais para explorar ainda mais o povo, seja sob a liderança do PSDB, PT ou PMBD, como fica bem claro no caso do Rio Grande do Sul. É evidente a instauração de uma perseguição política sistemática. É preciso se organizar cada vez mais e melhor para combater o Estado e o Capital.

As e os militantes da União Popular Anarquista (UNIPA), repudiam toda e qualquer repressão aos que lutam e as tentativas, de quem quer que seja, de criminalizar o anarquismo. Estamos solidários aos companheiros e companheiras da FAG e as lutadoras e lutadores do povo. Afirmamos que todos esses atos de violência do Estado, do Capital e dos reformistas só aumentam nossas convicções, e a certeza da estratégia da ação direta na luta reivindicativa e a organização da autodefesa de massas para as manifestações de rua.

Abaixo o terrorismo de Estado! Avante anarquistas!
Não a criminalização dos lutadores do povo!

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